FUNCIONALIDADES NÃO TÃO MODERNAS (2025)
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FUNCIONALIDADES NÃO TÃO MODERNAS
No meio do galpão da Ferminas Recicláveis — aquele território onde objetos sobreviventes aguardam um novo destino — ele brilhava. Um vermelho impossível de ignorar. O Intelbras TC 8312, com seu ar de telefone futurista que resolveu dar as mãos ao passado. Tinha a pose de quem já tocou muito, mas ainda queria tocar mais. Olhei para a carcaça uma vez. Olhei de novo. Na terceira, já tinha me entregado ao feitiço do design retrô.
Perguntei o preço.
O vendedor disse: “Tanto!”
Fiz minha expressão clássica de dinheiro não tá fácil. Ele entendeu, como quem faz parte da mesma fraternidade secreta dos sobreviventes do fim do mês — e me deu 45% de desconto. A pechincha era quase uma bênção. E, sem querer, aconteceu: saiu da minha boca, solto, espontâneo, sem ensaio:
“É que eu coleciono…”
Pronto. O homem abriu aquele sorriso universal de que barato! — o mesmo que todos fazem quando digo que coleciono telefones. Porque, convenhamos, é muito mais fácil alguém colecionar moedas, figurinhas ou selos do que carregar em casa uma micro-história das comunicações brasileiras em forma de aparelhos coloridos.
E tenho mesmo: preto, cinza, amarelo. Agora, vermelho. Uso alguns nos vídeos em que apareço — fico parecendo uma central telefônica particular, um museu vivo. Mas eu queria mais. Queria espalhar orelhões e orelhinhas por todo canto, como flores antigas brotando num jardim tecnológico. E queria que funcionassem. Que tocassem. Que chamassem por alguém, nem que fosse só para lembrar que o toque faz parte da memória.
Houve um tempo em que “todos” os telefones da casa gritavam ao mesmo tempo. Parecia que eu morava dentro de uma central da CTBC. Hoje… bem, hoje mal tocam. E quando tocam, é quase sempre a LBV pedindo donativos — a voz da caridade interrompendo o silêncio.
Ainda sonho com catálogos telefônicos, desses grossos que serviam tanto para achar gente quanto para apoiar a televisão. Quero cartões de orelhão também, esses pequenos retângulos mágicos que já carregaram saudade, urgência, desculpa, amor, adeus.

Segurei o telefone vermelho como quem resgata um fragmento do tempo. Lindo, brilhante, de linhas curvas, lembrando o passado que nunca deixou de ser futuro. Ao vê-lo ali, percebi: o telefone não era só um objeto. Era um pouco da minha história. E, naquele galpão, entre sucatas e memórias, senti que tinha encontrado mais um capítulo da minha coleção — e de mim mesmo.

