1990: POLÍCIA ENTRA EM CENA E VIRA COADJUVANTE (ZÉ DO CAIXÃO)

Polícia entra em cena e vira coadjuvante
(José Mojica Marins*)

1969 parecia uma no promissor. Uma nova empresa cinematográfica era inaugurada, e eu chamado para escrever um roteiro e dirigir o filme que ela iria produzir. Escrevi-o, enquanto a firma lançava cotas para vender a fita. Os donos da empresa, com mil planos mirabolantes, contratam centenas de vendedores e funcionários, abarrotando o mercado. Arrecadam dinheiro para realizar pelo menos cinco filmes: montam um time de futebol, um parque infantil... Começam a pensar em cargos políticos. A filmagem, porém, acaba por ser esquecida. Parto para outra.

Nessa ocasião, Walter Hugo Khoury me apresenta um produtor americano que desejava produzir no Brasil vinte longas-metragens eróticos, de baixo custo. Conversamos, e o produtor deu-me quarenta e oito horas para que eu entregasse os vinte argumentos prontos! Aceitei o desafio, e com Rubens Francisco Lucchetti, escrevemos e roteirizamos as vinte histórias. Quarenta e oito horas depois, lá estava eu no Hotel Jaraguá, entregando o pacote para o americano.

Tudo parecia dar certo. Mas por ingenuidade, ou confiança excessiva nas pessoas, eu conto os planos para um amigo na Boca. Pra quê? O resultado é que o Hotel Jaraguá passou subitamente a ser o local predileto do pessoal do cinema - mais de dez diretores procuraram o americano, fazendo-lhe propostas uma mais baixa que a outra. O produtor assusta-se, e chega à conclusão de que no Brasil se paga para trabalhar...

Pé de Guerra — Entre um e outro projeto abortado, o ano se aproxima de seu final. Eu havia atuado em dois filmes: O Profeta da Fome e Cangaceiro sem Deus, além de uma participação especial num dos três episódios do filme Audácia, de Carlos Reichembach. Já me encontrava bastante aborrecido com o cinema, com a situação que o meio estava vivendo. Queria realizar um filme meu, mas faltava-me um produtor.

Na verdade, todo o meio artístico e da comunicação em geral estava em pé de guerra naquele período. Quem fica desaparece, quem aparece não fica (um exemplo: Glauber Rocha); tudo tinha dupla interpretação e clima de risco. Éramos como um pedaço de terra cercado de água por todos os lados, mas a terra estava em fogo e na água não era possível ficar, afinal não somos anfíbios... E nesse turbilhão de dúvidas e insegurança e na fossa total, na base do “me ajuda aqui que eu te ajudo ali”, dou início à minha obra: Bacanal dos Sádicos, que depois passou a se chamar "Ritual dos Sádicos" e, finalmente, "O Despertar da Besta".

O maior problema que eu tinha na época era financeiro, e a fim de agilizar as filmagens e liberar os atores em um breve tempo dividi o filme em diversas narrativas, e evitei a filmagem dos atores em grupo; cada um terminaria seu personagem sem ter contato com o outro. Finalmente O Despertar da Besta tinha início. Tinha início também a mais estranha e diabólica saga por que um filme já passou - a sua hibernação se aprofundaria num pesadelo, para viver no além (muito além do inferno) criado pelo homem...

Naquele momento, porém, a sorte parecia me favorecer. Juntaram-se a mim dois sócios, e o problema de negativo e laboratório, bem como o da equipe técnica e artística, estavam resolvidos. Faltavam estúdio, figurantes, refeições, direção e roteiro, que ficaram a meu cargo. Rubens Francisco Lucchetti desenvolveu o roteiro, a partir do argumento que lhe entreguei. Depois de três dias de filmagens externas, partíamos para o estúdio.

