O RESPLENDOR QUEBRADO DE SYD BARRETT (2025)
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O RESPLENDOR QUEBRADO DE SYD BARRETT
Um olhar nostálgico sobre The Madcap Laughs
Erros, pausas, tropeços, desafinação… a fita continua girando.
Não para. Sempre comparei este disco ao de Tanguito: há caos, depressão, incoerência, muita psicodelia, brilho e também algo espiritual que os une. Ambos são meus preferidos.
Gilmour teve a ideia de publicar o material bruto; por isso, na maioria das faixas, ouvimos apenas a voz de Syd e seu violão. O mesmo fez Javier Martínez ao gravar Tanguito: “Não pare a máquina, segue, que isto é uma gravação documental”.
The Madcap Laughs é uma montanha-russa, talvez uma roleta. Tudo converge num disco estranho e belo, uma invocação quase secreta de Syd Barrett tocando uma sessão íntima para aqueles que ainda o admiram.
É essa lembrança transformada em documento: um testemunho frágil e trêmulo que acabou se tornando — sem que pretendesse — um disco de culto. Uma porta entreaberta para a vulnerabilidade de um artista que deixou gravado, em cada tomada imperfeita, o brilho do seu desmoronamento — ou de sua eternidade.
Gravado entre 1968 e 1969 em Abbey Road e lançado no início de 1970, The Madcap Laughs não é simplesmente seu primeiro álbum solo: é uma espécie de diário íntimo sem revisão possível. Gilmour, Waters, Jones, Jenner… todos se revezaram para acompanhá-lo naquele terreno instável. Mas a música de Barrett se comportava como sua própria respiração: irregular, imprevisível, capaz de se romper a qualquer momento. Os outros tentavam segui-lo; às vezes conseguiam, outras não. E, por decisão de Gilmour, o disco preserva esse tremor. Por isso muitas músicas soam como se Barrett estivesse sentado diante de nós, com sua Fender Telecaster mal afinada, deixando a melodia desabar sobre si mesma.
Há faixas — “Dark Globe”, “Long Gone”, “Golden Hair” (um poema de James Joyce transformado em canção), “Octopus” — que não avançam em linhas retas, mas em espirais. Não buscam clareza narrativa nem tentam se encaixar em lógica alguma. São pequenas bolhas de um mundo privado, frases que se repetem sem razão aparente, imagens que se movem como pássaros bêbados. Tudo vibra numa borda incômoda: aquele instante em que um acorde parece pedir permissão para existir e, um segundo depois, se desfaz sem aviso.
“If It’s In You” talvez seja o exemplo mais extremo de sua vulnerabilidade registrada em fita: tentativas frustradas, quebras de voz, a respiração tensa antes de recomeçar… tudo ficou ali, exposto sem pudor, como se o processo fosse mais verdadeiro do que o resultado. E “Terrapin”, com seu tempo arrastado e sua doçura quase desajeitada, abre o disco como uma declaração de transparência: uma canção que promete calma, mas deixa ver, nos interstícios, uma fragilidade insondável. Essas peças não apenas completam o retrato de The Madcap Laughs: tornam-no um documento vivo, um mapa emocional em que cada tropeço importa tanto quanto cada acerto.
Sua capa é uma obra de arte pela magia de Mick Rock. Syd aparece sentado no chão de Wetherby Mansions como se tentasse se firmar em um mundo que já perdera todo o eixo, e essa cena — o cômodo quase vazio, a luz pálida entrando pela janela, o piso pintado em faixas irregulares de laranja, marrom e violeta — funciona como a moldura perfeita para um álbum íntimo e desolado. Ali se condensam suas duas vidas: o jovem brilhante que transformou a psicodelia em um jogo cheio de humor inglês, e o homem que agora escuta o eco de si mesmo como se viesse de outro corpo. O design do piso, inspirado em Les Raboteurs de Parquet, de Caillebotte (obra que o fascinava desde jovem), não é capricho, mas um gesto de pintor: uma tentativa de devolver perspectiva ao seu espaço interior enquanto tudo ao redor se desfaz. Naquelas linhas tortas e obstinadas, fica capturada sua última busca: fixar uma ordem mínima no caos, transformar o colapso em uma imagem onde ainda possa passar um feixe de luz.
Mas o que torna este disco irrepetível não é seu caos — que ele tem — nem sua beleza — que também tem —, e sim a maneira como ambos convivem numa vulnerabilidade que não tenta comover. Syd não posa. Não busca redenção. Não quer provar nada. Canta porque ainda pode, mesmo quando parece impossível. E essa impossibilidade — esse gesto de continuar cantando enquanto tudo range — ilumina o disco de dentro para fora, como uma vela que treme demais, mas insiste em não apagar.
Com o tempo, The Madcap Laughs virou um talismã. Não um álbum de culto por excentricidade, mas por sua estranha capacidade de nos aproximar de um território que raramente encaramos: aquele lugar onde o gênio e a fragilidade quase não se distinguem, onde criar é também despedir-se. Syd se afastou depois, cada vez mais distante da música, até desaparecer da cena. E esse silêncio tornou-se outro capítulo de sua obra: um silêncio que não responde nada, mas aprofunda a pergunta.
Penso em tudo isso e volto — sem querer — à minha adolescência. Ao meu quarto fechado. Àquela guitarra emprestada, com cordas velhas que machucavam meus dedos. Passava horas tentando decifrar “She Took a Long Cold Look”. Não para tocá-la bem; nem para tocá-la igual. Era outra coisa: o desejo de entrar naquela atmosfera de fragilidade e desordem, de sentir por um instante que o mundo podia ranger sem se quebrar. Cada dedilhado torto, cada nota que não saía, me fazia sentir mais perto daquele resplendor ferido. E também — embora eu não soubesse — mais perto de mim.
Porque The Madcap Laughs não é apenas um álbum: é um mapa emocional. Um lugar no qual se pode entrar sem a necessidade de se perder para sempre. Um lembrete de que a beleza, às vezes, aparece justamente nas dobras, nos acentos tortos, na respiração que escapa do compasso.
Talvez por isso, ainda hoje, quando penso em Syd, eu o imagino sentado no chão daquela sala, olhando para uma janela que talvez ninguém tenha aberto. Cantando para uma luz que vacila. Deixando cair uma melodia quebrada como quem deixa cair um segredo.
E nessa fragilidade — luminosa, breve, profundamente humana — encontro, ainda, uma maneira de compreender o mundo: não por suas simetrias, mas pelas fissuras que deixam a música passar.
Texto: Gabriel Artes Visuales

