A Arqueologia Sonora dos Iveys e o Legado Invisível de Pete Ham (2025)
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Miniskirts & Rainbows: A Arqueologia Sonora dos Iveys e o Legado Invisível de Pete Ham
Algumas histórias do rock não chegam ao público como explosões — chegam como ecos. Pequenos sons recuperados do passado, vozes empoeiradas que, quando reorganizadas, revelam mundos inteiros que quase desapareceram. Miniskirts & Rainbows, lançado em 28 de novembro de 2025, é um desses mundos desenterrados: um capítulo perdido da música britânica, reconstruído a partir das primeiras gravações dos Iveys, a formação que antecedeu o Badfinger.
Mas esse lançamento não surgiu do nada. Ele é o ponto mais recente de um longo processo de resgate histórico que começou nos anos 1990 e que atravessa décadas de silêncio, perdas, disputas legais, descobertas milagrosas e, acima de tudo, uma devoção absoluta à obra deixada por Pete Ham.
1. As Origens – Swansea, 1966–1969
Nos bares, casas de show e pequenos estúdios do País de Gales, quatro jovens — Pete Ham, Tom Evans, Ron Griffiths e Mike Gibbins — começavam a moldar uma linguagem musical que misturava a doçura melódica dos Beatles, a psicodelia suave de 1967 e o talento nato para harmonias.
Era o nascimento dos Iveys.
Entre 1966 e 1969, eles gravaram dezenas de demos: algumas em fitas quase improvisadas, outras em sessões mais formais. Eram canções que ainda não carregavam o peso do futuro, apenas a expectativa do possível. Essas gravações, por muito tempo, pareciam destinadas ao esquecimento.
O que se preservou — por sorte, teimosia e acaso — formaria, meio século depois, a base de Miniskirts & Rainbows.
2. O Primeiro Guardião — Dan Matovina e a Restauração dos Anos 1990
Nos anos 1990, quando a história do Badfinger parecia condenada a notas de rodapé, surge a figura decisiva de Dan Matovina. Escritor, pesquisador e arquivista, Matovina recolheu fitas, acetatos, cadernos e memórias dispersas, organizando o que seria o primeiro grande esforço de reconstrução da obra de Pete Ham.
Dessa pesquisa nasceram dois marcos:
7 Park Avenue (1997)
O primeiro álbum póstumo de demos de Pete Ham, revelando sua capacidade melódica em estado puro.
Golders Green (1999)
Um segundo mergulho ainda mais profundo, reunindo rascunhos, gravações caseiras e fragmentos de canções.
Ao mesmo tempo, Matovina publicava Without You: The Tragic Story of Badfinger — um retrato brutal e necessário da banda, de sua glória e de seu colapso. Foi nesse período que o público percebeu que havia muito mais na história dos Iveys/Badfinger do que se imaginava.
3. Justiça Tardia — A Vitória de Petera Ham (1997)
Em 1997, enquanto 7 Park Avenue era lançado, uma batalha jurídica de décadas finalmente chegava ao fim. Petera Ham, filha de Pete, nascida em janeiro de 1975, então com 22 anos, recebeu uma indenização referente a royalties e administração indevida das composições do pai.
Não era apenas uma questão financeira.
Era uma reivindicação moral.
Um reconhecimento — tardio, mas necessário — de que a obra de Pete Ham merecia dignidade.
4. O Segundo Guardião — Tom Brennan e a Nova Arqueologia (2023–2025)
A partir de 2023, uma nova etapa começou. Tom Brennan, fã-historiador e administrador de um dos maiores arquivos on-line sobre o Badfinger, assumiu a função de organizar, restaurar e curar o acervo mais antigo dos Iveys.
Foi Brennan quem trouxe à luz a série:
The Keyhole Street Demos (Volumes 1–3)
Gravações de 1966–67 que mostravam um jovem Pete Ham de 19 anos experimentando diferentes estilos — do humor ao psicodelismo — revelando uma fase até então desconhecida.
Em 2024, ele lançou How Much Is The Sky, consolidando o retrato sonoro inicial dos Iveys.
Esses trabalhos prepararam o terreno para o mais ambicioso de todos.
