Raulseixismo: a religião laica dos inconformados (2025)
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O casal em primeiro plano, o palco iluminado ao fundo, a multidão concentrada – todos partilhando algo que é mais do que um show: um rito coletivo de memória, rebeldia e brasilidade.
Entre o passado, o presente e o futuro da pátria chamada Brasil
Há momentos em que um show deixa de ser apenas espetáculo e se transforma em rito. Naquela noite, entre luzes quentes e rostos voltados ao palco, o que se via era uma congregação: uma comunhão de gente que ainda acredita no poder da canção como manifesto e como oração. Raul Seixas – o eterno maluco beleza – continua convocando fiéis, décadas depois, a esse culto profano que mistura filosofia, ironia e utopia.
O “raulseixismo” é mais do que nostalgia. É uma religião laica dos inconformados, dos que ainda se arrepiam ao ouvir versos que questionam o sistema, o destino e a própria razão de existir. No palco, a orquestra e os músicos davam forma a uma epifania sonora: o encontro entre o velho e o novo, entre a rebeldia e a reverência.
Entre o passado, o presente e o futuro dessa pátria chamada Brasil, o espelho continua rachado. O país de “Metamorfose Ambulante” ainda tenta se reinventar, cambaleando entre promessas e desilusões. Mas ali, na plateia, entre selfies e lágrimas discretas, algo permanecia intacto – o desejo de ser diferente, de continuar sonhando, mesmo que à margem.
Raul talvez risse desse culto póstumo, mas entenderia. Ele sempre soube que toda contradição é humana, e que é nela que mora a centelha criadora. Celebrar Raul é, no fundo, celebrar a liberdade de pensar e sentir fora do script. É admitir que ainda há espaço, neste Brasil confuso, para um grito de resistência disfarçado de rock’n’roll.


