Aleister Crowley descansa em paz?

Aleister Crowley descansa em paz?
(Oliver Marlow Wilkinson)

 

     Seria um diabo?... Quando me encontrei com Aleister Crowley no quarto que lhe arranjei para nele morrer não era um diabo. Encontrei Crowley pela primeira vez tinha eu três anos; a minha mão de criança na sua; a minha confiança absoluta nele. Agora, já perto dos trinta, e ele com idade avançada, temia-o; mas quem pode detestar um velho a quem se fez um favor, ainda que no Dia dos Velhos? O mágico parecia encantador, de calções folgados, verdes, barba de mandarim, fivelas de prata nos sapatos e argolas tibetanas que tilintavam e possuíam a vantagem adicional de lhe segurarem as meias altas. Quem não sentiria um interesse condescendente por um velho que se desculpava, no meio do jantar, por injetar nas veias, em quantidade suficiente para matar três homens e para manter em movimento os velhos membros de Crowley e sua conversa?

     Meu pai pedira-me, algumas semanas antes, para procurar um quarto sossegado, em Hastings, que pensava retirar-se. Foi no último ano da II Guerra mundial. Andei às voltas, perguntando se haveria alguém disposto a alojar um mágico. Perguntei no vestiário do teatro local, em que eu atuava, e um dos atores, que abrira uma hospedaria de intelectuais, agarrou a oportunidade de aumentar as atrações das discussões de fim de semana. A renda de Crowley era paga por uma seita da Califórnia que o reverenciava como mestre, ou, de qualquer forma, achava que ele possuía os direitos de autor da sua religião: enviavam-lhe o suficiente para o manterem a caviar, whisky, latakia (1) e caris dos mais picantes.
     Fiquei desconcertado com Crowley – com quem não tivera contacto durante vinte e seis anos – surpreendido com esse mágico que fizera do mal o seu deus. Era inteligente, com uma inteligência de fazer perder o fôlego. Esperava encontrar um feiticeiro pretensioso, um palhaço perigoso, e encontrei um homem inteligente. Para fazer conversa, perguntei-lhe como ia sua magia: ofereceu-se para me vender uma série de livros por uma centena de libras. Havia qualquer coisa de farsa em tudo o que fizemos, que não parecia compatível com a Grande Fera... Conduzi-o ao hall da hospedaria, e, quando entramos, todas as pessoas que lá estavam ficaram aterrorizadas e saíram. Pelo menos, assim pareceu; mais tarde disseram-me que, no preciso momento em que abrimos a porta, terminara uma sessão de debate; mas Crowley pareceu ofendido.
     Quando me despedi, ao olhá-lo de frente, em vez de o olhar de relance e timidamente, pude ver como ainda era uma pessoa extraordinária. Os seus olhos eram brilhantes, de uma intensidade especial: a sua atitude descontraída tinha algo de reptilário; a voz variava entre o murmúrio áspero e o encanto acariciador. Toda sua personalidade estava concentrada, e ele mantinha um controle total sobre si próprio, certamente superior ao que eu poderia ver. A minha admiração era ainda maior por julgar que ele andava na casa dos noventa; afinal, rondava os setenta.
     O que era Crowley?
     Precisamos de uma nova classificação que não seja servil nem caluniosa, que não se escandalize nem condene. Não tenho intenção de fazer semelhante juízo. Limitar-me-ei a reunir algumas facetas do homem.
     Os discípulos, as vítimas e a maioria dos associados de Crowley são unânimes em transmitir a impressão de um especulador profano, de um homem dissimulado numa nuvem de magia e sexo: ele é a Grande Fera. A frase “o homem mais perverso do mundo” fora inventado pelo jornalista John Bull a propósito da morte de um jovem de Oxford, Raoul Loveday, na abadia siciliana de Crowley - a abadia a que Crowley chama Thèléme, inspirando-se em Rabelais, e onde “Fazeres o que queres era a lei”. “Atraído para a abadia”. “Levado ao suicídio pelos adoradores do Demônio”. “Provação terrível de jovem esposa” (que escreveu um livro sobre si própria chamado “A Mulher Tigre”)... “Drogas, magia e práticas vis”... Práticas vis em número suficiente para porem “os cabelos em pé, como picos de um porco-espinho irritado”; mas Crowley protestou indignadamente e intentou uma ação judicial. A notoriedade por difamação, a infâmia, tornaram-no um nome familiar, embora “familiar” pareça um epíteto suave para um nome habitualmente identificado - especialmente entre os jovens – com magia negra e a agitação do universo com a Grande Varinha.
     As fotografias publicadas de Crowley dão sensivelmente a mesma impressão; como se tudo fosse o trabalho de um bom publicista – que Crowley efetivamente era. Seria errado, porém, por de lado essas fotos como poses superficiais de estúdio; dão-nos a verdade, inequívoca, de que esse corpo fora por longo tempo a encarnação do mal: era-lhe impossível disfarçar.
Tenho neste momento comigo três fotografias suas. Uma dela – na capa de The Collected Works of Aleister Crowley: Volume I, publicado em 1905, quando ele tinha trinta anos! – mostra-o como um homem novo, elegante, com olhos escuros, hipnóticos mas não fixos, envolvidos no que parece uma pele banca de cabra; um rosto suavizado pelos lábios carnudos; uma fronte nobre sob o cabelo escuro e espesso, corretamente cortado como o da maior parte dos universitários; roupas de um tecido grosso, tão elegantes como o seu rosto; uma gravata à poeta, superlarga. A segunda foto mostra a fera no apogeu: vigoroso, com uma forte e requintada crueldade em torno da boca sensual; uma mão delicada pensativamente erguida até o queixo, como que surpreendida com a sua própria importância ao espelho; os olhos tão luminosos como quando era novo, mas a sobrancelha esquerda franzida, como que a repelir os vestígios da sua delicadeza inerente; a cabeça, uma cúpula rapada; a gravata podia ser a mesma, levemente composta para concordar com a sua formidável autoridade; as roupas continuavam a ter um bom corte. A terceira foto é de um velho cuja serenidade está patente nos olhos como conas, semicerrados e brilhantes, hipnóticos, calmos e poderosos; a boca mais grossa, como a dos palhaços, porquanto segura entre os lábios um cachimbo, com tabaco de latakia, que lhe repuxa a cara; a gravata parece a mesma, só mais larga, como os laços dos artistas nos romances.
