Uma foto de 40 anos que ainda brilha no olhar (1985-2025)

 1984  trio

Na foto, estamos nós três — Fábio, eu e Ricardo — no apartamento da mãe dele.

O início, o meio e o fim

O baterista Ricardo Lima voltava do primeiro show do Extremo no Rolla Pedra ETC & Tal, a caminho do Guará II, para onde havia se mudado, nos blocos acima da QE 28. Sentado no fundo do ônibus, segurava o álbum duplo pirata The Destroyer, do Led Zeppelin — um tesouro que pertencia ao fã-clube do Led Zeppelin da Asa Norte. Sentei ao lado dele e puxei conversa. Antes disso, eu já o tinha visto em ação no Guará II.

Pouco depois, apareceu o carioca Fábio Fagundes, que percorria o Guará numa bicicleta com um violão nas costas; algum tempo mais tarde, partiria para Londres. Fábio Fagundes era o mais jovem do grupo, e curtia os Picassos Falsos.

Outra aula para falar mal dos outros e falar bem de nós

Recentemente, assisti a um teaser de um documentário sobre o rock feito em Uberlândia-MG. Mas, sinceramente, o gosto que ficou na boca não me agradou. Os mineiros que faziam rock no início dos anos 80 pareciam empenhados em colar suas figurinhas no álbum das grandes estrelas do rock moreno, do Rock Brasil 80, da Geração 80 ou do famoso Brock — dependia apenas do veículo que você lia.

Esse assunto voltou à tona quando publicaram, nas redes, a foto daquele trio — Fábio, Mário e Ricardo — e isso imediatamente me puxou para a proposta de revisitar aqueles dias. A imagem, provavelmente de alguma comemoração em maio de 1985, mostra um detalhe simbólico: na falta de vinho, bebia-se cidra. Eram os tempos.

A foto também revela que éramos fãs ferrenhos de Led Zeppelin, embora eu desconfie que meu coração sempre bateu mais forte pelo Black Sabbath.

1984 fungos

No Distrito Federal, o rock tinha outra paisagem: Fungos & Bactérias, Concord, Escola de Escândalo, Stuhlzäpfchen von N; e as ondas sonoras circulavam pelos EMG – Encontros de Músicos do Guará, Verão Cultural, Rock in Prima, Festival da Lagoa Formosa, Terças Musicais.

Em 1985 eu ainda fazia os zines — entre eles o Sleeping Village, depois o Rock’n’Roll, batizado por causa dos Yardbirds. Nesse ano, ocorreu a última edição do Sleeping Village e a de dezembro do Rock’n’Roll  lembrava aos cinco anos sem John Lennon. Isso tudo há quarenta anos!

As correspondências que trocávamos eram muitas. Ouvia-se no talo Picassos Falsos, Violeta de Outono, Garotos da Rua — no DF, o rock do Rio Grande do Sul tinha enorme penetração. Pelas cartas, conhecíamos as bandas cariocas Dorsal Atlântica, Azul Limão e Bacamarte. De Belo Horizonte reinava Marco Antônio Araújo e seu Grupo.

De São Paulo, até hoje procuro qualquer disco do Alpha III, do tecladista Amir Cantúsio Jr.; daquela mesma São Paulo chegava também o refinado Violeta de Outono. E enquanto aguardávamos um novo disco da Patrulha do Espaço, descobrimos a Ave de Veludo, o primeiro grupo brasileiro a gravar um disco de blues pela Baratos Afins.

Escrevo tudo isso porque este seria o painel musical da nossa geração do hard rock dos anos 80 em Brasília — e falaríamos sobre ele pelos cotovelos. E, numa atualização de memória, não poderíamos deixar de lado Suzi Quatro, Slade, Aerosmith, Joe Perry Project, Grand Funk e, claro, Made in Brazil, Casa das Máquinas, Raul Seixas e os Mutantes da fase progressiva.

