Raul Seixas Sinfônico: O Ator Que Fingiu Ser Cantor e Virou Mito (2025)

Raul Seixas Sinfônico: O Ator Que Fingiu Ser Cantor e Virou Mito

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Foto de André Azenha

“Eu sou tão grande ator que todo mundo acredita que sou cantor e compositor.”
— Raul Seixas (ou o personagem que inventou Raul Seixas)

por mário pazcheco

17 de outubro de 2025 – Há aforismos que não cabem num currículo. Este cabe num espelho.
Raul Santos Seixas foi, antes de tudo, um grande ator – daqueles que se disfarçam de si mesmos. Fingiu ser cantor, compositor, produtor, místico, maluco-beleza. E o país acreditou. Talvez por necessidade. Talvez porque ele soubesse, desde cedo, que viver é representar – e representar é sobreviver.

De ator para ator

Bruce Gomlevsky entende isso. No palco, ele não “interpreta” Raul; ele o psicanalisa. Sua performance em Raul Seixas Sinfônico, apresentada no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, é menos um tributo e mais uma sessão de análise aberta, com guitarra, orquestra e um divã no meio do palco.

Em determinado momento, Gomlevsky se senta na poltrona e assiste a si mesmo. Raul, nesse instante, vira público do próprio mito. É teatro dentro do teatro – o país das maravilhas e dos absurdos humanos. A frase do ator resume tudo:

“Raul Seixas no país das maravilhas.”

E é isso: o homem que virou personagem agora é interpretado por outro homem que se descobre personagem também.

O palco dos corpos e o corpo da música

Falar de Raul sem falar de corpo é impossível.
O palco, tomado por músicos, backing vocals, cordas e metais, vira um organismo pulsante. Há o corpo feminino da voz de apoio, o corpo coletivo da orquestra e o corpo nu – vestido de Bruce Gomlevsky – que vibra em cada verso.
Logo nas primeiras músicas, a emoção é física. Eu me diverti e, confesso, quase chorei. A música tem esse poder de varrer o mau humor do mundo e devolver alguma fé na espécie humana.

Aula de rock’n’roll

O espetáculo começa em tom íntimo: Bruce na poltrona, empunhando a guitarra, desfilando canções de Elvis Presley. Depois, sobe a temperatura – “Lucille”, Beatles, e a homenagem simbólica à canção “Come Together”, que vira recado espiritual:

“Mesmo sendo todos diferentes, precisamos nos juntar agora, superar o ego e o isolamento.”

De repente, é Raul de corpo inteiro: “Ouro de Tolo”, “S.O.S”, e a filosofia do disco voador – esse símbolo junguiano que representa o homem que tenta romper a gravidade da mediocridade terrestre. O Self, o arquétipo, a transcendência: tudo pousa no palco de Brasília, onde Raul parece renascer de cada nota.

O pai dos roqueiros brasileiros

Raul Seixas é o nome que aparece, simbólica e espiritualmente, na certidão de nascimento de todos nós que nascemos roqueiros.
Assistindo ao espetáculo, tive a sensação estranha e bonita de perceber isso – que saímos todos do útero musical de Raul, batizados em seu cálice de irreverência e lucidez.

O teatro, o público e o país

Brasília – com sua mania de grandeza e suas contradições – é o cenário ideal para esse ritual.
Do lado de fora do Centro de Convenções, garrafas verdes de cerveja tilintam, conversas ecoam. Do lado de dentro, celulares piscam e vozes comentam alto. A plateia é tão humana quanto o próprio Raul: contraditória, desordeira, viva.

Durante “Aluga-se”, um coro espontâneo explode em “Sem Anistia”. Um casal se levanta e vai embora. No fundo, um bolsonarista embriagado grita que “Raul cantava o amor e não fora Bolsonaro”. Ninguém leva a sério. Eu rio. É o Brasil em miniatura – o palco e a plateia confundidos, a catarse política e poética se misturando.

A apoteose

No final, Bruce Gomlevsky conduz o espetáculo com domínio e emoção.
É uma celebração ao Raulseixismo – essa religião laica dos inconformados – num país que continua tentando entender o que fazer com seus gênios.

A plateia, entre arrotos, aplausos e risos, parecia saída de Woodstock.
Raul enfrentou censores, gravadoras, Flávio Cavalcanti, Delfim Neto e toda uma burguesia que, ironicamente, agora o aplaude.
E mesmo assim, sua voz continua ecoando, lembrando que viver é preciso, mas se transformar é inevitável.

Raul é, afinal, a metamorfose que o Brasil ainda não aprendeu a encenar.


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Nós, em Raul Seixas Sinfônico

"Foi fantástico! Já chegou o disco voador.
'Vem sem medo, que nós não vamos naufragar... navegador.'

"Esse seu texto relatou bem as emoções do espetáculo.
"A fuga da bozolândia foi incisiva, marcada pelos gritos de “Sem Anistia!”

"Agora... aquela orquestra foi demais!
"Dormi sonhando que a orquestra tinha gravado um CD: Raul Orquestrado!"

(ANDRÉ AZENHA)

Raul Seixas Sinfônico
Com: Bruce Gomlevsky
Local: Centro de Convenções Ulysses Guimarães, Brasília
Produção: Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional + banda de rock
Classificação: ★★★★★ — um espetáculo de corpo inteiro.

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