     Há outra foto de Crowley em 1910, quando tinha trinta e cinco anos, casado e pai de família: um homem novo, agradavelmente robusto, um homem encantador, poder-se-ia pensar, habilmente astuto num emprego da City, e pronto, sem dúvida, a juntar-se ao regimento local, mesmo à custa de passar menos tempo com a filhinha, que segura, como um pastor, nos seus ombros, e com a serena esposa, que se acolhe sob o seu braço.
     Crowley nasceu em Leamington, na Inglaterra, de um quaker abastado e de uma mãe de ar oriental. O pai tornou-se um fanático membro dos Irmãos de Plymouth; a mãe vivia no terror constante da vinda do Senhor. Quando o pai morreu, Crowley foi educado pelos sadistas cristãos. Dizia-se que se voltou para o Diabo por resistência. Também encontrou resistência nas montanhas; licenciado em magia; amadurecido em poeta: tinha uma imaginação original, um humor por vezes pueril, uma graça fácil; a sua maneira de gastar fortunas era tão impraticável que estas possuíam uma lógica própria pela qual a perda de milhões voltava à mão dissipadora. Se, na idade madura, não foi milionário junto ao mar, em Hastings, viveu como se o fosse. Na comida e na bebida mostrou sempre bom senso, frustrado pelas suas excentricidades em questão de temperamento e especiarias fortes. Era um excelente jogador de xadrez. Em Hastings entrou no conhecido clube de xadrez, na primeira tarde de sua apresentação, e venceu o campeão local.
     Uma nova apreciação de Crowley deveria incluir tudo isso – cada coisa no seu devido lugar e no molde certo -, a sua poesia, a sua puerilidade, os seus embustes de charlatão, a sua religião, os seus apetites mundanos, o seu desinteressado esbanjamento de milhões, as suas previsões em magia, e essa crueldade refinada que vem da procura, com uma mente forte, da verdade na terrível liberdade do homem. Aleister Crowley ganhou a sua custa um lugar entre os nomes famosos do mundo. Merece mais do que o interesse que daríamos a um carneiro de duas cabeças numa feira.
     Para começar uma nova apreciação de Crowley, vou pegar em dois aspectos seus contraditórios.
     Em 1917-1918, em Nova York, minha mãe, Frances, que pertencera ao grupo de poetas imagistas em Filadélfia, com Ezra Pound e H.D., encontrou Crowley através da amizade deste com o seu marido, Louis Wilkinson-Louis, que escrevia freqüentemente com o nome de Marlouw, um inglês muito conhecido como conferencista na América. Frances detestou, odiou e compreendeu Crowley. Tentou tudo para acabar com a amizade entre ele e o seu marido. Sabia muitas histórias sobre Crowley.
     Uma delas refere-se ao seu primeiro jantar com Crowley: foi quando descobriram que a morada era um arranha-céus de escritórios todos fechados e que o elevador não funcionava; subindo a pé, encontraram Crowley no 6º andar, vestido como um sacerdote de Osíris, com uma caçarola na mão, num local que se assemelhava mais a um templo do que a uma casa; e Louis, que gostava tanto de vinho que nunca se embebedou, começou a falar extravagantemente como um louco, muito diferente do que era, enquanto Crowley olhava Frances em silêncio, durante o jantar que soberbamente cozinhara, e o marido ria despropositadamente por tudo e por nada. Na realidade, não aconteceu nada de terrível. No dia seguinte, Louis estava outra vez como habitualmente e só se recordava de um excelente jantar. E Frances nunca mais subestimou os poderes de Crowley, embora pensasse que não eram mágicos.
     Nova York, em 1918, era bastante sinistra, com demasiados crimes a coberto de sanção oficial; mas Crowley acrescentou o seu próprio melodrama. Parece que representou o papel de “o maior criminoso” de ficção. O crime, em si, cini sombria maneira de ganhar a vida, ou como seguro e sistema de vida, era considerado desprezível e baixo por Crowley, que estava muito mais interessado no universo. Ainda assim, deve ter sido um dos poucos indivíduos com os atributos da “mente superior”. Possuía conhecimentos médicos, era um matemático brilhante, estudioso profundo de filosofia e metafísica, compreendia línguas modernas e antigas, era indiferente a temperaturas extremas de calor e frio e – para acrescentar o toque decorativo necessário ao “grande vilão” – usava um pingalim, uma bengala malaia ou um bastão gravado por um feiticeiro africano com uma cabeça de demônio e caracteres mágicos; era também um mestre nos disfarces como qualquer “escroque internacional”. Os disfarces eram-lhe necessários. As “autoridades” perseguiam-no, mesmo em 1918. Mais tarde foi, naturalmente excluído de alguns países. Para Crowley, ser um criminoso, embora grande, e nada mais, seria uma “perda de tempo” incompatível com o mundo que vivia, que se reflete no seu próprio poema Aha!, publicado no Equinox como uma      