O rock nacional sofre de uma amnesia aguda, e considero um desperdício tentar colar a própria história nas costas das jaquetas dos ídolos do tal Brock. Nossa memória é mais profunda do que isso.

Clic final
A foto alegre registra nosso amadurecimento sob pressão. Muitos amigos partiram para outros rumos e perdemos aquele porto seguro onde trocávamos informações e vivências. Fábio Fagundes havia voltado a estudar; eu, em breve, assinaria minha carteira de trabalho pela primeira vez, como contínuo; e Ricardo Lima seguiria para o turismo e o empreendedorismo. Já começávamos a cumprir a cartilha da vida que nos guiaria pelas próximas quatro décadas. 

1984 duo

A leitura dos bateristas: à esquerda, Ricardo Lima; ao centro, o livro 10.000 Dias de Rock; e à direita, Hamilton Zen — naturalmente, os dois estão nas páginas dessa história

Entre Baquetas e Memórias: Ricardo e Zen

RICARDO LIMA: ENSAIO SOBRE UMA PRESENÇA QUE SOBREVIVE

Há nomes que aparecem nos arquivos como quem acende uma faísca num quarto escuro. Ricardo Lima é um desses. A cada vez que sua menção surge — num pedaço de caderno, numa fotografia em preto e branco, numa conversa com Pedro Alex ou numa lembrança desfiada por Zeca Ribeiro — algo do passado pulsa como se insistisse que ainda está vivo. Era assim nos tempos dos eucaliptos do Guará I: Renatoicinho, Luidi, Ricardocinho, Cécé, Clevicinho. Uma tribo de meninos inventando o rock onde não havia palco, apenas chão batido e uma necessidade inadiável de existir. E, como anotado nos arquivos, sobreviveram Renato e Ricardo Lima.

Não é pouca coisa sobreviver.

Quando Pedro Alex pergunta como nasceu a amizade, ele pergunta, na verdade, como se formam mitos cotidianos. A história começa com Luís Punk — esse anjo torto do subúrbio musical — apresentando Ricardo como quem entrega um segredo. “Eles têm uma banda”, disse. “Precisam de alguém com presença de palco.” Zeca Ribeiro caiu na fria, mas dessas frias fundadoras que criam laços, tropeços e riso. A partir dali, Ricardo começa a ocupar um território silencioso: o da memória profunda.

No Teatro de Arena do Cave, ele aparece sentado atrás da bateria do Extremo. Tuca Maia segurava o contrabaixo, Cécé afinava guitarras que pareciam incendiar o ar, e então Ricardo entrava, firme, disciplinado, com uma precisão que poucos percebiam — mas todos sentiam. O guitarrista do Fusão se jogou na plateia logo depois, como se dissesse que aquele tempo exigia gestos extremos. Foi ali, naquele dia, que uma amizade duradoura nasceu — por vezes distante, mas sempre generosa. O tipo de amizade que não muda, apenas muda de roupa.

Ao lado de Ivaldo, o fotógrafo, Ricardo recorda as duas apresentações do Extremo no Teatro Rolla Pedra. As fotos do dia 5 de maio de 1984 — a mesma noite em que dividiram palco com a banda Nirvana (não aquela, mas a nossa) — guardam mais do que imagens: guardam o clima pesado, o suor, o grito. Guardam a crônica de Irlam Rocha Lima, guardam o cheiro de amplificador queimado, guardam o DF antes de Brasília virar cartolina.

E, no entanto, “os tempos eram difíceis”. Sempre são — mas ali eram mais.

Em abril de 1985, no mesmo Rolla Pedra, veio a despedida: Ricardo Lima iria para São Paulo. Chuva torrencial, o grande concerto em frente ao teatro, a formação original do Extremo tocando como quem prende a respiração antes de mergulhar. Cada transição marca um fim, e cada fim deixa uma sombra. Aquele foi um deles.