5. Miniskirts & Rainbows — O Volume 5 da Antologia (2025)
Lançado em 28 de novembro de 2025, Miniskirts & Rainbows é um mergulho arqueológico na gênese dos Iveys. Brennan, desta vez ao lado do engenheiro Kevin McElligott, reuniu:
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19 faixas no CD
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17 faixas no LP de tiragem limitada
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10 músicas totalmente inéditas encontradas em fitas que jamais haviam sido catalogadas
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demos de canções que mais tarde seriam regravadas pelo Badfinger
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composições esquecidas de Ron Griffiths e Mike Gibbins
As músicas inéditas — como Cleopatra in a Miniskirt, Spider Woman, Bound to Get Lucky Someday e Girl Next Door in a Miniskirt (Whistling Version) — ampliam o entendimento da banda antes da transição para o catálogo da Apple.
É mais que um disco.
É um documento histórico sonoro.
6. O Fantasma de Stan Polley
Nenhuma narrativa sobre o Badfinger pode ser contada sem atravessar a sombra de Stan Polley, o empresário cuja fraude e manipulação destruíram a estabilidade financeira da banda.
Polley morreu em 20 de julho de 2009, aos 84 anos, sem ter enfrentado plenamente as consequências legais de seus atos.
O litígio contra ele não terminou — apenas se dissolveu no tempo.
Mas sua influência negativa é fundamental para se entender a profundidade da tragédia que atingiu o grupo.
7. Pete Ham — O Artista Completo
O Compositor
Pete Ham era um melodista raro.
Criava canções com naturalidade, como se as melodias estivessem prontas no ar, esperando apenas que ele as alcançasse. Sua obra inclui clássicos como:
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Baby Blue
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Day After Day
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Without You (com Tom Evans)
Ham escrevia com sensibilidade profunda, transformando sentimentos em estruturas pop impecáveis.
O Guitarrista
Não era virtuoso no sentido técnico — era virtuoso no sentido expressivo.
Seus solos eram claros, emocionais e sempre serviam à melodia. O solo de Baby Blue, por exemplo, resume tudo: força, precisão, economia e beleza.
A Pessoa
Relatos de amigos e familiares descrevem alguém gentil, reservado, generoso e extremamente dedicado ao trabalho.
A pressão financeira e jurídica que atingiu a banda nos anos 1970 o afetou profundamente.
Mas sua humanidade permanece tão marcante quanto sua música.
8. Tesouros Escondidos — A Memorabilia dos Iveys/Badfinger
Ao longo das últimas décadas, vários itens raros relacionados ao grupo surgiram em leilões:
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acetatos originais da Apple
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letras manuscritas
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fotos inéditas
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equipamentos usados com Paul McCartney e George Harrison
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arte original de capas que nunca chegaram a ser lançadas
Mas nada se compara ao item mais mítico.
9. A Gibson SG 1964 — O Milagre no Sótão
Durante as sessões de All Things Must Pass e o Concert for Bangladesh, Pete Ham e George Harrison desenvolveram uma amizade silenciosa e profunda.
Foi nesse período que Harrison presenteou Ham com sua antiga Gibson SG 1964, usada nas gravações de Revolver.
Após a morte de Pete, a guitarra desapareceu por décadas.
Até que, num episódio quase literário, John Ham, irmão de Pete, a encontrou intacta em um sótão, dentro de um case coberto de poeira, esquecida pelo tempo — mas preservada como se esperasse por aquele reencontro.
Hoje, é considerada uma das relíquias mais valiosas da história da Apple Records e símbolo da ponte afetiva que ligava os Beatles ao Badfinger.
Epílogo — O Som que Volta Para Casa
Miniskirts & Rainbows não é apenas um disco: é um retorno.
Um retorno às origens, às fitas empoeiradas, às melodias que quase se perderam.
Um retorno a um grupo subestimado que, apesar das tragédias, deixou um legado de beleza cristalina.
É história, arqueologia e homenagem.
É memória transformada em som.
É o renascimento de uma banda que, embora marcada por perdas, continua iluminando quem decide escutar com atenção.