     “Invocação ao Espírito da Sabedoria”:
     

     Estranhas drogas são as tuas,
     Hábito e tragos de vinho mágico!
     Estas não fazem mal. Os seus eremitas habitam
     Não nas frias celas secretas
     Mas sob pálios cor de púrpura
     Com amantes de peitos opulentos,
     Magníficas como leoas –
     Ternas e terríveis carícias!
     O Fogo vive e brilha em olhos ávidos;
     E o cabelo imenso e amontoado jaz junto delas.

     Não era uma faceta de Crowley que Frances tenha visto ou respeitado particularmente; suspeita-se que ela viu nele um rapazinho muito inteligente e horrivelmente perigoso. Uma das suas histórias sobre Crowley conta que uma vez em que ela e Louis jantaram com ele num restaurante, ele escolheu sentar-se de costas para uma janela com longas cortinas; quando entraram dois homens e começaram a andar entre as mesas, Crowley inclinou a cadeira para trás, puxou a cortina sobre a cara, e os detetives passaram a poucos passos dele.
     É evidente, em todas a histórias de Frances, que se abeiram do pesadelo, que nenhum mal veio para si ou para a sua família. Isso podia dever-se a Frances, assim como à sorte e à atitude de Crowley para com Louis. Uma de suas histórias mais assustadoras é de como, em casa, ela entrou numa sala que pensava vazia e encontrou um homem calvo à mesa. O homem pôs uma cabeleira e transformou-se em Crowley. Pegando numa mala – em que Frances viu mudas de cabeleiras como outros homem teriam de camisas (o homem que ela vira uns momentos antes tinha a cabeça completamente rapada) -, Crowley partiu. Deve ter ficado tão surpreendido quanto Frances. Posto que Louis o deixara numa casa que ele julgava vazia, não esperava ser perturbado. Esquecem-se os tremores nervosos dos monstros. Tudo tinha acontecido tão rapidamente que Frances duvidou do que vira; mas tentou contar ao marido; e Crowley procurou sugerir que ela estava louca. Um pouco mais tarde, de fato, quando troçou dos temores dela, Crowley ajudou a arranjar dois médicos para atestarem sua loucura; mas Frances, mais complexa e inteligente do que Crowley julgava, suspeitou do plano, soube a tempo que estava a ser levada, não para uma instituição privada mas para um manicômio, e fugiu à armadilha. Frances possuía um espírito forte, mas um organismo fraco: e com medo de que Crowley prejudicasse seus filhos, adoeceu. Crowley não abrandou. Foi ele quem Frances, ao regressar a casa, ainda muita fraca, viu no cimo das escadas, segurando a mão do seu filho de três anos. Crowley esperou-a e, vendo o seu mutismo, levou mãe e filho para outra sala, junto do fogo, murmurando: “Encontrei ontem uma mulher pateta... Ela não aprovava a minha amizade com o marido. Voltou a casa para encontrar... os seus dois encantadores bebês – sobre a esteira... diante do fogo. Em extraordinárias posições – disse ela... sem cabeças. Esta mulher era capaz de imaginar... as cabeças dos seus filhos rolando no tapete – rolando! Abatidos na infância... Pobre, louca mulher – ela imaginou que eu o tinha feito”...
     Frances podia ter enlouquecido de verdade. Pelo contrário, forçou uma entrevista com um dos médicos que tinham tomado parte na tentativa para a interditarem e confrontou Crowley e o marido com a ameaça da sua palavra. Poder-se-ia pensar que ela assustou Crowley e o fez perder o juízo como ele dissera dela. É duvidoso, mas o marido ficou nervoso; e, de qualquer forma, foi luma ameaça que Crowley compreendeu. Assim como também sabia que Frances esperava a oportunidade de lhe arrancar os cabelos. As suas visitas tornaram-se menos frequentes. Depois acabaram, mas ele disse a Frances que a seguiria onde quer que ela fosse e fizesse o que fizesse. Num certo sentido, assim aconteceu.
     Recordo o terror que nós sentíamos com as histórias que a minha mãe contava sobre Crowley, nas velhas casas isoladas da Inglaterra onde vivemos mais tarde. Tinha eu oito anos quando resolvi acabar com Crowley e matá-lo por causa do medo que ele causava a minha mãe e do mal que trouxera ao mundo. O escritor Henry Williamson disse-me uma vez que também ele, como homem adulto, sentira o mesmo, que se dirigira a Paris com um revólver para matar Crowley, mas não o encontrara em casa. Era difícil encontrar Crowley, que estava quase sempre fora de casa quando o procuravam, e, por vezes, por meditação transcendental, fora do seu próprio corpo.
