No fim da QNR 5, haverá um arco-íris? (2025)

 QNQ

No fim da QNR 5, haverá um arco-íris?

Na área administrativa mais populosa de Ceilândia, o horizonte da QNR 5 parece suspenso entre o urbano e o rural. A paisagem da fotografia sugere calmaria, mas carrega em si a tensão de um território em disputa. Há dez dias, o DF Legal realizou uma operação de derrubadas com base no princípio da autoexecutoriedade – ação que se estendeu desde o Sol Nascente até os limites desse trecho árido e ainda indefinido.

Moradores relatam que ali poderá surgir um condomínio de prédios projetado para abrigar até sete mil pessoas. Carros chegam logo pela manhã, mas ninguém sabe ao certo se são corretores apresentando o "futuro empreendimento" ou grileiros traçando novas demarcações à revelia da lei. O terreno, sem infraestrutura adequada, se torna campo de ambiguidade: espaço livre ou espaço ameaçado?

Como viemos parar aqui?

Joel, um velho amigo, mudou-se para a QNQ em 2004. Precisou esperar quatro anos para ver o asfalto chegar – só em 2008, durante a gestão Arruda. Desde então, acompanhamos de perto a transformação da área, observando seus ciclos de crescimento e a espécie de peneira social que redefine quem chega e quem permanece. A QNQ, para nós, virou uma extensão dos lugares que habitamos – um espelho do DF em seu estágio mais cru, mais exposto.

O reencontro com os laços afetivos e ancestrais da amizade começou na data simbólica de 20 de julho – o Dia do Amigo. Mas também veio com uma constatação: o WhatsApp nos mantém na superfície rasa das emoções. Enviamos um "oi" ou um emoji qualquer e sentimos, por instantes, que a tarefa do afeto foi cumprida.

Mas quem mantém viva a chama do encontro real é sempre Ely Mendes. Ele toma a dianteira e pergunta, com aquela voz de quem já decidiu:
– E aí, que dia vamos ao Joel?

E assim recomeça nossa saga. Pé na estrada, rumo àquilo que não cabe em mensagens: a presença.

Somos quatro na melhor idade, técnicos experientes no jogo existencial da vida – e ainda seguimos "jogando". Entre uma conversa e outra, enveredamos pela culinária, arte que o Joel domina com maestria. No cardápio desse domingo: quibe cru, costela e peixe. Tudo feito com calma e afeto.

Por aqui, tudo é perto. Basta dobrar uma curva nas ruas longas, muito longas. Foi assim que partimos rumo ao Sol Nascente, enfrentando a pista em obras, em busca do pescado da vez. Mas o peixe – vindo direto do velho Chico, lá da bacia baiana – acaba cedo compramos as duas últimas peça às 11 da manhã.

Na feirinha improvisada, o papo é leve, os rostos são simples, acolhedores. Do outro lado da pista, uma fila enorme se forma diante da distribuidora. A cena lembra uma romaria de domingo – um ritual urbano de abastecimento até a hora do jogo.

Não importa o que aconteça – domingo é dia de alegria, e nós não somos exceção. Estamos reunidos na casa quando surge um imprevisto: a caixa d’água de 500 litros racha e, de repente, uma cena surreal – uma espécie de chuva inesperada em pleno dia de sol. É preciso fechar o registro geral. E, como já virou tradição, acendemos o fogo e nos juntamos ao redor das chamas.

Ali, as conversas ganham vida. Vão da política partidária ao apoio a eventuais candidatos locais para 2026. Falamos de futebol, do passado – com uma boa dose de distanciamento, ironia e amadurecimento. As histórias de viagens interestaduais e suas pequenas aventuras surgem como quem abre um álbum de memórias: rimos, lembramos, confirmamos que valeu viver.

O curioso é que a gente socializa melhor com os netos do Joel do que com nossos próprios filhos. Elas preferem pagode, nós o velho rock – mas no fundo somos todos um só núcleo: mais apegados, mais humanos. As netas, os amigos, as crianças que ainda nascerão têm uma estrada longa pela frente. E nós estamos ali, lado a lado, para dividir o peixe, a cerveja e o essencial da vida.

O que impera ali é simples e grandioso: respeito, amor e um calor humano que só se encontra no seio da mãe.

QNQ vermelha

O ponteiro avançou e já era hora de levantar poeira. Enquanto nos preparávamos para partir, Joel comentou, com aquele brilho nostálgico nos olhos, que tinha assistido em primeira mão ao VHS de The Wall, ainda nos anos 80. O filme — uma avalanche de imagens e sensações – tocava em temas que ressoam até hoje: amor, amizade e reencontro. Mas esses sentimentos aparecem mais como ausências dolorosas ou desejos frustrados, até que, lá no fim, uma possível redenção se anuncia.

The Wall não entrega respostas fáceis, mas revela algo essencial: por mais fundo que se vá no isolamento, ainda existe esperança de reconexão – desde que se derrube o muro.

Entre nós quatro, cada lado dessa parede emocional tem sua canção preferida. A minha é “Comfortably Numb”. E foi exatamente ela que nos embalou no caminho de volta para casa, no som do carro, enquanto me despedia de Ely e Zé Otávio, um pouco antes de Joel e sua companheira Tânia, e do amigo Dudu — sempre atencioso e acolhedor.

Ao fundo, ficou também a imagem de uma garota chorona, que só queria dançar.

O restante do domingo foi extraordinário – ou melhor, espetacular, como diriam os âncoras dos telejornais. Voltei para casa com um sorriso largo: meu time paulista havia vencido o clássico interestadual contra o rival carioca. Mas a noite ainda reservava mais para os sentidos.

Ao lado da minha companheira Marizan, seguimos para o teatro. Fomos assistir à peça "Marielle", uma experiência intensa conduzida por Jorge Antunes, um maestro e compositor que nos arrasta para um mergulho profundo no morro, na favela, na comunidade. Sem filtros, a encenação escancara a guerra brutal travada pela polícia e pela milícia contra o povo preto e pobre.

Cada espectador há de dar seu próprio diagnóstico, conforme os olhos que carrega. O meu? Vi ali a afirmação de que o voo em direção à liberdade é alto, mas o preço é imenso – muitas vezes, paga-se com a própria vida. São vários os muros e cárceres.

 

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