Rock Brasília e suas falsas origens (2012)

AS ALEGADAS FALSAS ORIGENS DO ROCK BRASÍLIA

No coração do Goiás, em 1957, um "Elvis" peculiar alçou voo rumo à capital. Um pássaro preto, a graúna canora, com seu repertório de uma hora, seria a improvável primeira manifestação do rock em Brasília.

Mas a melodia rebelde também sintonizava nas ondas do rádio, na voz de locutores como Neci, tecendo outra possível trama para o nascimento do rock na cidade.

A primeira geração do rock candango pulsava nas bandas de baile, nos palcos fumegantes da Boite Tendinha (Hotel Nacional) e nos obscuros "inferninhos" da W3 Sul. Dessas atmosferas noturnas emergiram o Matuskela e o Placa Luminosa.

Os ídolos da Jovem Guarda ecoavam na TV Brasília, escoltados por esses músicos de bastidores. O "Tremendão" Erasmo Carlos dividia o microfone com Castello, jornalista roqueiro, e com um Elvis e Chuck Berry do Planalto, que riscava o asfalto da capital em sua Harley Davidson, adornado apenas em couro.

E na vanguarda, o inconfundível Badu!

Em tempos de pesadas taxas de importação, as guitarras eram genuinamente made in Brazil. Para saciar a sede sonora da cidade, uma banda de baile se desdobrava em várias outras. Raulino foi o maestro silencioso, fundamental na orquestração do rock em Brasília.

Os rituais sonoros da juventude aconteciam nas matinês vibrantes do Clube Primavera, no Clube dos 200 e nos palcos dos clubes do Setor de Clubes.

A Concha Acústica, em sua estreia em 1971, durante o transe sonoro dos Mutantes, presenciou a transgressão de Rita Lee, que libertou a erva. Dez anos depois, em 1981, no Rock Cerrado, foi a vez de Raul Seixas incendiar a atmosfera e “alugar” a Península dos Ministérios.

Anos 70/UnB: "O Portal foi uma banda de rock progressivo de Brasília, na década de 70, que tocava composições próprias. Figuravam na banda Luiz Carlos Maranhão (Kuenca) no teclado e vocal, Reginaldo Maranhão na bateria, Zé Ângelo Amado (contrabaixo) e TT Catalão (1949-2020), efeitos e vocal. Uma das músicas era "Os campos hoje Tornam-se Verdes", alusão à ecologia, naturalismo e um chamamento à espiritualidade em uma época em que a ecologia não era ainda uma preocupação da humanidade. Kuenca fez biomedicina na UnB e trabalha hoje no saneamento básico do DF. Zé Ângelo formou-se em engenharia elétrica e trabalhou na Embratel, Ministério das Comunicações, Anatel e Telebrás. Tetê Catalão é jornalista e escritor, todos moram em Brasília até hoje. O paradeiro de Reginaldo é desconhecido. Outra banda contemporânea era A Margem". (José Ângelo Amado)

1975:   Biscoito Celeste (participa da Festival Banana Progressiva em São Paulo)

1976: Tellah – CeuB  6 dez. Rock diplomático "Dia 6 de dezembro de 1976 em Brasília: estreia profissionalmente um conjunto de rock que vai fazer balançar, até mesmo por força de solidariedade familiar, todo o Itamaraty: ele é formado por um filho do embaixador Sérgio Correa da Costa que está na ONU. outro do ministro Geraldo Hollanda Cavalcanti, do gabinete do Chanceler Silveirinha (que hoje estará no Rio) e dois do secretário Romeu Zero, do Departamento Cultural". Jornal de Ibrahim Suede/O Globo - só faltou informar o nome do supergrupo - duvido que algum dia descobriremos mas fica o registro inédito do rock Brasília no apogeu da picadura digo ditadura.

Para que a memória não se torne injusta, é necessário registrar com precisão: as bandas setentistas  A Brisa, A Margem, A Nata, Biscoito Celeste, Carênciafetiva, Grupo Saga (com participação do ator Aloísio Batata), O Bueiro, O Portal e Sol Noturno  não chegaram a se consolidar na década de 1980.

Apesar disso, sua atuação foi fundamental na formação da cena musical de Brasília. Esses grupos estabeleceram as bases estéticas e estruturais que permitiriam o desenvolvimento do rock brasiliense nos anos seguintes.

Entre os nomes que conseguiram atravessar a transição entre as décadas de 1970 e 1980, destacam-se Mel da Terra, Ligação Direta e Marciano Sodomita. No campo da música popular produzida na capital, permaneceram ativos artistas como Rênio Quintas, Renato Matos, Beirão, Tonicesa Badu e Liga Tripa, contribuindo para a continuidade da produção cultural local.

No resgate dessas informações, o músico Serginho Pinheiro, integrante do Mel da Terra, desempenha papel relevante ao fornecer referências sobre a cena dos anos 1970.