     Pode julgar-se que Frances, pela maneira como foi tratada por Crowley, acreditaria em qualquer história fantástica sobre ele. Na verdade, Crowley pode ter inventado a história dos bebês decapitados para assustar Frances. No entanto, é um erro pensar que Crowley não punha, freqüentemente, suas idéias em prática. Era sempre esse o seu intento. Há também uma história, passada em 1918, contado por várias pessoas, algumas das quais transmitiram à polícia. Não existe para ela nenhuma confirmação, exceto os corpos afogados de um jovem casal que conhecera Crowley. Disse-se que eles tinham começado a interessar-se por Crowley e pela sua religião e depois a rejeitaram; no entanto, continuaram a vê-lo. Para ser iniciado no círculo mais exterior dos círculos secretos, é por vezes necessários a um jovem provar a sua devoção à causa, cometendo atos estranhos ao comportamento habitualmente aceite; quando esse ato vai contra a lei, o jovem pode vê-se envolvido, por chantagem, em atos mais desesperados; isso conduz – cegamente – a uma obediência total. É possível que esse jovem casal tenha resistido a uma tal iniciação. Contudo, aceitaram – imprudentemente, como veio a revelar-se – um convite para uma festa na casa que Crowley alugara, para esse fim, numa ilha no porto de Nova York. Nessa festa foram despidos e amarrados, posto o que os outros convidados os crivaram de setas até eles morrerem. Será uma história verdadeira? Em alguns manuscritos de Crowley, encontrado após sua morte, há uma descrição de um negro que foi amarrado vivo a uma árvore, de um buraco cortado no seu estômago e da inserção do pênis de Crowley na abertura. Pouco importa saber se essa descrição faz parte da imaginação de Crowley ou das suas práticas; a mente que concebeu um ritual desses tê-lo-ia praticado. Não há dúvidas de que Crowley punha em prática rituais semelhantes, religiosamente.
     Frances, sem perdoar a Crowley, podia ver para além das monstruosidades, das sensacionais armadilhas, das ciladas e dos artifícios, até ao âmago. “Sempre disseram a Crowley que Deus deu ao homem a liberdade de escolher entre o bem e o mal. Por isso – diz Crowley – o homem tem o direito de escolher o mal. Assim, Crowley escolheu. Fez do mal o seu Deus – para provar a liberdade do homem”. Essa liberdade que o Deus que Crowley odiava tinha dado em primeiro lugar ao homem. Ao que chegam os crentes literais nos satanistas de Deus!
     Era este o ponto de vista de Frances.
     Louis Wilkinson tem outro – em palavras suas, no seu capítulo sobre Crowley(2).
     Para Louis – filho de um clérigo -, Crowley era um lutador contra as hipocrisias morais e sexuais da época, na mesma rebelião a que Louis tinha devotado sua vida; Louis, que ra um brilhante Lúcifer, encerrado na tripla carapaça de uma escola preparatória inglesa, de uma escola pública inglesa e da mais velha universidade da Inglaterra. A liberdade de Crowley em quebrar todas as cadeias dos tabus sexuais convenceu Louis de que até a satisfação de seus próprios grandes apetites - apetites bissexuais até bem depois dos vinte anos – não só era um prazer como um dever. Crowley e Louis não falavam muito sobre sexo e magia. Louis estava mais interessado no caráter global de Crowley, que admirava extraordinária e criticamente.
     “Pena é que seu nariz seja tão pequeno” escreve; “caso contrário, teria sido, creio, indiscutivelmente, um grande homem, como escritor e como líder religioso. A vaidade era a sua fraqueza. Estava demasiado seguro do seu gênio para criticar ou rever adequadamente a sua obra. Pensava que tudo quanto escrevia era bom. Impaciente por ver impressos os seus livros, e querendo tê-los compostos e encadernados ao seu modo esbanjador, raramente tentava encontrar um editor, pelo que a sua circulação era estritamente limitada.
     Os livros de Crowley – The Diary of a Drug Friend, Moon Child e pelo menos outras oitenta obras – tiveram uma maior circulação desde que estas palavras foram publicadas. Louis Wilkinson sugere que se devia fazer uma antologia da poesia de Crowley, que é por vezes surpreendentemente luminosa e feliz:

