124 ANOS DE MAIAKOVSKI

 

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Poema de Maiakovski faz 70 anos 

(Geneton Moraes Neto – correspondente – Moscou*)
Museu dedicado ao poeta se torna endereço cult em Moscou

A viagem pela imaginação de um poeta
Num prédio ao lado da KGB, museu tem cenários delirantes que reproduzem universo de Maiakovski

 

Faz 70 anos. Vladimir Maiakovski, o poeta russo que enfiaria um balaço no peito no dia 14 de abril de 1930, aos 36 anos, produziu, em 1926, um poema belíssimo em homenagem ao também poeta e amigo Serguei Iessienin – que se matara três dias depois do Natal de 1925. Não se sabe o que é maior ali: se a tragédia de um suicídio consumado (e outro antevisto) ou se a beleza de versos encharcados de dor e esperança.

Maiakovski passou três meses escrevendo os versos de “A Serguei Iessienin” e o aniversário do poema foi o pretexto para que uma pequena legião de fãs corresse ao Museu Maiakovski, que está se tornado um endereço cult em Moscou.

Na tradução consagrada de Haroldo de Campos, o canto de Maiakovski ao amigo morto dizia: “Por enquanto / há escória de sobra. / O tempo é escasso mãos à obra. / Primeiro / é preciso / transformar a vida, para cantá-la / em seguida. / Para o júbilo / o planeta / está imaturo. / É preciso/ arrancar alegria ao futuro. / Nesta vida / morrer não é difícil. / O difícil / é a vida e seu ofício”.

Iessienin tinha deixado, como despedida, versos belos mas desesperançados – escritos, literalmente, com sangue, num quarto do Hotel Inglaterra, em Leningrado. Depois de cortar os pulsos e escrever os versos finais, ele se enforcou.

Cinco anos depois, o próprio Maikovski se matou. O bilhete de despedida dizia: “O incidente está encerrado. O barco do amor quebrou-se contra a vida cotidiana. Estou quite com a vida. É inútil passar em revista as dores, os infortúnios e os erros recíprocos. Sejam felizes”.

A poucos metros do lúgubre prédio, que, durante anos, serviu de sede à KGB, a polícia política dos governos comunistas, uma placa discreta aponta para um pátio, no começo da Rua Myatninskaya. O visitante que deixar a calçada rumo ao pátio interno de um prédio desbotado terá uma surpresa. É o acesso a um dos mais originais, irreverentes e anticonvencionais museus abertos nos últimos anos na Rússia.

 Instalações tentam materializar os delírios do poeta

O Museu Maiakovski abriu suas portas em 1990 – quando o comunismo já agonizava sob os escombros do Museu de Berlim. Virou ponto de peregrinação de fãs de Maikovski, principalmente porque foi lá que o poeta morou, entre 1919 e 1930, num quarto modesto onde viria a morrer. Ao contrário do que acontece em museus instalados em casas onde viveram escritores – em geral, marcados pelo tom austero – o Museu Maiakovski dá asas ao delírio. A idéia é reproduzir, numa espécie de “instalação” que poderia ser perfeitamente montada numa bienal de artes plásticas, o que se passava na “imaginação em chamas do poeta”.

Assim, objetos que realmente pertenceram a Maikovski, como manuscritos e até boletins escolares, são expostos de uma maneira que pode confundir visitantes desatentos. É a intenção do museu: provocar a curiosidade.

Cadeiras estão suspensas no ar. Um a estante de vidros quebrados parece enterrada no chão. Surrealismo puro. A porta de uma cadeia á maneira de informar que Maiakovski ficou preso durante nove meses por ter ajudado presos políticos a fugir. Um dossiê policial registra, ainda na primeira década do século XX, as atividades do subversivo Maiakovski, na Rússia pré-revolucionária. Bolas azuis jogadas no trajeto do futurismo que tanto o influenciou.

KGB chegou a vetar museu por ‘razões de segurança’

Depois de percorrer os quatro lances da instalação delirante, o visitante chega ao pequeno quarto de pensão que exibe, na porta, o nome do poeta. O cenário é modesto: sofá, baú azul, estante de quatro prateleiras, foto de Lênin na parede. Tudo despojado.

Quem desembarcar nesse estranho mas fascinante museu terá como guia um personagem que parece saído de um dos versos do poeta: Maria Leonietvna, de 74 anos. Depois de ler um aviso de que o museu estava à procura de “trabalhadores idosos”, essa ex-professora se apresentou.      Contratada, virou especialista, ela explica que durante anos a KGB, “por razões de segurança”, era contrária à instalação do museu.

— Desde que Maiakovski morreu, ninguém voltou a morar no quarto que ele ocupava. Era propriedade do Estado – diz ela.

— Entusiasmada com a narrativa da odisséia do poeta na Rússia conflagrada das primeiras décadas do século, Maria Leonietvna vai guiando os visitantes entre um e outro cenários do planeta maiakovskiniano:

— Maiakovski era uma figura contraditória em todos os aspectos – explica a guia. – Rejeitava o amor burguês, mas amou uma mulher de origem burguesa. Era ateu, mas se voltou para a idéia de Deus. Rejeitava o Estado, mas serviu ao Estado. Stalin vetou Maiakovski, porque ele tinha escrito um poema dedicado a Lênin. Quando Stalin o devolveu à vida russa, pensou teria um poema dedicado a ele. Mas Maiakovski nunca o escreveu.

     * O Globo, 11 nov. / 1996.

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