Há também os momentos prosaicos: Ricardo, Luis Punk (†) e o narrador, barbudos, cheios de vinis debaixo do braço, as mães perguntando se trabalhavam. “Tamo de férias, dona Maria!” — e a vida seguia feita de pequenos enganos e grandes coleções.

Em 1991, no Canta Gavião, veio o retorno. Depois de seis anos, o Extremo volta ao palco da Aruc. Ricardo está lá de novo, como se o tempo não tivesse corroído nada. É a última vez que Cécé, Ricardo, Tuca e Júnior tocam juntos. A última vez — mas o ensaio do fim nunca é realmente o fim. Eles continuam amigos, continuam conversando, continuam respirando música enquanto constroem famílias e negócios e outras frentes de batalha. Nesse show, tocam um rap em inglês, “Be A Trash”, porque os anos 90 exigiam elasticidade.

E então 2002: o tributo a Cécé. A dor que bate mais forte quando se perde um dos seus. No palco-caminhão do Kryztoroq, Ricardo novamente segura o pulso do evento com sua bateria. A banda é outra, os tempos são outros, mas Ricardo permanece o mesmo: um eixo de resistência. Um músico de combate.

Mas talvez o traço mais belo esteja na última cena: o colecionador. Na coleção de Ricardo Lima — essas relíquias silenciosas que sobrevivem quando pessoas já não estão — encontram-se discos raros, pérolas improváveis. Um LP nacional do Big Sur Festival de 1970, com Joan Baez e os Beach Boys. O Electronically Tested do Mungo Jerry. E o Phonograph Record de Mason Williams, com o azul pop preto da Greyhound e a precisão melódica de “Classical Gas”.

Esses discos contam outra história: a de alguém que nunca deixou o som morrer dentro de si.

Ricardo Lima, visto assim pelos arquivos, não é apenas um baterista. É um eixo de continuidade. Um sobrevivente de uma geração que viveu rápido, perdeu amigos cedo, mas deixou uma trilha de ecos. Ele é parte da memória orgânica do rock do Guará, daquelas sem as quais o relato não fecha. Alguém que volta no tempo, atravessa 1984, 1985, 1991, 2002, e permanece — discreto, firme, essencial — como só sobreviventes conseguem ser.

HAMILTON “ZEN”: O ELO SECRETO ENTRE PALCOS, FITAS, ESCADAS ÍNGREMES E A MEMÓRIA VIVA DO ROCK DO DF

Há presenças que não precisam ocupar o centro da fotografia para se tornarem indispensáveis. No livro 10.000 dias de rock, Hamilton “Zen” aparece como esse tipo de figura: um eixo subterrâneo, um operador de energias invisíveis, um artesão do som — às vezes atrás da bateria, às vezes atrás da mesa de som, às vezes atrás do balcão do Bar Elo Cultural, mas sempre atrás de algo que só existe graças a ele.

Sua trajetória, como aparece nos arquivos, é de alguém que costura a história sem costurar para si.


1984: O Discotecário que Muda a Noite

A primeira entrada é cinematográfica. Rock Baby, Guará, 1984. As tribos se misturam: asfalto, subúrbio, pistas, eucaliptos, garagens. O Extremo chega — Cécé com Sandra, Ricardo Lima de jaqueta. E ali, no fundo do salão, Hamilton “Zen” percebe algo que muitos profissionais jamais percebem: o instante exato em que a música deve se tornar memória.

Ele puxa uma fita pirata — fita rara, fita clandestina, fita achada como se acham diamantes em poeira — e solta “Viciado”, o hit do grupo.

A reação é sísmica.

Todos dançam como se estivessem sendo filmados pela própria juventude. Tuca Maia olha em volta, atônito:
“Estão tocando a gente!”

Aquilo sela laços. A música não apenas embala: funda alianças, fraterniza, marca para sempre. Hamilton “Zen”, discotecário e vidente, é quem dispara o gatilho do mito.


