O Panelão da Arte 312 Norte (1979)

Muito prazer.

O Panelão da Arte 312 Norte

0 panelao das artes

TEXTO: GERALDO FILHO FOTOS: EDGAR MARRA

E, completamos com Beirão, o da Banda Cordel, alucinado que quem não conhece é porque nunca saiu de casa. Ele fala das promoções ao ar livre. "Olha, antes tinha gente vendo Sílvio Santos em pleno domingo."

Exercitando a memória: no dia 15 de agosto a Galeria Cabeças comandada por Neio Lúcio levaria seu já conhecido Concerto ao Ar Livre a mais trepidante de todas as nossas quadras, a 312 Norte. Mais de 1.000 pessoas, muito sol, alegria em quantidade incontável. Princípio do Prazer. Dia 9 de setembro, semana portanto das comemorações da Independência: os próprias moradores da 312, orientados por um pequeno grupo de batalhadores, resolveram financiar o I Panelão da Arte da quadra. Sem auxílios oficiais, mas com muita luta dessa rapaziada e com o apoio imprescindível do comércio local, a 312 realizaria aquilo que foi, sem dúvida, um dos maiores lazeres de seu gênero já presenciado no planalto. Desde as 10 horas da manhã começavam a chegar curiosos primeiro as crianças, claro, que naquele dia puderam  presenciar e vivenciar, de fato, o que significa tanto espaço, tanta grama e tanto sol. A Rádio Blig entrava no ar dando início à festa. Sorteios, prêmios, concursos que variavam entre a melhor girada nos bambolês até a brincadeira sadia e teatral do concurso Quem Tem Mais Fome, mobilizavam a criançada. Promessa de multidão e de prazer, As 14 horas, cerca de 1.500 pessoas localizavam-se à frente do pequeno palco improvisado no gramado da entrada da quadra. Começava ali o Concerto ao Ar Livre. Apresentaram-se os melhores nomes de nossa música local: Beirão e sua Banda Cordel, Renato Matos e Banda Grande Circular, Cego Pereira, Grupo Entre-Quadras, e mais, os poetas Nicolas Behr, Silvinha Escorel e Wellington Diniz. E muito, muito mais gente do que se possa imaginar. Finalmente uma vice-prefeitura abrigava e financiava seu próprio lazer.

Reconstituição do Prazer: hoje, a partir de 10 horas e até o sol se pôr, hora e vez do II Panelão da Arte 312 Norte. Tudo pronto, em vias de finalização daquilo que promete ser a maior festa artística que as duas primeiras. Mobiliza-se já a Rádio Blig, o comércio local começa também a pensar nos brindes que poderá oferecer, os moradores guardam nos coletes e gavetas os trocados possíveis e disponíveis à colaboração, que nesse caso significa o sustento mesmo da atividade. Um único objetivo: o prazer. A criação do próprio lazer, festa, alegria setorial e relaxamento nacional. A 312 Norte abre o jogo. O único de seu gênero no Planalto, mas que o Planalto já te um sinal que está ficando inteligente. Apenas alguns indícios de um grande Panelão. Preparam-se os corações românticos e vagabundos, proprietários e inquilinos, políticos e apolíticos, engajados e alienados, artistas e artífices de outras artes (a do viver simplesmente!).

PRETEXTO

Sem maiores e mais detalhadas ou aprofundadas teorizações, algumas coisas começam a tornar-se evidentes: primeiro, Brasília é, tem que ser, a cidade do lazer. Por quê? Basta ver a gente como é que andam as coisas da segunda a sexta-feira. E, mesmo das coisas do meio-dia e das duas às seis. Pra quem? Cada um que sabe. Segundo, a nova era não pertence mais aos pioneiros. Um viva à nós, à Juclino e a Lúcio Costa, a Sayão e aos candangos, mas, dá licença que eu quero passar. Os filhos da terra vermelha cresceram e fazem agora sua própria construção: a construção do mundo novo, da cultura resplandecente antes sufocada. Por beleza, lazer, brilho, purpurinas e serpentinas. Obrigação de ser feliz para poder enxergar melhores dias. Realce. Brilho nos olhos e nos corações. Surge vida nas superquadras. Nada mais nada menos que uma grande conquista de espaços, de todos os espaços e áreas verdes, onde tudo só não é maior porque ainda não plantaram mandioca no lugar de grama.

