Apple — o experimento mais selvagem dos Beatles (1967-68)
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Inside Apple — o experimento mais selvagem dos Beatles
A Apple Records não era apenas uma gravadora. Foi a tentativa dos Beatles de redesenhar a forma como arte, dinheiro e poder poderiam coexistir. Concebida em 1967, a Apple surgiu quando o grupo já havia superado o sistema que os tornara famosos. Estavam cansados de contratos, contadores e executivos — os homens de terno que controlavam orçamentos, agendas e aprovações. O sucesso trouxera liberdade, mas apenas dentro de uma gaiola de burocracia. A Apple foi pensada como a saída.
O fim de 1967 marcou o auge da contracultura: vida comunitária, rejeição à hierarquia, desconfiança da autoridade. John Lennon e George Harrison, em especial, acreditavam que a criatividade florescia melhor sem porteiros. Se a velha indústria filtrava pessoas para fora, a Apple deixaria as pessoas entrarem. A filosofia era simples e radical: qualquer um poderia atravessar a porta. Artistas, poetas, inventores, cineastas — se houvesse uma ideia, a Apple ouviria. Não haveria audições, triagens ou barreiras. A Apple financiaria talentos ignorados por um mundo empresarial rígido e libertaria os artistas da pressão comercial. Como conceito, era nobre.
Também estava fadado ao fracasso.
A Apple não foi criada para dizer “não”. Não havia sistemas funcionando de fato: nem orçamentos claros, nem processos de seleção, nem limites. As boas intenções substituíram a estrutura; a generosidade tomou o lugar da responsabilidade. A crença era de que o talento surgiria naturalmente e que os abusos se resolveriam sozinhos. Não se resolveram. O que veio depois foi previsível: caos, desperdício, exploração e paralisia. O idealismo colidiu com a realidade quase imediatamente. A Apple tornou-se um ímã não apenas para a criatividade, mas também para oportunistas, fantasistas e pessoas que confundiam acesso com direito adquirido. A ironia é evidente: criada para proteger os Beatles do mundo dos negócios, a Apple acabou se tornando uma das forças que aceleraram o colapso interno do grupo. Resta a pergunta: foi uma bela ideia que nunca teve chance ou um sinal de alerta que os Beatles ignoraram?
Nesse mesmo ecossistema contracultural orbitavam figuras que representavam o oposto da utopia ingênua. Sonny Barger, nascido Ralph Hubert “Sonny” Barger Jr. em 1938, foi o Hells Angel mais poderoso e simbólico da história — o homem que definiu o que os Hells Angels se tornariam. Fundador e líder do capítulo de Oakland em 1957, transformou um grupo regional e desorganizado de motoqueiros em uma irmandade estruturada, temida e reconhecida internacionalmente. Unificou capítulos sob regras comuns, impôs códigos rígidos de lealdade e construiu a imagem do Angel como fora da lei consciente, não apenas um bêbado violento. Diferente de outros, falava com jornalistas, escrevia livros, entendia o poder da narrativa. Conviveu com Ken Kesey, os Merry Pranksters e o Grateful Dead, circulou em festas psicodélicas regadas a LSD, mas nunca foi hippie. Desprezava o pacifismo ingênuo. Representava o lado armado, masculino e brutal da contracultura. “Eles falam de liberdade”, dizia. “Nós vivemos como quisermos.”
Seu nome ficou definitivamente marcado pelo Festival de Altamont, em 1969, quando os Hells Angels foram contratados para fazer a segurança do show dos Rolling Stones e um espectador acabou morto. Altamont virou o fim simbólico dos anos 60. Barger sempre defendeu os Angels, alegando legítima defesa, e jamais demonstrou arrependimento público. Preso diversas vezes, condenado por conspiração, drogas e armas, passou anos na prisão e sobreviveu a um câncer na garganta que lhe tirou a voz natural. Ainda assim, saiu como lenda viva do fora da lei americano — um chefe, não um mito romântico.