Política do Êxtase: Zen na Bateria

Alguns anos depois, já no território movediço da década de 1990, Hamilton abandona as fitas e empunha baquetas. Surge a banda Política do Êxtase, com Zen na bateria, Roberto nas guitarras, Marcelo no baixo e voz.

Era um rock de garagem com ambições de neblina — o nome já anunciava ecos de Leary, Huxley e do underground psicodélico brasileiro. A apresentação de 1990 no Bar do Afonso (QE 32) fica registrada como uma domingueira histórica. Onde estavam esses meninos? No limite entre o DF suburbano e a estética do caos, fazendo o que sabiam: amplificando o mundo para suportá-lo.


Graves Blues Acústicos: a Estética da Improvisação

Em outro momento — anos depois — Hamilton “Zen” aparece de novo, agora não com uma bateria, mas com um galão de plástico.

Com Zezinho Blues e André Ávila, forma o trio Graves Blues Acústicos, ovacionado no UVA. Era improviso puro, quase ritualístico. A noite chovia cerveja, tocava Celso Blues Boy, The Doors, Mutantes, e até “Pais e Filhos” pelas sobrinhas do Joel.

O galão de plástico de Hamilton “Zen” vai além do instrumento. É a metáfora perfeita:
quem vive o rock com verdade transforma lixo em altar, sucata em rito, ausência em presença.


Bar Elo Cultural: o Templo Íngreme

Entre 1990 e 1991, Hamilton assina seu maior projeto: o Bar Elo Cultural.
Um espaço curto de vida, mas enorme na memória.

Para chegar lá, era preciso vencer uma escada íngreme — quase expressionista, digna de Hitchcock. Lá dentro, o caos organizado:

  • bandas de rock, metal, MPB;

  • exposições de artes plásticas;

  • biblioteca;

  • teatro;

  • palestras sobre ovnis, psiquiatria, raça negra;

  • performances diversas.

Era mais que um bar: era um purgatório criativo, uma universidade do improviso, um laboratório de contracultura.

Hamilton Zen não era dono de bar — era curador de um mundo.


O Enigma da Noite do Akneton

O mito se repete quando o show “Vá Tudo Pro Inferno” quase não acontece. O baterista da Marssal envolvido numa briga em Alexânia, hospital, boca esfacelada por um nunchaku. Casa lotada.

Hamilton Zen, como sempre, faz o que tem de ser feito.
Som mecânico na hora certa.
Decisão rápida.
E a arte segue.

Essa é a marca dele: quando o imprevisto explode, é Zen quem mantém o eixo.


A Presença Invisível (mas Estrutural)

A presença de Hamilton “Zen” no livro 10.000 dias de rock é a presença dos que fazem tudo acontecer sem aparecer na capa.

Ele é:

  • o discotecário que muda o destino de uma banda;

  • o baterista que sustenta projetos efêmeros e intensos;

  • o improvisador que toca em galões como se fossem timpanos cósmicos;

  • o agitador cultural que ergue um dos espaços mais ousados do DF;

  • o sobrevivente das noites longas e dos anos ainda mais longos.

Zen é uma espécie de guardião da margem.
Um arquivista oral.
Um articulador do subsolo.
Um contador de histórias que nunca se senta para escrevê-las — porque está sempre no meio delas.


Conclusão: Zen Como Figura Estrutural do Rock do DF

Se Ricardo Lima representa a permanência, Hamilton “Zen” representa a circulação.

Sua função na história não é apenas tocar, organizar ou improvisar. É conectar.
É ser o condutor da energia elétrica do rock periférico, o fio invisível entre eventos, gerações, bares, fitas, bandas, tragédias e ressurreições.

O livro registra isso sem precisar anunciá-lo:
Zen é o elo — e o livro inteiro depende de seus elos invisíveis.

1984 extremo

Foto de Ivaldo Cavalcante

 

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