MARCO ANTÔNIO ARAÚJO! 40 anos sem o Cisne (1986-2026)
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QUANDO A SORTE TE SOLTA MARCO ANTÔNIO ARAÚJO NA NOITE! (1986-2026)
40 anos de ausência
Em janeiro de 1986, o Brasil musical amanheceu mais pobre. Partia cedo demais Marco Antônio Penna Araújo (28/8/1949 – 6/1/1986), compositor, arranjador, violoncelista, guitarrista e pensador da música como linguagem universal. Quarenta anos depois, sua ausência segue como presença incômoda: a de tudo o que ele ainda poderia ter feito — e não pôde.
Marco dava sempre a impressão essencial de ter muito mais a oferecer do que o tempo lhe permitiu. Não era apenas um músico talentoso; era um projeto estético em permanente expansão. Sua obra, construída com sacrifício e independência, recusava rótulos fáceis: ali conviviam o rock dos anos 60 e 70, o barroco mineiro, a música erudita, o rigor do contraponto e a liberdade da experimentação. Nada soava gratuito. Tudo era consequência de uma ética artística rara no Brasil.
Tratado com desconfiança por uma mídia pouco afeita a quem faz arte por convicção — e não por alinhamento industrial —, Marco lançou cinco discos fundamentais, do inaugural Influências ao luminoso Lucas. Em Quando a Sorte te Solta um Cisne na Noite, talvez seu trabalho mais emblemático, realizou uma síntese poderosa entre rock progressivo, música de câmara e paisagem mineira. Não por acaso, “Floydiana” tornou-se uma espécie de manifesto silencioso: não imitava Pink Floyd, dialogava com ele em outro plano.
Sua trajetória foi tudo menos óbvia. Do Vox Populi e do Som Imaginário ao exílio voluntário em Londres, onde trabalhou carregando móveis para poder assistir a shows históricos, Marco escolheu o caminho do aprendizado profundo. Ao retornar, mergulhou na música erudita, estudou na UFRJ, integrou a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais e, ao mesmo tempo, seguiu expandindo os limites do rock instrumental brasileiro. Dividiu, à sua maneira, com figuras como Randy Rhoads, a ousadia de reescrever as possibilidades do gênero.
Independente por necessidade e por princípio, criou o selo Strawberry Fields, produziu discos, shows, pesquisas sobre o barroco mineiro e projetos que iam muito além de si mesmo. Sua visão era coletiva, mesmo quando sua música parecia profundamente interior. “Sou perfeccionista, requintado, exigente, rigoroso, doido e lúcido”, dizia — definição que ainda hoje serve como chave de leitura de sua obra.
Marco Antônio Araújo morreu numa segunda-feira de janeiro, no instante em que começava a receber reconhecimento mais amplo. A sorte, enfim, o soltou cedo demais na noite. Quarenta anos depois, resta a certeza de que sua música não pertence ao passado: ela segue como um chamado à curiosidade, à escuta atenta e à recusa do descartável.
Lembrar Marco hoje não é exercício de nostalgia. É ato de justiça cultural. É reafirmar que, mesmo ausente há quatro décadas, ele continua sendo um dos grandes pontos fora da curva da música brasileira — um cisne raro, que ainda atravessa a noite.

