ALIENBALADA: SOM!
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III – O SOM!
"Os Mutantes só dariam certo se apresentassem algo novo, grandioso e brasileiro." (
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"Acho biografias contraproducentes no meu caso e em muitos outros. Elas eliminam o mistério. Elas revelam o que é desnecessário e contraproducente revelar. Quem deve aparecer é a obra, ainda mais quando é fruto de uma pessoa famosa – ou seja, pessoa que a sociedade pensa conhecer, porque a fama é sempre enganadora. Ninguém nunca é o que sua fama diz. (...)
Uma biografia que me projete à semelhança de quem quer que seja ou tenha sido está fadada ao erro; não ao insucesso, porque 'biografias' erradas podem fazer o maior sucesso, até mais que as certas, já que seu autor, se imaginoso, nelas porá uma história que incendeie as mentes dos pobres leitores."
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"Apesar de alguns autores que escrevem sobre os Mutantes quererem dar a palavra definitiva, fui eu, sim, quem gerou o som dos Mutantes, fui o responsável pela construção dos alicerces no muro de som da banda; e não só, dos alicerces: da casa inteira, dos jardins, da atmosfera...
Com Raphael Vilardi, comecei o conjunto que resultou nos Mutantes. Ensinei guitarra ao Sérgio, num instrumento que eu próprio desenhei e manufaturei. Participei de inúmeros debates, nos quais a 'filosofia' e o 'rumo' sobre o som do conjunto, portanto, os alicerces musicais, eram debatidos entre nós, Mutantes. Toda a influência dos vários grupos musicais e artistas sobre os Mutantes deve ser cotejada à tecnologia que condicionou esses grupos. E tal tecnologia também foi condicionada por eles todos; mas não apenas! Eu, a NASA, a ficção, a ciência, a matemática e muita coisa mais conformamos também essa tecnologia. E criei a tecnologia e os instrumentos que condicionaram tal som.
Reergui os Mutantes diversas vezes: numa delas (depois de conceber e realizar o roteiro e a sonorização de um espetáculo dos Mutantes, fazendo-os apresentar primeiro as músicas mais antigas com o som antigo e depois ir mostrando as cada vez mais novas, até chegarem às da época, e enquanto eu fazia o som do sistema se ajustar às novidades que tais músicas iam exibindo) o público, que vinha rejeitando o conjunto, foi-se entusiasmando... até que estrondearam e retornaram os aplausos perdidos. Ganhei um beijão da Rita, no fim do espetáculo. Sempre foram assim as minhas recompensas: breves e inócuas, ao pé do tempo e da eficácia que eu lhes dedicava. E não me importava, porque meu objetivo sucedia: o som! E não só dos Mutantes.
Larguei a faculdade no último ano por dois motivos: o principal foi não querer o diploma, para não ser tentado a trabalhar como empregado; o outro, um apelo veemente do Arnaldo para 'salvar os Mutantes'. Então, alguns meses antes do tempo em que eu planejava largar a EAESP – FGV, no último ano do curso, deixei-a, bem como parei de ajudar um colega na fábrica de máquinas de lavar – e lá fui programar em PERT e realizar em quarenta dias, até à luz de velas, como mostram fotos em meus álbuns, comandando Leo Wolf e Peninha Schcmidt, o novo equipamento de som dos Mutantes que, somado à aplicação dos princípios administrativos ao tornar-me o intermediário entre o conjunto e o empresário Marcos Lázaro, salvou os Mutantes! Cedi ao conjunto e a uma turba de amigos até mesmo a casa onde morava, na qual esse equipamento foi montado; e os ensaios, feitos. Criei mil e um aparelhos de todos os tipos, que condicionaram e conformaram o som dos Mutantes. Batmacumba contém um exemplo da criatividade e desse som. O violoncelo de Rogério Duprat, outro. Alguns mais, todo o mundo está cansado de conhecer e não preciso citar.