     

 

 

 

 

 

 

 

 


     Oh! uma cabra branca como um lírio
     Encrespada com uma moita de espinhos
     Com um colar de oiro para a garganta
     E uma laçada vermelha para os chifres...

     E certos versos surpreenderão por uma razão diferente:

     Exterminai a humanidade
     E daí à terra uma oportunidade;
     A natureza pode encontrar
     Na sua herança
     Alguns rebentos de uma raça
     Menos infinitamente vil...

 

     Algumas destas sátiras, como uma sobre Alfred Douglas, To a Slim Gilt Soul, são magistrais. Louis gostava das paródias de Crowley, especialmente “Oh rapariga inglesa, meia criança, meio animal”...
     O livro de Crowley sobre o tarot, ilustrado por Lady Harris, é soberbo. Os seus devotos pagavam pela publicação dos seus livros sobre magia; Crowley recebia o dinheiro como sendo-lhe devido.
     “Muitas das acusações contra a perversidade de Crowley”, escreve Louis, “são infundadas, mas de algumas há provas”. Quanto à atitude Crowley em relação ao dinheiro, Louis escreve: “Herdeiro na juventude, de uma fortuna considerável, gastou-a totalmente nessas manias imaginativas ricamente coloridas que podem levar um homem à miséria mais depressa do que quaisquer simples luxúrias. Crowley dedicou-se com toda a sua singular e apaixonada violência a gastar tudo o que tinha. Tratou a fortuna como um brinquedo. Se uma pessoa organizar expedições de alpinismo e estiver continuamente a mandar imprimir suntuosas edições particulares de seus poemas (...) e comprar moradias na Escócia, e viver por toda a parte como um príncipe e receber como um marajá, nem a maior fortuna durará muito tempo. Mas que fulgor, que entusiasmo e brio enquanto dura”!
     Quando Louis Wilkinson encontrou Crowley pela primeira vez, 1907, essa fortuna estava gasta; mas Crowley continuava a viver como um príncipe. Houve, porém, um período em 1930 em que, recordo, Louis me pediu para não dar a sua morada a Crowley, se o visse. Como eu não falava com Crowley desde os meus três anos, e estava a organizar um teatro do YMCA, não era provável que encontrasse bruxas e bruxos; mas Louis insistiu nisso. Devia ser porque Crowley vivia em alojamentos miseráveis fora de Paddington Green. Crowley, pela primeira e última vez, era pobre e parecia-o; deve ter tentado obter dinheiro de Louis, que era, em todos os sentidos, um homem cauteloso. Durante um período razoavelmente curto, porém, Crowley voltou costas a Paddington Green e regressou uma vez mais a Paccadilly e Jermyn Street.
     “Para algumas pessoas”, escreve Louis, “ele era sem dúvida perigoso, mesmo fatal. Mas duvido muito que alguma vez tenha ‘desintegrado’ a ‘personalidade’ de alguém, a menos que essa personalidade estivesse em vias de desintegração {...} Fossem quais fossem os princípios morais de Crowley ou a ausência deles, recordo com a mesma profunda satisfação que ele me disse, no fim da vida, que era eu seu maior amigo”.
     Louis descreve a agudeza de Crowley na resposta a Theodore Dreiser: “Foi em Nova York, durante a I Guerra Mundial. Dreise, depois de protestar severa e aturadamente contra a dependência da literatura americana da tradição inglesa, perguntava-lhe: ‘O que tem você para nos oferecer?’ Crowley respondeu-lhe com uma única palavra: ‘Patrocínio’. Recordo ainda a raiva de Dreiser. Foi maravilhoso. Nesse tempo Crowley experimentava a droga anelônio e costumava dar ‘fesa anelônio’. Persuadi Dreiser a ir a uma. Foi com certa apreensão. ‘Terei de triplicar a dose habitual para excitar Dreiser’, disse Crowley enquanto a preparava. Todavia Dreiser bebeu o seu copo da mistura de um trago, num desafio propositado. A seguir sentiu-se um tanto inquieto. Perguntou a Crowley se havia um bom médico na vizinhança, ‘só no caso de alguma coisa correr mal’. ‘Não sei de nenhum médico’, disse Crowley, ‘mas’, acrescentou, num tom de amável segurança, ‘há um cangalheiro na esquina da Rua 33 a com a 6ª Avenida’.”
