John Mayall & Eric Clapton (1965): O Dia em que o Ruído Soou como Futuro

🎸 12 de agosto de 1965 — Quando o futuro soou como um erro

Por Mário Pazcheco
Blog Do Próprio Bol$o

Era 12 de agosto de 1965, no IBC Studios, em Londres.

Um jovem produtor chamado Jimmy Page — ainda um guitarrista de estúdio em ascensão — havia sido convidado para comandar uma sessão de John Mayall & The Bluesbreakers, com seu amigo Eric Clapton empunhando uma Gibson Les Paul ligada a um dos recém-nascidos amplificadores Marshall.

O encontro renderia duas faixas:
📀 “I’m Your Witchdoctor” (lado A)
📀 “Telephone Blues” (lado B)
Lançadas em outubro de 1965 pela Immediate Records (IM 012).

Mas o que aconteceu naquele estúdio foi muito mais do que uma simples gravação.

Enquanto Clapton fazia sua guitarra uivar, vibrar e sustentar notas como se tivesse vida própria, o engenheiro de som — acostumado a jazz e pop limpinhos — entrou em pânico.
Aquele som não fazia sentido.
Era microfonia, ruído, um defeito técnico.

A mão dele foi direto no fader, tentando “corrigir” o problema, abaixar o volume, limpar o que parecia um erro.
Foi então que Page o deteve.

— “Não! Ele está fazendo isso de propósito. Esse é o som.”

O engenheiro ficou atônito.
Alguém podia realmente querer aquilo?

Mas Page sabia o que estava acontecendo.
Clapton estava inventando o futuro — usando feedback e saturação para criar um som encorpado, feroz e cheio de alma.
Não era defeito. Era revolução.

E assim, com os faders imóveis e a fita rodando, o estúdio capturou o nascimento do que os historiadores chamariam depois de “o som moderno da guitarra elétrica”.

Anos depois, um crítico escreveria:

“A importância dessa sessão não pode ser enfatizada o suficiente, pois ela representou o nascimento do som moderno da guitarra. E embora Clapton tenha feito a execução, foi Page quem garantiu que esse momento não fosse apagado.”

Talvez a maior lição venha daí:
às vezes o futuro soa como um erro — até que alguém com ouvido aberto se recuse a deixá-lo ser silenciado.

📝 Nota técnica:
Clapton usou uma Gibson Les Paul Standard de 1960 plugada em um dos primeiros Marshall JTM45 produzidos por Jim Marshall. A combinação criou o que os fãs mais tarde chamariam de The Beano Tone, referência ao som encorpado e distorcido que definiria o British Blues Boom e influenciaria todo o rock das décadas seguintes — do Cream ao Led Zeppelin.

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