A BOMBA PARA O TEMPO

 

por Mário Pazcheco

28 jun. / 2017 - Rock'n'roll  é muito louco e  ilusório. É quase impossível imaginar que seria possível recuperar a chama de 20 anos atrás, uma chama clara de álcool e futum.

1... 9... 9... 6... Os botões na máquina do tempo são acionados e nós voltamos ao tempo que não existia metrô e o ônibus era o meio de deslocamento. Nos reuníamos nos arcos acidentais das arcadas do Conic. Nas sextas-feiras tínhamos a ideia do que aconteceria no dia seguinte. Os carinhas e as minas se reuniam para trocar informações e impressões sobre as novas bandas do Entorno e aumentar suas coleções de demotapes – Rumble Fish, Capim Seco, Rumores de Garagem etc. Gostava-se muito de Guns N’ Roses , Ratos de Porão, Ramones...

"Todos os sábados, nos reuníamos no Conic. Nas duas lojas de rock: a Head Collection, do Fellipe CDC, e a Subway, onde a gente assistia vídeos com a galera sendo entrevistada num programa local, que passava no canal 2. Os shows de hardcore, punk rock, pós-punk e thrash eram na sua maioria no Conic, Galpãozinho do Gama, naquela área da Funarte, Zoonna Z e Gran Circo Lar. Íamos a todos os festivais que faziam parte da cena local. O MAP – Movimento Anarco Punk – era composto por punks e góticos, em sua maioria. Foi importante, porque eu comecei a entender sobre os problemas sociais. As músicas daquela época fazem parte da minha vida até hoje. Fiz bons amigos, que permanecem. Tenho amigos com mais de 20 anos de amizade, uns próximos, e outros que encontro em shows ainda. Amigos do Movimento eram Rubens (‘Blue’), Ana Cristina, Flávio, Ancelmo, Ednei, Buti, Alan, Fernando Carpaneda, Tiago Rabelo, mas este último não era punk não (kkkkkkkk)... Tinha o ‘Grilo’, o ‘Frango’, e o Fernando não fazia parte. Mas andava com a gente. Acho que a Gleicy Kelly fazia parte. Estes nomes podem contar a história...” (Thania Vieira)

A rapaziada desce para o Grand Circo Lar para mais um sábado de som com produção do Ronan, o show nesse sábado será da Dorsal Atlântica.

Lembro que rolou uma briga de ringue cabulosa numa gig no Gran Circo Lar. Que show foi esse, quem estava envolvido, e, fora os hematomas, o que restou daquele dia?
– Primeiramente, quero deixar registrado nesse zine que eu devo a minha vida ao Julião. Foi ele quem me tirou do quebra-pau. Na época, eu era punk e fomos inventar de ir a um show de metal, da Sarcófago, produzido pelo Ronan. Aí os seguranças, que eram da Gemini, uma empresa ridícula, começaram a bater em todo mundo, sem a menor dó nem piedade. Enfim, resultado, fiquei em coma dois dias. Os headbanguers levaram muita porrada, os punks levaram bicudos, e ninguém fez nada. Foi aí que eu me toquei de que movimento que corre de segurança não tem estrutura para enfrentar uma revolução armada. (Gargalhadas, sem samplers!) Isso foi naquela época, pois recentemente os punks da MAP enfrentaram a polícia em frente ao Congresso. O Eduardo, da Subway, disse que eu mudei depois de tomar as pancadas na cabeça.
(“Frango” resolveu poupar alguns nomes envolvidos na confusão do Gran Circo Lar.)

Outro empresário-produtor que se destaca é Marcão Camarilha com a banda Sem Destino assinando com o selo do Vitor – a Berlin Discos havia lançado o CD do Oz que era uma produção caríssima.

Na Subway eram rodados e cortados os clipes das novas bandas – projeto Terapia, Imagens e Distorções. As entrevistas eram gravadas e exibidas na tevê num programa aos sábados.

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Havia ata laudatória pioneira dos rockeiros da ACBRock (Associação Cultural Brasiliense do Rock).
Death Slam e seus zines de papel, os zines góticos do Entorno a cena do Guará no Miquere Rock.
Os shows das novas bandas punks nas Terças Garagem.

Raimundos atinge o ápice da onda do sucesso para depois cair; Renato Rocha volta a Brasília e se apresenta com a Vernon Walters; 1996 é o ano trágico da morte do poeta mais conhecido da geração-mimeografo de Brasília, Renato Russo.

Ainda acontecem os festivais no Garagem com o pessoal do X-tudo, caderno cultural do Correio Braziliense.

Eu acompanhava a Marssal e começara a produzir o CD Onde É Que  Está O Meu Rock’n’Roll? – com várias bandas desse período. Imperdível eram os acústicos do programa radiofônico Cult 22 na Rádio Cultura e a putaria convicta do zine do Tubá.

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A Bomba
Um nome explosivo como esse só poderia ser coisa de maluco – foi quando me disseram é uma banda de rock blues, você vai gostar. E eu fui seguir o pavio dessa explosão.

Rapidamente eles gravaram a demotape e acabaram pela primeira vez quando o vocalista Alcebíades se muda para Belo Horizonte. Rapidamente a banda chama Cláudio para ser o novo vocalista e gravam um vídeo divulgado no fromato VHS, o que tornava o caminho caro para divulgação.

Volta às raízes
Alcebíades um conhecido da cena metal dos anos 80, agora cantava hard rock em português; Caldas, o baterista tocava o mesmo estilo com outros conhecidos nossos; Valdeci, o contrabaixista era o mais expansivo e agitado fã da Patrulha do Espaço, acho que a banda era ideia dele e sonho. Nas guitarras gêmeas estavam Vladimir e Joubert, geograficamente eles eram os mais próximos de nós e por isso acompanhávamos o denvolvimento deles com amigos e discos comuns da cena heavy de Brasília dos anos 80.

Por último, outro menino do Guará, Tiago Rabelo tocava bateria com eles.

A onda de loucura maior foi com Alcebíades nos shows no Garagem e no Buraco do Tatu, foi o auge da segunda onda do rock Brasília abreviada com a morte do poeta. A Bomba ainda tentou se manter com novas sessões em estúdio e o clipe mas o momento escorregou às mãos.

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A Bomba um dos capítulos cruciais do rock Brasília no ano de 1996, ano de muita eferverscência - volta mais rápida e logicamente mais pesada em 2017

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2017
A Bomba, a maior fã de bandas paulistas como a Made in Brazil e a Patrulha do Espaço e em reverência ao som delas, eles surgiram tocando material próprio e versões delas.

Praticamente o repertório da Bomba são seis canções autorais e duas versões para “Uma Banda Made in Brasil” e “Jeito agressivo”.

Claro que eles ainda não têm o entrosamento de 20 anos atrás mas aquela fagulha do início do texto ainda arde. No estúdio a reverberação dos oldies rock’n’roll bate das paredes direto no coração. Os solos são mais rápidos com mais notas e pesados. Falta tempo, sobra paixão. Mas Alcebíades novamente mergulha de ponta cabeça no rock’n’roll. Estamos felizes por quase toda a tripulação estar viva e reunida e ainda atrás de cerveja e adrenalina.

Hoje de manhã na caixa de mensagens recebi perguntas de gente do meio rock de Brasília, afirmando que desconheciam A Bomba. Rapidamente esfreguei os miolos e materializei essas frases. Outro fato, Kalango, o corredor exótico ligou para o tatuador HA1000tons e me colocou na linha, ouvi de HA1000tons: “a noite foi ótima” e eu fiquei com a sensação de que não fui o único a não conseguir dormir...

 

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