     Louis também descreveu as travessuras pueris mas freqüentemente divertidas de Crowley. Quando Crowley vivia em Boleskin, nas Terras Aktas da Escócia, e era conhecido como Lord Boleskin, persuadiu - naquela voz e entoação notavelmente semelhantes às de Winston Churchill – um convidado suíço um tanto ingênuo de que haggis (3) era uma espécie de carneiro sagrado, e convenceu-o a ir procurá-lo nos pântanos.
     Neste caso, Crowley estava a brincar; mas quando recitava maravilhosamente numa língua desconhecida, dizendo que era “a língua dos anjos”, acreditava no que dizia. Quando envelheceu, sentiu-se desapontado; se calhar porque ele, o mestre, não alcançara mais para o seu senhor: mas o desapontamento era mais profundo do que isso. “Que realmente se julgava destinado a ser um grande regenerador religioso’, escreve Louis Wilkinson, “que tinha uma fé absoluta na religião que edificou a partir de sua ‘Lei de Télème’, para conduzir o mundo mais perto daquilo a que chamava ‘Divindade’, não tenho dúvida”. Todavia, Crowley acabou por considerar a sua vida sem préstimo, e agradeceu a Louis, o cândido amigo, por corrigi-la. Nem um murmúrio de arrependimento pelos seus métodos maléficos alguma vez lhe passou pelos lábios; morreu firme na sua fé; o seu único lamento era não ter feito mais.
     A crença de Crowley nas palavras com que terminava as suas cartas: “Fazeres o que queres será toda a lei”, parece inexata para um homem tão inteligente; pois há sempre igual ênfase em “O escravo servirá”. “É essa a vontade do escravo?”, perguntei a meu pai. “Sim”, respondeu ele sem hesitação.
     “O escravo quer servir – sabe que é feito para isso”. O que é, decerto, conveniente para o seu dono. Compare-se Cristo lavando os pés dos discípulos.
     Nem Frances nem Louis acreditavam que Crowley possuísse poderes mágicos; mas por vezes, era difícil definir seus poderes. Depois de Frances se ter divorciado de Louis Wilkinson, vivíamos num bangalô, numa grande esquina de Essex, e aí Crowley alcançou-a sem usar uma varinha mágica. Frances encontrou um sinal de vagabundo do lado de fora do portão grande. Não era como os sinais de vagabundo que ela tinha visto, mas como os símbolos usados por Crowley. Ficou tanto tempo a olhar para ele que nós – a mãe dela, a minha irmã e eu – fomos ao seu encontro. Frances falava num tom calmo, mas nenhum de nós alguma vez sentiu uma tal intensidade de terror como a que nessa altura nos assaltou - a duas mulheres maduras e a dois adolescentes – ao calor do sol. Foi como se a inversão do credo de Crowley fizesse um sol negro derramar do céu uma escuridão gelada. Era um terror acima da natureza, para além do racional. Mas a única magia era o fato conhecido de que toda a pessoa de grande bondade ou de grande maldade cria uma imagem que continua a ter impacto na imaginação, esteja ou não presente, quer o saiba quer não; mesmo após sua morte.
     Crowley dava freqüentemente uma impressão mágica. Nos fins da década de 1930, a seguir a eu ter visto Crowley sem lhe ter falado, num almoço do Foyle, mostrei-o a minha mulher, Margaret, quando ele descia a escada rolante do metrô de Londres, enquanto nós subíamos; quando chegamos lá encima, Crowley também lá estava em cima, a sua inconfundível figura movendo-se na multidão. Dylan Thomas também apreciava muito esses truques. Meu pai deixou uma vez Dylan Thomas afundado sobre o balcão de um bar do Soho, tomou um taxi, saiu na Broadcasting House e encontrou Dylan Thomas debruçado no balcão da recepção. Muita gente possui os seus truques mágicos privados ou públicos.
