O aumento (Fabio da Silva Barbosa)

O AUMENTO

por; Fabio da Silva Barbosa*

 

Nos chuveiros da fábrica, Tarciso e Genival se banhavam no final do expediente.

— E aí, Tarciso? Vamos tomar uma?

— Hoje não. Tenho um compromisso importante.

— Quando compromisso foi motivo para não beber?

— Mas hoje é sério.

— Motivo de doença?

— Não.

— Então é papo de mulher.

— Também não —sorriu Tarciso, enquanto se enxugava. —Depois te conto. Agora não dá.

Tarciso se arrumou apressado e seguiu rumo às escadas. Ao subir os degraus, seus passos começaram a ficar lentos e vacilantes. A cabeça girava tentando formular frases e gestos. Passou a semana remoendo se deveria ou não tomar aquela atitude. Enfim decidiu. Daquele dia não passaria. Terceiro andar. Passou a mão pela testa suada. Lembrou que deveria ter pego o elevador. Já avistava a mesa da secretária, que com ar entediado, falava ao telefone. Começou a fazer promessas a todos os santos e orixás que lhe vinham a cabeça.

De pé, Tarciso aguardou por quinze minutos até ser percebido. Contrariada, a secretária disse que teria de desligar. Voltou-se para ele e perguntou se desejava alguma coisa.

— Por favor, gostaria de falar com o senhor Gervázio.

— Qual seu nome?

— Tarciso. Sou funcionário.

— Vou ver se ele pode atender. —Discou o ramal. Passado algum tempo, anunciou: -Senhor Gervázio, Tem um funcionário de nome Tarciso querendo falar com o senhor.

— E então? Posso entrar?

— Ele pediu que o senhor aguarde um pouquinho. Pode sentar. – Indicou, com a caneta, as cadeiras de espera.

Exatos cinquenta minutos se passaram. Tarciso já achava melhor deixar aquilo tudo de lado. A úlcera começava a doer e a cabeça girava mais que pião. A secretária juntou alguns papéis que estavam sobre sua mesa. Bateu na porta da sala ao lado. Senhor Gervásio, com a habilidade que só a prática dá, fechou a página erótica que minuciosamente analisava na tela do computador. Ela entrou. Lembrou do funcionário que aguardava do lado de fora.

— Que funcionário? Vem cá, dona Marisa. Senta aqui.

Mais quarenta minutos se passaram. Tarciso já se levantava quando ela voltou.

— Pode entrar.

Agora não tinha mais jeito.

— Com licença.

— Pode entrar. Sente-se. Em que posso ajudá-lo?

— Meu nome é Tarciso e já trabalho a quinze anos na sua fábrica. Nunca faltei um dia sequer. Mesmo quando doente. Nem atrasado cheguei.

— Hum...

— Se o senhor verificar minha ficha, poderá ver que não há nada que me desabone. Então gostaria de pedir...

— Hum...

— Gostaria de pedir um aumento.

— Aumento?

— Sim... Afinal são quinze anos... A família cresceu... O senhor sabe como é...

— Claro. Entendo.

Tarciso quase saltou da cadeira.

— Entende mesmo? Então quer dizer que...

Senhor Gervázio o olhou de forma penetrante. Parecia ler sua alma. Pegou o telefone e pediu que a secretária levasse a pasta com os documentos de Tarciso.

— O senhor deseja uma bebida?

— Não, obrigado.

— Cigarros?

— Parei de fumar.

— Sábia decisão, senhor Narciso. Folgo em saber que temos alguém com tanta perspicácia como o senhor trabalhando aqui.

— Tarciso.

— Tarciso, claro, Tarciso – estudou o rosto do funcionário por algum tempo. – Sabe de uma coisa, senhor Narciso. Uma coisa que me incomoda é a visão errada que as pessoas têm de mim. Às vezes percebo que alguns funcionários me vêem como uma pessoa fria e sem coração.

— Que absurdo.

A conversa continuou descontraída, circulando por assuntos leves, até dona Marisa cortar a sala com a esperada pasta na mão. O chefe agradeceu com cerimônia. Ela se retirou. Ele passou os olhos pelos documentos. Fechou a pasta e a jogou sobre a mesa.

— Realmente sua visita foi providencial.

Tarciso estava completamente aliviado. Deveria ter tomado a mais tempo aquela decisão.

— Eu realmente estava querendo falar-lhe – Continuou o chefe, tomando nesse ponto um ar grave, que deixou o funcionário confuso. – Nossa fábrica está passando por um momento difícil e estamos pensando em fazer alguns cortes.

— Cortes?

— Infelizmente. E teremos de começar por funcionários como o senhor, que estão muito além de nossas posses no momento.

— Mas... Não pode ser...

— Lamentamos muito.

— Mas... Se conversarmos com calma... Podemos...

— Não nos sentiríamos à vontade pagando tão mal a alguém tão capacitado. Com certeza isso não será problema para alguém como o senhor. Qualquer empresa ficaria satisfeita em recebê-lo em seu quadro de funcionários.

— Não é tão fácil... Emprego está difícil... E...

— Não para o senhor. Tenho certeza.

— Por favor, senhor... Sejamos razoáveis... Esqueçamos essa história de aumento...

— Mas não é só o caso do aumento. Seu salário é inviável.

— Conversando... com certeza chegaremos a um acordo.

— A fábrica no momento só pode pagar a metade que o senhor recebe atualmente.

— A metade?

— Sabia que o senhor não iria aprovar. Acho inclusive bem compreensivo. Não tomarei mais seu tempo.

— Tudo bem... Tudo bem... Eu aceito.

— Tem certeza?

— Claro.

Então faça o favor de se retirar. Ainda tenho muito que fazer.

Muito obrigado e desculpe o incômodo. O senhor é realmente um bom homem. Tem um ótimo coração.

Ao ver Tarciso fechar a porta, o garboso senhor Gervázio girou a cadeira, pondo-se de frente para o computador, onde iria voltar a analisar alguns corpos nus, enquanto Tarciso descia as escadas orgulhoso. Queria chegar em casa e contar a mulher como heroicamente defendeu seu emprego.

 

 

*Este texto saiu no meu livro “UM ANO DE BERRO —365 dias de fúria”, lançado pela Editora Independente, de Brasília. Ele é bem legal. Depois, quando quiser mais é só falar que o estoque não para de crescer a cada dia. Posso te enviar quantos   quiserem...

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