Uma verdade absoluta: nasce o primeiro sinal de vida de uma cultura autêntica, pois ali, só por ser autêntica mesmo torna-se cultura e se mostra: Sucesso. Resultado de prazer. Gente é pra sonhar, mas a gente sonha de barriga dizia Caetano Veloso.

Gente, muito mais gente do que se pode contar e/ou imaginar. Mas mais é nos teatros estabelecidos. Gente fazendo cultura, cultura do prazer. Gente que dá aqui seu mais rápido depoimento sobre a cidade nova, sobre a nova arte. Palavras de músicos, produtores, batalhadores, poetas, etc. Afirmação do prazer, pré-texto de alegria, pré-texto também do II Panelão da Arte 312 Norte.

"A cidade é um quadro inacabado. As pessoas são escultura também inacabadas. Tudo isso é um verdadeiro ensaio geral, um trabalho de animação a partir de tudo o que estava nascido mas parado." Quem fala é Eurico Cordeiro, artista plástico e um dos responsáveis pela programação visual da Galeria Cabeças. Dono de um trabalho que traz, antes de tudo, os fantasmas do belo, do positivo, do faturamento. E ele completa: "Sim, estamos em evidência, por isso precisamos assumir a animação do espaço. Em Brasília não dá pra se esconder."

E sem pedir autorização pra ninguém, o poeta continua soltando suas palavrinhas, Nicolas Behr solta o verbo e joga alto: "Basta abrir os olhos para a coisa nova. O prazer de Brasília está em Brasília mesmo. Em cada pôr de sol, em cada amanhecer. Engraçado: as pessoas começam a ter coragem em dizer 'gosto daqui'. Vencido o primeiro desafio."

Mas os loucos profetas da cultura nova não param. Então, o espaço é deles. Quem diz mais? É Pereirinha, agitador do Ócio no Clube de Imprensa - quem mais pra fazer o que não é o quê quem mais quanto existe o Projeto Cultural Brasília. Ninguém quer que se institucionalize o prazer: gozam, pois só assim haverá a grande invenção por parte das cidades - satélites parindo o Plano Piloto. O prazer tem que ser simplesmente vivido. Veja a Galeria Cabeças, a Rádio Blig, o Clube do Ócio e etc; destroem a aflição, o choro dental. E soma-se:

"Salve o prazer... Salve o prazer..."

Neio Lúcio, basta o nome... Não são necessárias explicações. É ele mesmo, o olho da Galeria Cabeças, olho atento e forte. Palavras suas: "Trabalhamos em função do prazer de ouvir, sentir, ver, falar, dançar e cantar. Sentimos prazer ao ver o prazer de uma criança pura."

 

FOLHA DA SEMANA, 14 DE OUTUBRO DE 1979

“Surge vida nas superquadras. Nada mais, nada menos do que uma grande conquista de espaços.”

O ano era 1979. O repórter dozeneano Geraldinho Vieira registrava o II Panelão da Arte, evento que entraria para a história da cena cultural candanga e que teve como palco a icônica 312 Norte.

Quem também estava lá, com câmeras em punho, eram os igualmente dozeneanos Edgar Marra e Luís Peru, testemunhas de um momento único, carregado de música, arte e emoção.

Naquele fim de década, uma geração inteira se mostrava ávida por ocupar os espaços vazios da superquadra mais simbólica de Brasília.

Décadas depois, é esse mesmo espírito que temos buscado reviver. De forma talvez presunçosa, tentamos reproduzir a energia e a ousadia daqueles dias — muitas vezes com os mesmos protagonistas de então: Beirão, Zelito Passos, Luiz Coelho, Renato Matos, Liga Tripa, Eduardo Rangel, Néio Lúcio, entre tantos outros que ajudaram a escrever um capítulo fundamental da cultura candanga.

Viva a 312 Norte! Viva a arte e a cultura brasileira!" (Carlos Cézar Cecéu)

 

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