Slamdancer 2 e o Silenciamento da Memória (2025)
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Vivemos um tempo brutal para com as artes.
Basta observar: em 2021, uma escultura invisível intitulada “Eu Sou” foi vendida por cerca de R$ 87 mil em um leilão. A obra não possui forma física – é feita de “ar e espírito” – e só existe na mente do artista e do comprador, que recebeu um certificado como prova da aquisição.
Outra face desse tempo é o apagão cultural: o desaparecimento de fontes, registros e memórias coletivas – quando vídeos, arquivos ou informações de valor histórico são removidos de plataformas e perdem sua função comunitária.
Soma-se a isso a apropriação cultural indevida, o ato de um grupo – quase sempre dominante – se apropriar de elementos de outra cultura sem reconhecer sua origem, contexto ou significado, transformando expressão em lucro e identidade em moda.
Só compreende a gravidade disso quem um dia é vítima – e sente o silêncio substituir a própria história.
Silenciamento da memória
É uma expressão usada em estudos culturais e memoriais para descrever atos (intencionais ou não) que interrompem o acesso à lembrança coletiva.
Quando um vídeo de um festival – que registra artistas, público, sons e gestos de uma época – desaparece, o que se silencia não é apenas uma imagem, mas uma experiência comunitária.
Slamdancer 2 foi um festival realizado em setembro de 2012, com seis bandas de destaque: algumas já consolidadas, outras mais jovens, representando a renovação do rock.
O nome vem de slamdancer, termo usado para designar quem participa de um mosh pit – aquela dança agressiva e caótica em que o público se empurra e gira em movimentos intensos durante um show punk. Duas bandas estavam especialmente ligadas a esse público.
Era um tempo ainda sem o reinado dos grafiteiros, e, para decorar as partes externas do caminhão, recorríamos a artistas plásticos. No amarelo-ouro reluzente da pintura, surgiam temas como “A Luva”, do desenho Yellow Submarine, ou o logotipo da capa de Sgt. Pepper.
Boa parte da aparelhagem era alugada. Alguém precisava trazer, além da guitarra, a bateria. Guitarristas experientes, que nunca descuidavam de seus amplificadores, às vezes vacilavam no calor da noite e queimavam um Marshall. Um microfone “sumia” ao final do show, para depois reaparecer com a desculpa de que foi “por engano”.
Gente doidona ficava na beira do palco, hipnotizada com as bandas, sem sair da frente da lente, atrapalhando a filmagem e a fotografia – por isso, em algumas imagens, aparece o cocoruto de algum desavisado. Mas tudo dentro do jogo do rock’n’roll.
Slamdancer 2 marcou porque era um festival novo, coletivo e bonito: o cenário, as luzes, as pessoas e as bandas.
Eu, particularmente, estava debilitado pelo tratamento de interferon contra hepatite C, mas participei. Naquele evento, fotógrafos praticavam a apropriação indevida de nossas imagens – registravam, mas nunca mais víamos as fotos, nem em exposições.
A penúltima banda foi agraciada com a gravação profissional de um clipe – um artigo de luxo até hoje.
Lembro da expressão transtornada do vocalista, com os olhos pintados de preto, esgoelando-se perto da caixa de som para checar se sua voz saía. Uma cena quase glitter, com trajes e sonoridade típicos dos anos 70.
O clipe, porém, ignorou a presença do público: a câmera focou apenas a banda no palco, com pintura nova e muitas luzes. Esteticamente, estranhei a opção – parecia que o festival, como experiência coletiva, havia sido recortado. Mas quem sou eu para julgar intenções?

Hoje, em 2025, treze anos depois do Slamdancer 2, tive a decepção de descobrir que o clipe de “Festa do Rock” foi deletado do YouTube.
Não foi apenas um vídeo que desapareceu – foi a história de uma noite inteira, de esforços, de trabalho e de luta coletiva.
A gravação do clipe, que um dia brilhou naquele palco iluminado, agora jaz, morta e enterrada, em alguma gaveta digital.

