O QUE A BRIGA DO BOLSONARISMO COM O GENERAL QUE ABORDOU DEPUTADO NO CONGRESSO REVELA SOBRE 2026

O oficial foi movido pelo sentimento de honra ao defender o general Tomás, comandante do Exército, de nova ofensa feita pelo parlamentar

Por Marcelo Godoy

https://www.estadao.com.br/

04/05/2026

Oliveiros Ferreira escreveu em Elos Partidos que as ações civis e as do Estado são definidas pela legalidade. Lembrou que, às vezes, algo que é legal pode ser imoral. E concluiu: “Entre os militares, esse dilema não existe, pois o que os inspira é a honra”. Se é imoral, nada feito. Eis um fato de difícil compreensão para alguns.

Em Questions de méthode, Jean-Paul Sartre tratou das críticas do filósofo marxista Georg Lukács a Martin Heidegger e afirmou que era necessário ler Heidegger para conhecer o sentido de suas frases, uma a uma. “Não há um marxista, que eu saiba, que seja capaz disso e, se lesse, ia reprovar ainda mais”, escreveu o francês, para quem “o marxismo seria uma antropologia inumana se não reintegrasse o homem como seu fundamento”.

Incompreensão é o que parece estar por trás do episódio que envolveu o general Emílio Vanderlei Ribeiro, chefe da Assessoria Militar do Exército no Congresso, e o deputado federal Marcel van Hattem (Novo-RS), notório crítico do atual comandante da Força Terrestre, o general Tomás Miguel Ribeiro Paiva.

Em sessão da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, o deputado repetiu a ofensa a Tomás feita por um pastor, o que levou o STF a processar seu autor por injúria. Hattem e o pastor acham Tomás “frouxo” porque não se solidariza com oficiais que foram desleais com seus comandantes e planejaram matar o então presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, executando operações militares para emparedar e dissolver o Alto Comando.

Ao ser abordado pelo general Emílio, Hattem questionou o militar sobre seu “chefe”. O general respondeu que não tinha chefe, mas comandante e defendeu a honra de Tomás e a do Exército. Contrariado, o deputado repetiu que Tomás era “frouxo” porque “presta continência para ladrão”. Hattem estava se referindo ao presidente Lula.

Quanto ao que ele acha de Lula, isso faz parte da política. Mas o problema surge quando o parlamentar sugere algo além: Tomás não deve “prestar continência ao presidente”. Diante da repercussão, Hattem publicou um vídeo, dizendo não ser contra o Exército, mas contra o atual comando.

Para os militares, ao exigir que Tomás se acumplicie com a baderna da rataria, com a quebra da hierarquia e com planos homicidas, Van Hattem parece desejar que o peru comemore o Natal. Como querer que o Exército feche os olhos à deslealdade de subordinados, que tolere a ruptura da legalidade e atire no lixo a hierarquia e a disciplina? Ou transforme a Força Terrestre em bando armado e instaure no País baderna semelhante àquela que tomou a mesa da Câmara dos Deputados para obter a impunidade de todos os acusados no golpe? Hattem parece não compreender o Exército, e o general parece não compreender os políticos.

Um general tentou me intimidar e me ameaçou dentro da Câmara. Isso não pode JAMAIS voltar a acontecer! pic.twitter.com/loBbGer1pE

— Marcel van Hattem (@marcelvanhattem) May 2, 2026

O deputado recebeu apoio de colegas da oposição, todos bolsonaristas, inclusive de Flávio Bolsonaro, o filho candidato do ex-presidente. Eles recriminam o general por ter abordado Hattem e feito a defesa de seu comandante. Alegam que a postura do militar foi imprópria, um constrangimento ao parlamentar, que foi além: escalou o episódio e disse ter sido vítima de “uma ameaça”.

É improvável que algum deles tenha lido Oliveiros, mas, certamente, não teriam dificuldade para compreender a obra e suas frases. Tampouco é provável que tenham lido O Soldado e o Estado, de Samuel Huntington, mas entender e compreender a natureza das relações civis e militares já seria exigir algo demais da maioria de nossa classe política.

Van Hattem, Flávio e outros continuam com o mesmo discurso dos últimos anos, como se quem arquitetou e iniciou a execução do Plano Punhal Verde e Amarelo fosse uma vítima da sociedade e não alguém que deveria pagar pelo seu crime. Lei e ordem são palavras que a maioria – na oposição ou no governo – só entende e gosta quando afetam os seus adversários...

Eis um debate que estará nas campanhas eleitorais deste ano. O governo dirá que defende a democracia, e a oposição, que busca Justiça. Enfim, de todo esse episódio, há quem recrimine um ponto no comportamento do general, que nos dias atuais, em Brasília, muitos, infelizmente, acreditam ser a expressão de uma tolice: deixar-se tomar pelo sentimento de honra. Ele não é como a obra de Heidegger era para Lukács. Trata-se de algo até simples de compreender, mas que é difícil de explicar a quem não o tem.

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