Mais Arquivo, Não Revelação: Os Filmes Inéditos de Warhol e o Mito da Descoberta (2026)

Durante décadas, a obra cinematográfica de Andy Warhol foi marcada pela ideia de excesso: ele filmava tudo, o tempo todo, muitas vezes sem montar, editar ou sequer revelar o material. Dentro desse contexto, a recente revelação de rolos de filme não processados, guardados sob o rótulo genérico de raw stock, não representa a descoberta de um novo Warhol, mas a ampliação material de um arquivo já conhecido por sua vastidão.

Os rolos, filmados principalmente entre 1963 e 1966, permaneceram sem revelação até recentemente, quando técnicos ligados ao MoMA e ao Andy Warhol Museum decidiram processá-los. Parte do material estava vazia ou irremediavelmente danificada; outra parte, porém, preservava imagens surpreendentemente legíveis após seis décadas. Entre elas, surgem novos Screen Tests, cenas de festas da Factory, registros de exposições na galeria Leo Castelli e imagens do Velvet Underground em trânsito.

Alguns rolos contêm cenas de sexo explícito, inclusive variações e material não utilizado de filmes já conhecidos, como Couch. Esses fragmentos não inauguram a presença do sexo na obra de Warhol — algo amplamente documentado desde 1964 em filmes como Blow Job, My Hustler e, mais tarde, Blue Movie —, mas ajudam a compreender a escala e a informalidade com que esse tipo de material era produzido na Factory.

A novidade histórica não está no conteúdo em si, mas no fato de que esses rolos nunca haviam sido revelados, e portanto nunca foram vistos nem mesmo pelo próprio Warhol. Em alguns casos, os rótulos manuscritos — como “Jerry & Girl” — parecem ter funcionado apenas como identificações internas, não como títulos de obras formalizadas, e não constam em catálogos racionais anteriores do cinema warholiano.

A hipótese mais plausível para o não processamento desses filmes à época envolve fatores práticos e legais: o caos produtivo da Factory, o enorme volume de material gerado e, em certos casos, o receio de consequências jurídicas relacionadas à obscenidade, especialmente quando envolviam sexo explícito ou relações inter-raciais em um período anterior à liberalização legal e cultural do final dos anos 1960.

Assim, o achado não revela um Warhol oculto ou contraditório, mas reforça algo já central à sua prática: a criação de um arquivo excessivo, fragmentário e muitas vezes inconcluso, no qual o gesto de registrar importava mais do que a circulação pública imediata das imagens.

Andy Warhol Exposed: Newly Processed Films From the 1960s
2 de fevereiro, 18h30, Museu de Arte Moderna, 11 West 53rd Street, (212) 708-9400; moma.org.

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