Em termos de registro fonográfico, foram poucos os projetos oriundos daquela década que chegaram ao disco: o grupo progressivo Tellah e o Mel da Terra, com sua proposta folk, lançaram trabalhos no início dos anos 1980, ainda que de forma pontual e com circulação limitada.

Anos 80: A Explosão e a Consolidação

O rock de Brasília já pulsava com Sepultura (Cruzeiro), Aborto Elétrico e Mel da Terra.

1978: Banda do Cachorro Louco
1979:
Aborto Elétrico
1980:
Cabeças, Ciclovia, Pôr do Sol, Banda Grande Circular, Grupo Chackra, Nossa Amizade.
1981: Udyiana Bandha, XXX, Blitx 64, Plebe Rude
1982: Legião Urbana, Capital Inicial, Bambino e os Marginais, Capacetes do Céu, Erva Maldita, Ratos de Brasília, Espaçonave Guerrilha, Cogumelo Atômico, Diamante Cor-de-Rosa, Peter Perfeito.
1983: Detrito Federal.
1984: Akneton, Lado A, Escola de Escândalo, Guilherme Lassance, Miltinho Guedes, Malas & Bagagens.

Nota falsa – O Silêncio Punk (janeiro de 1985):

"Se o punk do Planalto emudeceu em 1979, em 1984 o palco estava vazio. Os precursores tombaram antes do Rock in Rio. A urgência de um rock em português encontrou em Legião Urbana seu arauto."

Elite Sofisticada, Arte no Escuro, Finnis Africae, Obina Shock, Escola de Escândalo, 5 Generais Nervos de Seda, Clones de Ludwig, Heróis do Dia, Anima Verba: o barulho continuava.

O underground de Marciano Sodomita e a sonoridade única do Akneton mantinham a chama viva. A vanguarda encontrou o rock brasiliense em Liberdade Condicional, com Adriano Faquini à frente.

1987: A voz inesquecível de Cássia Eller (Malas & Bagagens), Vagabundo Sagrado, Os Wallaces, Mata Hari.
1988: O universo dos zines e o som soturno do black metal.
1989: Os Alices e o heavy metal made in Núcleo Bandeirante do Puro Sangue.
1990: Os ecos de Rumores de Garagem, Dungeon, Low Dream, Animais dos Espelhos e OZ.
1993: A força de Cachorros das Cachorras e a singularidade do Little Quail.

Hard Rock:

"No Fusão, um guitarrista magistral, Renato, com a alma de Jimmy Page! Marco Canto, que nome!, um cantor fenomenal. O Extremo ostentava a criatividade 'phodda' do guitarrista Cécé! O Nirvana reverenciava Randy Rhoads nos palcos! Fejão, o guitarrista com a velocidade do Oeste! O Fusão rumava para Los Angeles... mas essa é outra sinfonia."

Deja Vu, Concorde, Nervos de Seda, Nata Violeta, Kábula…

Quem ainda lembra  antes de tudo virar versão oficial? Antes do mito, antes dos sites, antes da história já editada?

Antes das narrativas consolidadas, antes das genealogias convenientes, o rock em Brasília já fervia. Ensaios improvisados, palcos precários, fitas gastas, nomes que hoje soam quase clandestinos. Não eram esboços do que viria depois. Não eram promessa de nada. Eram mundos inteiros em combustão  autônomos, urgentes, irrepetíveis.

Esfinge, Aerobus, Metal Livre, Deuses Verdes, Crematório, Infame, Corpo de Delito, Tubo de Ensaio, Frutos do Meio, Karnak (Sobradinho), Cordeiros de Deus, Krisma, Abomination, Nefelibatas, Orion, Rebel, Diário Oficial, Estranhos Hábitos, Clínica Geral, Lisarb, Excalibur,  Desintegration, Cluelty, Baseado no Rock, Torino, Arsenal, Futum, Entulho Cotidiano…

Essa lista não pede ordem  pede escuta. Não é catálogo: é vestígio. Um mapa de presenças apagadas, trajetórias interrompidas, faíscas que não couberam na narrativa que veio depois. Bandas que existiram com intensidade suficiente para desmentir qualquer versão simplificada.

Rock Brasília não nasceu pronto. Não saiu de um único ponto, nem de uma linhagem limpa. Foi múltiplo, simultâneo, contraditório  e exatamente por isso, vivo.

Este texto não quer corrigir a história. Quer desestabilizar o conforto dela. Porque toda origem que se apresenta como única quase sempre esconde o que precisou ser esquecido para existir.

E, nas palavras de um leitor atento:


"Acima, uma puta aula de cultura brasiliense. Que os saberes sobre o rock, a canção e a cultura em geral na cidade não parem no tom do discurso do filme do – com todo respeito ao mestre – Vladimir Carvalho." (Alves Silveira Sandro)

Articles View Hits
13533994

We have 449 guests and no members online

Download Full Premium themes - Chech Here

София Дървен материал цени

Online bookmaker Romenia bet365.ro