Para quem crê em meu irmão do meio como exemplo, a prova da importância que tive na criação dos alicerces e do próprio som dos Mutantes foi pronunciada pela boca do Arnaldo de verdade; não pela língua do mito: a sua primeira palavra significativa, ao dar entrevista ao Fantástico, foi 'CCDB'. Só depois de me citar, lembrou-se de Sérgio. E o locutor do Fantástico abismou-se, ao constatar, sem entender, que a volta dos Mutantes dependia de... tecnologia! Qual? Em primeiro lugar, a minha! O meu som, que sempre foi o parâmetro, o alicerce, o muro inteiro, a casa, o lar, o tudo, sólido qual este parágrafo único, inclusive para discussões, cismas e sismos."
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"Nem sempre participei das aventuras do conjunto musical. Eu lhe fabricava os instrumentos para o sucesso, inclusive o som, e também contribuía com ideias, muitas das quais aproveitaram ou aproveitamos; nós, Mutantes. A revelação de minha história me beneficia menos do que o carisma de 'Mutante Oculto', que essa revelação reduz." (
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"Fui eu quem iniciou e encerrou os Mutantes: as três últimas apresentações foram sonorizadas e operadas por mim: no Palácio das Convenções; numa cidade do interior, em passagem para Ribeirão Preto; e a derradeira, nesta última."
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"Fui morar em Itaipava para construir o último sistema de áudio dos Mutantes, montei para Luciano um conjunto de captadores para piano, que funcionou muito bem naquelas três últimas apresentações dos Mutantes. Luciano tocava muito bem; e, contudo, o conjunto em si se comportava como descrevo na suprema obra – leia isso lá, por favor, onde Atlantes é conjunto geóctone equivalente aos Mutantes e os Etéreos (nome fictício dos Atlantes que, quando vêm incógnitos à Terra, repetem exatinho o que aconteceu aos Mutantes. Por isso digo que Géa é, entre outras coisas, a nossa história...).
O último show dos Mutantes foi sonorizado por mim em Ribeirão Preto. Esse é, que eu saiba, o último de todos. Ou poderia ser considerado como último a tríade final de espetáculos, desde o que sonorizei no Palácio das Convenções, passando por mais um, numa cidade a caminho de Ribeirão, até este último, em Ribeirão. Eu gostaria muito de ouvir essas gravações." (
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"Quando a questão Verdade sobrenadar. A Verdade-Mutantes com V maiúsculo, Vale. Não preciso, nem os Mutantes, de mitos; porque a nossa Verdade vale mais que mitos. Ninguém precisa. Eles devem ser o que são: fatos ou fenômenos sociais, que acontecem por si; não, objetivos premeditados. Nossa Verdade supera qualquer mito, vale mais que mitos, máxime os que alguém possa adrede criar. O lugar certo para se criarem mitos não é o mundo objetivo que a história deve registrar; sim, a ficção declarada como tal: ficção. Criar propositadamente mitos é, no primeiro caso, mentir; no segundo, beneficiar o planeta com uma obra de arte – aliás, qualquer Verdade, com V maiúsculo, Vale. Géa trata do que seja a Verdade em si. Ela existe! E pode ser conhecida inteira."
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"As pessoas ficam atrás do que eu fui, e acabo virando uma espécie de Leonard Nimoy, que todos confundem com Spock; só que eu fui mesmo o Spock das guitarras e tal... Acho boa a ideia de atrair a atenção das pessoas apresentando-me como aquele antigo, e depois necessariamente mostrar o novo, máxime a obra, porque de fama não faço a mínima questão: quero mesmo é transmitir Géa a todos."
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"Não me importo de vir a ser um novo Van Gogh, ou Cervantes, ou qualquer outro dos que enfrentaram dificuldades imensas: esse tem sido o meu dia a dia. O importante é Géa."
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"No Brasil, existe uma fila pior que a dos transplantes: é a dos autores em busca de editores. A primeira pode levar os primeiros à segunda." (
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Nessas narrativas, conquanto pareça, CCDB (Cláudio César Dias Baptista) não se tornou uma pessoa amarga com a falta de reconhecimento. Sua verdade, para os fãs e historiadores, é preservada. Congratulo-me por juntar os dados criteriosamente para voar alto e revezar no comando desta epopéia.