     Uma prova mais tangível dos poderes de Crowley revelou-se num incidente ocorrido após a II Guerra Mundial. Por ocasião de uma conferência que proferi numa mansão de Gloucestershire, visitei depois um grupo de artistas numa casa contígua. Aí, sobre o fogão de sala, havia um grande quadro de um clérigo perseguido pelos demônios sobre túmulos: obviamente, o pintor estava do lado dos demônios. “Quase posso ver Aleister Crowley destacar-se deste quadro”, disse eu, sem sabe se os meus amigos anfitriões reconheceriam o nome. “Tê-lo-ias visto se estivesses aqui quando Crowley estava conosco”, disse o desenhado de cenário, o líder do grupo. Quando eu, ao falarmos de Crowley, duvidei dos seus poderes mágicos, o desenhador disse: “Não pensarias isso se estivesses conosco quando Crowley aqui esteve. A seguir ao jantar, viemos para uma sala do primeiro andar” e levou-me a essa sala, um quarto pequeno para uma casa tão grande, com janelas de batentes que abriam para um relvado não tratado e árvores ao longe. “Crowley sentou-se sobre as pernas, aí em frente do fogo. Um de nós sentou-se no chão, do outro lado. Além de mim, havia mais duas pessoas na sala. Quando Crowley falou, o homem que estava do outro lado da lareira em relação a Crowley caiu de lado, com a cabeça a poucos centímetros das chamas, e aí ficou. Outro levantou-se, caiu de gatas, farejou à volta das cadeiras, mendigou, ladrou e ganiu, arranhou na porta...”
     Nessa altura lembrei-me de que Frances me descrevera o caso de um homem que visitara ao mesmo tempo que Crowley, há muitos anos, em Nova York, e que começara a proceder como um cão, e como Crowley continuara a conversar, observando o outro com relativo interesse; até que o homem se recompôs, terminando aquela exibição obscena como se fosse uma brincadeira – que Louis aceitara mas Frances não. “Como um cão”, continuou o homem, “e depois levantou-se, sem uma palavra, correu para a janela, e só voltou na tarde do dia seguinte, com as roupas rasgadas e a cara a sangrar. Não pude mover-me durante uns instantes, e, quando o fiz, Crowley tinha ido deitar-se”. “Crowley deve ter usado drogas”, sugeri. “E hipnotismo”, acrescentou o homem, que, como verifiquei, não era tão crédulo como eu pensara. Recorde-se, a este propósito, que Crowley era tão hábil no uso de drogas como no hipnotismo. “Mas serviu-se ainda de mais outra coisa”, acrescentou o homem. “De quê”, perguntei. “Da magia”, respondeu ele.
     Magia? Podia Crowley fazer soprar o vento ou tornar-se invisível? O meu pai só uma única vez esteve tentado a acreditar nos poderes mágicos de Crowley, mas já depois da morte deste, quando Louis foi um dos seus testamenteiros literários. Entre os legados de Crowley contavam-se os botões de punha rosacrucianos que os outros testamenteiros não estariam interessados em usar, penso eu. Louis usou-os. E usava-os , algumas semanas mais tarde, quando se dirigia a uma casa de campo perto da sua, em Dorset.
     Não encontrando seus amigos em casa – anormalmente estava a chover e Louis detestava a humildade - tentou escalar a janela mas caiu e partiu a perna em dois pedaços, com os braços presos acima de si.
     Quando abriu os olhos, entrouxado como estava de cabeça para baixo, viu os botões de punho rosacrucianos. Isto fê-lo pensar; tanto assim que, antes de deixar o hospital, e receando que os livros de magia de Crowley pudessem ser atingidos por uma raio, providenciou para os mudar de sua casa para a nossa – para a casa de minha mulher e eu vivíamos com os nossos filhos no meio do campo. Quando chegaram, dei uma olhadela aos belos livros mas fechei-os precipitadamente; não por receio mas com a determinação de não lhes dar os anos de estudo de que necessitariam. Teria feito o mesmo com livros de matemática superiores. O que a minha mulher e eu ignorávamos então era que as nossas filhas gêmeas de onze anos costumavam ir às escondidas ao sótão, quando nós julgávamos que já estavam deitadas, ler os livros de magia e seguir as instruções tão metodicamente como se fossem as suas lições da escola. Mas tarde contaram-nos como, uma noite, ficaram em pânico quando seguiam à letra as instruções e as figuras geométricas, e a magia começou a tomar forma. De que forma se tratava nunca nos disseram. No entanto, qualquer pessoa que julgue Crowley um charlatão da magia não tem mais que dar uma vista de olhos a esses livros: só podiam ter sido escritos com anos de estudo. Crowley falava a sério. Acreditava no que disse, escreveu e fez. É um dos grandes originais do mundo e – Senhor! – como trabalhou duramente para seu Deus! E é também o abominável rapazinho que Frances via.