Polícia em cena — A cena é a de um grupo de jovens estudantes viciados. A filmagem parecia decorrer na normalidade; a vizinhança porém, estava apavorada. E em meio à tomada em que um dos estudantes fumava maconha, irrompe no local um grupo de policiais, liderados por Fleury (que depois se transformaria no conhecido delegado) e pelo hoje ex-policial Fininho, além de um terceiro investigador. Os policiais invadiram o set armados de metralhadoras, colocando toda a equipe contra a parede, e iniciando a revista. Eu, de braços erguidos, tentava explicar o engano para os indiferentes policiais. Apesar do desespero da situação, não deixo de observar um deles, o terceiro homem no comando, notando que ele tem alguma semelhança com Jô Soares. Estranha coincidência, pois naquele mesmo dia eu havia conversado com Jô sobre a possibilidade da sua participação no filme, contracenando com Ítala Nandi. Uma idéia surge em minha mente, e eu tento convencer o policial a participar do filme...

É só aí, e percebendo minhas enormes unhas, que eles caem em si. Após as devidas explicações, eu consigo que aquele policial não só se torne meu assessor em relação ao tema dos tóxicos - a sua especialidade -, como que venha a participar do filme, no papel que estava reservado para Jô. No que ele, por sinal, saiu-se muito bem. Os outros policiais também concordam em colaborar, realizando várias cenas de prisão de traficantes e viciados. Os atores-policiais levaram tão a sérios as cenas que um dos integrantes do elenco acabou com uma costela quebrada (acidentalmente)...
A filmagem prossegue, e os problemas voltam a crescer. O negativo acabava, e como os sócios não possuíam recursos financeiros a dívida no laboratório teve que ficar em meu nome, crescendo dia a dia.

Censura - Toda a pressão estava sobre mim, pois eu era o único com nome conhecido. O filme foi para a censura. As dívidas eram muitas, e eu o responsável por todas elas. Só o lançamento me tiraria da crise. Mas a censura não estava interessada nos meus problemas, e definitivamente não tinha compreendido a obra. Chega a mim a triste notícia: o filme estava integralmente barrado, não seria liberado nem com cortes, tinha sido considerado um atentado ao pudor e uma ofensa à sociedade. A cópia (única) ficou presa em Brasília, onde, soube-se depois, divertia alguns privilegiados em sessões secretas...

Prontamente os “salvadores da pátria” surgiram, propondo interferir para a liberação - ficando, porém, com 80 por cento da obra... E as dívidas só seriam pagas se o filme fosse realmente lançado. Os anos 70 chegaram: 71, 72... Alguém teve que pagar: devolvi o dinheiro antecipado pelos territórios, acertei as outras dívidas. Os sócios não quiseram responsabilidades, afinal estava tudo no meu nome.

Com o prestígio de outras obras minhas, comecei a forçar a barra na Censura. Em 1974 recebi uma ameaça: se porventura eu tentasse novamente liberar o filme, o negativo seria queimado: além de tudo, a obra agora era considerada subversiva! Novamente eu estava sozinho, mais uma vez os sócios se omitiam. Aliás eu nem tinha mais sócios: ninguém queira culpa no cartório. O dó! Novamente, porém, um imprevisto vem cortar sua carreira. Augusto Kalil renuncia ao cargo de presidente da Embrafilme. O negativo de O despertar da besta é esquecido no depósito de matéria da empresa em São Paulo. Por acaso descubro seu destino em 1988, mas antes que possa denunciar o erro, o negativo é depositado na Cinemateca. De novo minhas ilusões iam por água abaixo. O meu contrato com a Embrafilme não me permitia negociar com qualquer outra distribuidora. O Despertar da besta estava novamente enjaulado, dentro de sua própria liberdade. Aquela que considero minha melhor obra parece de novo estar destinada ao esquecimento.

No ano seguinte, de novo sou chamado pela Embra para ser ressarcido de meus prejuízos, e também para marcar o lançamento... para 1990. Finalmente eu iria colher os frutos de tanto trabalho, tropeços e injustiças. Chega 1990, e com ele a posse do novo presidente da República, Fernando Collor. Um novo governo, novas leis... A Embrafilme é extinta, não existe mais. Meu sonho cai por terra outra vez. A minha obra atinge a maioridade - 21 anos! - e continua oculta. Sinto-me como o único sobrevivente de uma guerra nuclear, que tem o mundo nas mãos - só que é um mundo que de nada serve, transformado que está em lava incandescente... E agora, José?

JOSÉ MOJICA MARINS - ESPECIAL PARA O CORREIO BRAZILIENSE, 19 ago. / 1990.

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