Conic — 21 ANOS DEPOIS (2004)
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21 ANOS DEPOIS (2004)
Introdução: preservar para não desaparecer
Vinte e um anos depois — não é sina, não é determinação. É oportunidade.
A chance de preservar, organizar e estudar a própria história antes que ela vire ruído, boato ou silêncio.
Às vezes me pego pensando:
Será que alguém está nos procurando nas redes?
Será que jovens pesquisadores tentam entender o que aconteceu no Conic, nas noites quentes, nos becos culturalmente perigosos e artisticamente férteis?
Se esses relatos servirem para que alguém recupere um fio, uma lembrança, um rosto, um fragmento de cidade — já terão cumprido seu papel.
Este capítulo nasce daí: de olhar para as fotos de 2004 e entender que elas são mais vivas que a memória. São testemunhas.
1. Conic, agosto e outubro de 2004 — O subsolo que respirava
As fotos de 2004 são portais. Nos levam para o subsolo simbólico e real de Brasília, onde a arte sempre prefere nascer.

LEGENDA 1 — Conic, 2004 (cadeiras amarelas)
“Conic, agosto de 2004 — A mesa amarela da sobrevivência.”
Da esquerda para a direita, Márcio; Zeferino Alves Neto (in memoriam), Cicinho, 'Guismarães ou Carlinho$ Guimarães e Pazcheco: cinco figuras da noite brasiliense dividem a mesa, a cerveja, as histórias e a camiseta recém-exibida do Jimi Hendrix. Foi ali — entre a fumaça, os copos de vidro e o burburinho do subsolo cultural — que tantas conversas nasceram e tantas ideias se dissolveram. A camiseta, estendida como estandarte, acabou virando poeira cósmica nos anos seguintes, perdida nos caminhos do tempo.
LEGENDA 2 — Beirute, 2004
O libertário Magu Cartabranca, com os dedos das mãos em hastes, pronto para atirar sua teia global; atrás dele, um cantor de rock. Segurando a tela, o saudoso Paulo Iolovitch, e contracenando com a obra, Mário Pazcheco, com sua imbatível camiseta do Hendrix.
A mesa amarela — A camisa que virou poeira cósmica
Numa das imagens, estamos sentados nas cadeiras amarelas clássicas do Conic. No centro, estendida como bandeira de país inexistente, a camiseta do Jimi Hendrix.
Talvez eu tivesse acabado de comprá-la. Talvez estivesse apenas exibindo um objeto de devoção estética. Ou talvez — o mais provável — eu tenha ido ao banheiro, trocado de camiseta e voltado para posar, na eterna coreografia da boemia.
Não importa.
O que importa é que a camiseta virou pó cósmico. Sumiu como tantas roupas que viajam pelo tempo: emprestadas, perdidas, roubadas, reaparecendo no corpo de alguém décadas depois — ou evaporadas na poeira simbólica da cidade.

Carlinhos, também conhecido como Carlinhos Bilu, o saudoso artista colagista e multimídia. Ao seu lado, em pé, o cronista, revisor e mestre da palavra, também saudoso, Zeferino Alves Neto. Ao lado dele, o artista teatral Márcio; e, ao lado de Márcio, os jornalistas Mário Pazcheco — da era dos blogs — e Cicinho, o jornalista mais conhecido do Pacotão, formado na velha escola da informação.
Da PornoShop ao Beirute
Outra foto nos mostra em frente à lendária PornoShop, marco geográfico de quem viveu o Conic sem filtro. Cinco figuras improváveis formando um pentagrama humano:
– pseudartistas,
– jornalistas errantes,
– cronistas do caos,
– malabaristas de sobrevivência,
– e um ou outro visionário involuntário.
Nada combinava, mas tudo fazia sentido.
Depois, o inevitável desfecho: o Beirute, quando só havia o da Asa Sul. Cada noite no Conic terminava ali — porque todo ritual precisa de um templo.
Nas fotos, estamos mais jovens, talvez mais ingênuos, talvez mais perigosos. Mas sobretudo: estávamos vivos.
2. A fome que nos movia
O Conic daqueles anos era movido por uma fome a que Brasília nunca admitiu.
Fome de mundo.
Fome de voz.
Fome de existir.
E, claro, a fome literal — amenizada pela pinga mais barata entre o Conic e a Rodoviária, servida sem vergonha e sem glamour, como a sobrevivência sempre é.
Eram noites em que cada gesto valia, cada encontro improvisado parecia destino, cada copo parecia último. A arte surgia do nada. A amizade surgia de repente. A cidade pulsava embaixo dos nossos pés — um subterrâneo cultural que ninguém sabia como explicar, mas todo mundo queria viver.
3. A exposição Subterrâneos — um reflexo do que éramos

Maria Joana, militante da cultura regional; ao lado dela, o grande colecionador de discos Cleydson — também saudoso. No chão, Mário Pazcheco; ao seu lado, Zé Antônio, em pose de jogador de futebol, exibindo os joelhos. E ali está Carlinhos Guimarães, responsável pela ocupação artística do Espaço das Mulheres. Ninguém sabe que fim levaram aqueles pôsteres.
Em outubro de 2004, o Conic recebeu a exposição Subterrâneos, organizado pelo Núcleo de Cultura de Ceilândia e pelo Espaço das Mulheres. A mostra não apenas registrava a produção artística independente; ela refletia o que acontecia ali todas as noites:
um laboratório de impulsos, opiniões, ruídos, encontros e sobrevivências.
As fotos que tiramos naquele período não eram apenas registros de um evento cultural, mas de uma maneira de viver Brasília — muito diferente da cidade oficial, polida, planejada.
Ali, entre vitrines antigas e paredes descascadas, nós existíamos à nossa própria maneira.
4. As fotos: memórias congeladas que falam mais do que lembramos
Quando olho hoje para aquelas imagens, percebo que as fotos lembram mais do que eu.
Porque minha memória falha, mas a câmera é implacável.
Vejo pessoas que já se foram.
Vejo outras com quem perdi contato.
Vejo ruas que mudaram, fachadas que desapareceram, bares que fecharam, lojas que viraram poeira.
Mas vejo também — e isso é fundamental — a chama de um tempo que Brasília tenta esquecer, mas que precisa ser registrado.
Porque este pedaço da cidade não morreu.
Só ficou enterrado esperando ser desenterrado.
5. Conclusão: o dever de continuar contando
Sim, nós temos memórias.
Mas não temos o luxo de deixá-las morrer.
Enquanto eu puder — e enquanto houver papel, tela, voz — vou continuar reunindo fatos, recuperando histórias, juntando fotos, preservando essas vidas que ajudaram a inventar uma Brasília subterrânea, cultural, contraditória, humana.
Porque, se não fizermos isso, quem fará?
E porque toda cidade precisa de seus cronistas.
Mesmo — ou principalmente — quando tudo parecia acontecer nas frestas, nos cantos, nas sombras, à margem do oficial.
A história existe.
A memória pede passagem.
E 21 anos depois, estamos aqui — vivos nas fotos, vivos nos relatos, vivos no que ainda podemos contar.

