Vírus na Cena Underground, 1984

 Cena Underground, 1984

Virus   

VÍRUS

SÁBADO 07 JULHO 84

SINDICATO DOS AEROVIÁRIOS NO ESTADO DE SÃO PAULO

AV. WASHINGTON LUIZ 679

EM FRENTE AO AEROPORTO

20HS.

Em 1984, Brasília já era tratada, nos bastidores e nos fanzines (Sleeping Village Sabbath Rock Club), como capital do rock em estado de pré-surto. Antes da consagração midiática, a cidade pulsava em rede: trocávamos fanzines pelo correio, fitas K7, recortes de revistas importadas e notícias fragmentadas que vinham de fora — Inglaterra, Estados Unidos, às vezes Alemanha. Tudo precisava ter ar de vanguarda. Não bastava tocar: era preciso parecer moderno, ousado, à frente do próprio tempo.

Amávamos Black Sabbath, Motörhead, Judas Priest, mas também absorvíamos estética, discurso e método. Os mais abastados viajavam ao exterior e voltavam com discos, revistas e informações que rapidamente se espalhavam pelo circuito underground. O conhecimento circulava de mão em mão, xerocado, datilografado, rabiscado à caneta. O fanzine era meio, manifesto e arquivo.

É nesse ambiente que o panfleto do Vírus se insere. Visual agressivo, grafismo pesado, iconografia bélica e medieval, tipografia inspirada no metal europeu: tudo ali comunica pertencimento a uma internacional subterrânea do heavy metal. O local do show — o Sindicato dos Aeroviários, em frente ao aeroporto — não é detalhe menor: simboliza passagem, trânsito, contato com o mundo externo. Era ali que a informação chegava; era ali que o underground se conectava com o fora.

O Vírus teve seu momento e seu peso. Foi uma das bandas que introduziram, de forma pioneira, um sentido de profissionalismo dentro do heavy metal praticado no Brasil: preocupação com identidade visual, divulgação, agenda, ocupação de espaços formais e organização de shows. Em um cenário ainda marcado pelo improviso, o Vírus operava com método — e isso o colocava à frente.

O panfleto, hoje, funciona como documento histórico de uma cena que ainda se organizava no subterrâneo, mas já se comportava como movimento. Ele registra um tempo em que o heavy metal brasileiro não pedia licença, não esperava validação e se construía à margem, com rigor estético, circulação própria e consciência de linguagem.

Mais do que anunciar um show, o panfleto do Vírus testemunha um momento em que Brasília pensava o rock como projeto, e o underground brasileiro começava a se ver — e a se anunciar — como parte de algo maior.

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