As Quatro Factorys de Andy Warhol
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As Quatro Factorys de Andy Warhol
Arquitetura, deslocamento urbano e transformação simbólica (1963–1987)
A história das Factorys de Andy Warhol não é apenas a história de endereços sucessivos em Manhattan. Trata‑se de um percurso que acompanha, quase em sincronia perfeita, a transformação do próprio artista: de ilustrador marginal a ícone global, de agitador underground a gestor de marca cultural. Cada mudança de endereço marca uma inflexão estética, social e simbólica.
Este capítulo propõe uma leitura historiográfica e urbana das quatro Factorys, entendendo‑as como espaços vivos, sujeitos a pressões imobiliárias, mudanças de status social e reconfigurações do sistema da arte.
I. A Primeira Factory — 231 East 47th Street (1963–1967)
A primeira Factory, instalada no quinto andar de um prédio comercial na East 47th Street, em Midtown Manhattan, tornou‑se conhecida como a Silver Factory. O ambiente, coberto por papel‑alumínio e tinta prateada aplicados por Billy Name, funcionava como um híbrido de ateliê, set de filmagem, salão de festas e refúgio para figuras à margem da sociedade nova‑iorquina.
Ali, Warhol consolidou sua linguagem serigráfica, produziu dezenas de screen tests e iniciou sua produção cinematográfica mais radical. A Factory era menos um estúdio e mais um organismo social: imprevisível, poroso, frequentemente caótico. Superstars, poetas, músicos, traficantes ocasionais, socialites e curiosos circulavam sem hierarquia clara.
No final de 1967, Warhol recebeu aviso de despejo. O proprietário informou que o prédio seria demolido. A Factory foi desmontada e o edifício efetivamente veio abaixo. Durante algum tempo, o terreno permaneceu vazio e foi utilizado provisoriamente como estacionamento — fato que, com o tempo, se cristalizou no imaginário como destino definitivo do local, embora tenha sido apenas uma solução temporária típica da especulação urbana de Manhattan.
O desaparecimento físico da Silver Factory encerra simbolicamente a fase mais utópica e desregrada do projeto warholiano.

Andy Warhol na escada de incêndio da Factory, fotografado por Stephen Shore.
II. A Segunda Factory — 33 Union Square West (1968–1974)
A mudança para o edifício Decker, na Union Square West, ocorre em um momento de ruptura profunda. Em junho de 1968, Andy Warhol sofre o atentado cometido por Valerie Solanas. A partir desse episódio, a Factory jamais voltaria a ser a mesma.
Embora ainda chamada de Factory, a sede da Union Square apresenta uma atmosfera mais controlada. Há recepção, horários, funções mais definidas. A produção cinematográfica continua intensa, mas agora sob maior supervisão de Paul Morrissey. É também nesse período que Warhol passa a se afastar gradualmente do contato direto com o caos que antes alimentava sua obra.
Paradoxalmente, a Union Square se torna o espaço de algumas das narrativas mais tensas da história da Factory: invasões, conflitos internos, disputas de poder e o progressivo afastamento de figuras centrais do primeiro ciclo, como Billy Name, Gerard Malanga e Jackie Curtis.
Em 1974, Warhol pinta ali seu último retrato naquele endereço: o de sua mãe, Julia Warhola, falecida em 1972. Pouco depois, a Factory é novamente transferida.
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III. A Terceira Factory — 860 Broadway (1974–1984)
Instalada na esquina da Broadway com a East 17th Street, ainda nas imediações da Union Square, a Factory do número 860 marca a consolidação institucional de Andy Warhol. O espaço ocupa um andar inteiro de um edifício comercial e funciona cada vez mais como escritório do que como laboratório artístico.
Segundo depoimentos posteriores, muitos colaboradores já não se referiam a esse espaço como Factory, mas simplesmente como the office. A produção artística segue, mas agora acompanhada de contratos, segurança privada, gestão de imagem e da crescente importância da revista Interview.
É nesse período que Warhol se afirma como figura central do mercado de arte internacional, retratista de milionários, celebridades e líderes políticos. A Factory torna‑se menos visível como espaço de ruptura e mais eficiente como engrenagem de uma economia cultural sofisticada.
No início dos anos 1980, o proprietário do prédio anuncia um aumento substancial do aluguel, precipitando mais uma mudança.
IV. A Quarta e Última Factory — Con Edison Building (1984–1987)
A última Factory ocupa um antigo prédio da Con Edison, localizado entre a Madison Avenue e as ruas 32 e 33. Trata‑se de um complexo de grandes proporções, em formato de “T”, com cinco andares e múltiplas alas independentes.
O espaço incluía um ateliê de pintura de dimensões monumentais, áreas de armazenamento, estúdios de vídeo, salas de exibição, escritórios ampliados da Interview, cozinhas, elevador, refeitório e até um terraço. Mais do que qualquer outro fator, o que mais agradava Warhol era a possibilidade de armazenamento: centenas de obras, arquivos, projetos inacabados e as célebres Time Capsules.
Apesar da escala impressionante, o espírito da antiga Factory já não existia. Não havia mais superstars improvisados nem vida boêmia constante. O local funcionava como centro administrativo de um artista plenamente integrado ao sistema da arte e da mídia.
Andy Warhol morreria em fevereiro de 1987. Essa última Factory encerra definitivamente o ciclo iniciado vinte e quatro anos antes na East 47th Street.
Considerações finais
As Factorys de Andy Warhol não foram apenas endereços sucessivos, mas espelhos de seu tempo e de sua trajetória pessoal. Cada deslocamento espacial corresponde a uma mutação simbólica: do underground à institucionalização, do risco à preservação, do improviso à gestão.
Se a Silver Factory desapareceu fisicamente, demolida e substituída pelo fluxo impessoal da cidade, sua mitologia sobrevive. As Factorys seguintes, mais sólidas e organizadas, garantiram a permanência do legado, mas jamais recuperaram a intensidade anárquica do início.
No fim, a história das Factorys é também a história de Nova Iorque: uma cidade que absorve, transforma e, por vezes, apaga os espaços que moldaram sua própria cultura.


