VHS, Vísceras e Contracultura (2026)
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São tempos de excesso de informação on-line — mas, em sua maioria, fragmentada, sem razão e sem coragem, muitas vezes alinhada aos interesses dos poderosos, verdadeiros porta-vozes desses algozes.
A falta de manutenção da própria história é talvez o degrau mais baixo da existência.
Os donos dos meios de divulgação — plataformas digitais, arquivos em nuvem, inteligências artificiais — dominam o fluxo da informação, enquanto a tecnologia avança em conflito com a memória analógica datilografada.
Diante disso, recorremos aos velhos disquetes e às impressões amareladas para reeditar, restaurar e ressurgir temas que carregam sua própria relevância.
E o melhor: tudo isso disponível, sem cobrança, como deve ser.
É incrível como tudo isso ressurgiu, rompendo a abstração da História para afirmar seu posicionamento, seu conhecimento e sua manifestação.
Aqui, você abre janelas multiculturais que se alinham sob o espírito da contracultura. Este veículo, portanto, se associa naturalmente a essa vertente — sem a necessidade de recorrer diretamente ao tropicalismo ou a seus signos mais superficiais.
Mas basta pensar em Terra em Transe e Câncer — este com a participação de Rogério Duarte — para encontrar um fio que puxa toda uma meada: do cinema tropicalista ao chamado cinema marginal.
O pessoal da Tropicália foi avançado, inovador, arrojado, sofisticado. Mas Glauber Rocha ia além. Ele reunia todas essas qualidades e ainda operava por impulsos intensos, pensamentos fragmentados — algo que hoje talvez fosse lido sob outras chaves —, vindos mais da pele e das vísceras do que de um raciocínio linear.
Num desses impulsos, ou numa guinada radical, ele — marxista — realiza uma obra religiosa. Um filme que tensiona e expõe os inconscientes socioculturais do cristianismo dentro do contexto da colonização.
Dá-lhe na veneta: ele faz — e mais do que isso, teoriza sobre o que faz.
O homem é um monstro.
Vale lembrar que Caetano Veloso compôs a canção Tropicália a partir do impacto quase monstruoso que Terra em Transe teve sobre ele — como relata no livro Verdade Tropical.
A Tropicália nasce, assim, de duas forças:
de um lado, o choque estético de Terra em Transe;
de outro, a relação que Gilberto Gil estabelece entre a Banda de Pífanos de Caruaru e Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos The Beatles.
E como o conjunto dessas quatro janelas remete diretamente aos anos 70 e aos seus artistas de linha de frente, recorremos ao rock produzido naquele período — em especial ao trabalho de Arnaldo Baptista e da Patrulha do Espaço — para situar as contradições do fazer artístico em um país de terceiro mundo.
Sem a intenção de questionar ou apontar rumos, mas apenas de observar o desenvolvimento da arte musical no país, sem lamentações.
E é justamente nesse ponto que tudo se encontra: memória, ruído, impulso e registro.
O que permanece não é a versão oficial, nem o arquivo domesticado pelas plataformas — mas aquilo que resiste, que insiste, que reaparece fora de ordem, fora de controle.
Se há alguma direção, ela não aponta para o futuro nem para o passado, mas para esse atrito constante entre o que foi vivido e o que ainda pode ser lido, ouvido, visto.
Porque, no fim, não se trata de preservar por nostalgia — mas de manter em movimento.
A insurgência imortalizada em VHS é o caminho tortuoso do vídeo Conicções. Ele não se abre como uma tela, mas como um guarda-roupa: você abre e escolhe a roupa para a ocasião. É assim que vejo esse filme.
Filmado sem recursos, literalmente na noite escura e boêmia do Conic, ali somos nossos próprios porta-vozes, em situações não dirigidas. Apenas o fluxo da ação e da fala.
Foi realizado como outros registros daquele tempo: sem cálculo, sem mediação, quase sem intenção de arquivo — e, no entanto, acabou se tornando documento. Um fragmento para a posteridade, como se já antecipasse o olhar de um museu sobre uma Brasília que era mais viva, ou ao menos se permitia viver em comunidade.
Hoje, isso parece ter sido erradicado.




