Conicções — um vídeo de Mário Pazcheco (1998-2026)
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Conicções — um vídeo de Mário Pazcheco
Há algo de profundamente insurgente em Conicções. Não no sentido panfletário, mas na recusa silenciosa de obedecer às formas domesticadas da imagem contemporânea. Em tempos de vídeos calibrados para retenção, cortes milimétricos e narrativas mastigadas, o trabalho de Mário Pazcheco surge como um gesto de ruptura — ou melhor, como permanência de uma linhagem que nunca se rendeu.
O vídeo se constrói como uma espécie de fluxo descontínuo, onde imagem e som não buscam harmonia, mas fricção. Há uma lógica interna, sim — mas ela não se oferece de imediato. Exige do espectador uma postura ativa, quase arqueológica. Não se trata de “entender”, e sim de atravessar.
A montagem é nervosa, por vezes deliberadamente imperfeita. Planos que poderiam ser descartados em qualquer edição convencional aqui ganham estatuto de linguagem. O erro — ou aquilo que o padrão técnico classificaria como erro — é incorporado como matéria expressiva. Nesse sentido, Conicções dialoga com tradições do cinema marginal brasileiro e com experiências radicais de grupos como a Belair Filmes, onde o fazer cinematográfico era também um ato de desobediência.
Há também um aspecto importante: o vídeo parece operar como arquivo vivo. Não um arquivo organizado, catalogado, mas um arquivo pulsante, onde fragmentos se acumulam sem hierarquia evidente. Memória, ruído, presença — tudo se mistura. É como se o vídeo recusasse a ideia de passado fixo e optasse por uma memória em movimento.
O som, longe de cumprir função ilustrativa, atua como camada autônoma. Interferências, ambiências cruas e possíveis sobreposições criam uma paisagem sonora que não guia, mas desestabiliza. Isso reforça a sensação de que estamos diante de um objeto que não quer ser consumido, e sim experienciado.
Conicções também pode ser lido como um manifesto silencioso contra o acabamento excessivo. Em vez de polimento, há atrito. Em vez de clareza, há densidade. É um vídeo que não pede licença — ele se impõe como registro de um processo, de uma trajetória, de uma insistência.
No contexto da produção independente e das práticas contemporâneas de circulação — especialmente essa transposição para PDFs, arquivos e reedições digitais — o trabalho de Pazcheco ganha ainda mais relevância. Ele aponta para uma ética do fazer: produzir, registrar, reorganizar e relançar, não como produto final, mas como continuidade.
No fim, Conicções não oferece respostas. E talvez essa seja sua maior força. Ele nos lembra que a imagem ainda pode ser território de risco — e que nem tudo precisa caber nos moldes do presente.