Se Sonny Barger era o homem que mandava acender ou apagar a luz, Skip Workman era o Angel que ocupava o canto escuro da sala. Integrante dos Hells Angels da Califórnia, ligado ao capítulo de Oakland e à Bay Area, ativo no fim dos anos 1960, Workman não buscou notoriedade nem deixou livros. Circulava nos mesmos ambientes que Ken Kesey, Neal Cassady, Owsley Stanley e gente próxima ao Grateful Dead. Era respeitado internamente, linha dura, presença constante em festas, viagens e eventos underground. Surge em memórias e relatos orais como personagem recorrente do bastidor pesado da época. Não discursava — ocupava espaço. Existe mais no registro subterrâneo da história do que nos arquivos oficiais.
Esses mundos se encontraram de forma emblemática em dezembro de 1968. Pouco antes do Natal, os Beatles entraram em contato com o Grateful Dead para acertar os detalhes de uma operação improvável: Ken Kesey, um grupo de Merry Pranksters e alguns Hells Angels atravessariam o Atlântico levando um verdadeiro arsenal de LSD para Londres. O pedido era específico: o ácido de Owsley Stanley.

Natal de 1968, Apple Corps.
John Lennon fantasiado de Papai Noel, Yoko Ono ao seu lado, e Mary Hopkin sentada no chão — entre presentes, árvores e excessos. Uma noite em que o espírito natalino se misturou à contracultura, ao ácido de Owsley e ao fim da inocência dos anos 60.
Em 23 de dezembro de 1968, a Apple realizou o que se tornaria uma ruidosa festa de Natal em sua sede. Os Beatles, embalados pelo sucesso do White Album, queriam dar um brilho extra à celebração anual. Kesey chamou a troca de “um empréstimo cultural”. Um memorando interno circulou antes do evento: todos deveriam levar os filhos; quem não tivesse filhos poderia levar um casal. Centenas de crianças de funcionários da Apple estavam presentes, criando um clima alegre e quase doméstico. Mary Hopkin, uma das primeiras artistas contratadas pela Apple e sucesso em 1968 com “Those Were the Days”, também estava lá.
Havia um peru de 22 quilos sobre uma mesa farta e sofisticada. Quando um Hells Angel faminto tentou pegar uma coxa, foi repreendido de forma grosseira por um executivo, diante de todos. “A sala se polarizou de repente”, observaria Kesey depois. Foi então que, de um canto, surgiu John Lennon vestindo uma fantasia boba de Papai Noel, com Yoko Ono ao lado. “Chega!”, decretou. A festa começou de verdade. Sob o efeito magistral do ácido de Owsley, John, Yoko e Mary passaram a noite abraçados sob a árvore de Natal. Mais tarde, John e Yoko acabaram colados no carpete, grudados um ao outro. Os Hells Angels voltavam ao bufê para repetir e triplicar, enquanto Mary Hopkin talvez se perguntasse como uma ave tão inocente do País de Gales fora parar no meio daquela loucura natalina.
Décadas depois, os ecos desse encontro ainda ressoariam. Em 2016, Paul McCartney convidou Bob Weir para subir ao palco com ele em Boston. “Alguém com quem nunca toquei antes, mas sempre quis”, apresentou. Depois de tocar “Hi Hi Hi” e “Helter Skelter”, Paul brincou com a plateia: “Como é que chama isso… os Grateful Beatles? Ou os Beatles Dead?”
A história da Apple, dos Angels e da contracultura não termina ali. Ela se estende no tempo, envelhece, perde amigos, organiza vaquinhas, cria redes de apoio, cuida dos seus feridos. A utopia de portas abertas continua bela — e perigosa. A Apple tentou provar que liberdade bastava. A história mostrou que liberdade, sem estrutura, cobra juros altos.

25 de dezembro de 1968 — Natal com os McCartney.
Pouco depois de voltar de Portugal, Paul viajou com Linda e Heather para o Wirral, onde passaram o Natal na casa “Rembrandt”, em Gayton, comprada por ele para o pai, Jim, em 1964. Para a família, aquele encontro talvez tenha sido mais que uma celebração: era, possivelmente, a primeira apresentação oficial de Linda e Heather — e o momento em que Paul anunciava que seria pai.