      A minha opinião pessoal sobre Crowley é um conjunto das do meu pai e da minha mãe – com grande influência desta – e das minhas próprias impressões sobre ele durante esses meses junto ao mar.
     Surpreendentemente, quando o encontrei em Hastings, não se deu, como eu julgara, um encontro entre a ingenuidade e o artifício, mas antes um choque de simplicidades. O seu ponto de vista era tão diferente de qualquer interpretação corrente da vida que, por vezes, parecia ingênuo. A minha prórpria simplicidade tê-lo-ia, outras vezes e inconscientemente, baralhado. Como recompensa de eu ter lhe procurado um quarto para morrer, enviou-me o que meu pai me assegurou, demasiado tarde, serem os cigarros mais caros do mundo. Quando confessei a Crowley que os fumara sem os apreciar devidamente, ele julgou que eu estava a pedir-lhe mais, e mandou-nos. Certa vez em que Crowley, do seu quarto lá em cima – quando a minha mulher, eu e as nossas filhas visitamos o ator, seu anfitrião -, enviou uma taça de caviar para nós provarmos e devolver, julguei que se tratasse de uma oferta e levei tudo para casa. Todos os incidentes passados com Crowley oram uma comédia. De uma vez em ele estava a jantar conosco, na nossa casa junto à costa, pediu licença para se levantar da mesa; informei de que a casa de banho era do outro lado do pátio. Ele respondeu que uma casa de banho não era essencial. Isso alarmou-me, e ofereci-me para lhe trazer uma bacia de quarto para aquilo a que classificávamos como a nossa sala de visitas. Recusou-ª Senti-me aliviado por ver tudo que ele pretendia era espetar uma enorme agulha hipodérmica no braço. Fiquei surpreendido, mas também impressionado frente àquela cena na realidade bastante alegórica: o Grande Mágico, vulnerável no seu calção chinês, de pendente de uma gota de líquido terreno nas suas velhas veias. Quando deixou a nossa casa, como quando chegou, o nosso cão e os nossos gatos deitaram-se a seus pés numa sujeição de adoradores. Uma vez mais Crowley me causou medo. Tirei a minha família de Hastings e juntamo-nos numa comunidade cristã na Escócia. O humor continuou a perseguir Crowley até na sepultura, ou, pelo menos, até ao crematório, onde rudes e belas mulheres e alguns grandes homens – incluindo Louis Wilkinson, que recitou Io, Pan!, de Crowley -, para além de uns tantos repórteres espantados, transformaram o grande momento numa imensa farsa poética.
     Os paradoxos tanto afligem o homem mau como o bom. Como é que Crowley, de quem se disse que sacrificara crianças e animais, era amado por uns e por outros? Porque é que Crowley escreveu:

     Repara! As crianças estão atentas às coisas mais sábias,
     E guardam mais segredos nos seus ternos
     Olhos brilhantes do que os homens cuidam.
     Por isso têm os poetas, para que eles não esquecessem,
     Comparando os pequenos sábios a reis.

     Há também o paradoxo dessa foto de 1910, quando Crowley era uma marido e pai feliz: tão feliz que a bondade o tentou a renunciar ao mal. Crowley tornou-se bom. As catástrofes seguram-se com feroz e inexorável regularidade. Crowley regressou ao mal. Tendo atribuído a tarefa de provar o direito do homem ao mal, tendo-se identificado como mal mais do que julgava, tendo-se tornado a encarnação do mal a um ponto que nem ele imaginara, nunca mais pôde dar-se ao luxo de ser bom – pobre diabo!

 

     Notas: 1) Tabaco aromático turco;
                2) Em Seven Friends e
                3) Prato de miúdos de carneiro.

 

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