Billy Name: O Guardião Prateado da Memória (2026)
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Havia uma confiança silenciosa na Factory. Não era declarada, não era assinada em contrato, não passava por advogados. Andy Warhol confiava em Billy Name como se confia em alguém que nunca pergunta nada. Confiava-lhe as chaves do estúdio, os negativos ainda quentes, as fitas, os registros, os restos do dia. Billy era o guardião da memória — não por título, mas por presença.
Billy Name não era visitante. Morava ali. Dormia num armário prateado, respirava o pó metálico das paredes, via tudo antes de todo mundo e ficava depois que todos iam embora. Se a Factory tinha um olho interno, era o dele. Entre 1963 e 1970, foi quem mais viu, mais registrou, mais permaneceu. As fotografias que hoje definem a Silver Factory passaram primeiro pelas mãos dele.
Warhol lhe deu uma câmera. Billy devolveu um mundo.
Foi ele quem prateou o espaço — papel-alumínio, tinta spray, obsessão. A prata vinha da ponte da cidade natal, Poughkeepsie, mas ali virou outra coisa: cenário, conceito, estado de espírito. Warhol entendeu na hora. A Factory virou prata, e Billy virou Name.
Durante anos, tudo ficou ali. Negativos em fichários, rolos, contatos, filmes. Um arquivo vivo, informal, precioso demais para perceber o perigo. Warhol nunca foi homem de guardar bem as coisas. E Billy, menos ainda de desconfiar das pessoas.
Depois da morte de Warhol, em 1987, um baú reapareceu entre seus pertences. Dentro, fragmentos de várias tragédias: fotografias e negativos de Billy Name — e o roteiro de Up Your Ass, de Valerie Solanas. O texto que ela pedira de volta repetidas vezes. O texto que disseram estar perdido. O texto que ajudou a empurrá-la até o dia 3 de junho de 1968, quando entrou na Factory com um revólver calibre .32, atirou em Andy Warhol e saiu andando.
Warhol sobreviveu por pouco. Nunca mais foi o mesmo. A Factory também não.
Billy Name saiu em 1970. Levava consigo o trauma do tiro, a desilusão com a nova fase empresarial de Warhol e um arquivo que, sem que ele soubesse, já estava condenado à errância. Nos anos seguintes, viveu discretamente em Poughkeepsie, vendendo usos de suas imagens para revistas, curadores, cineastas. Nunca se importou muito com dinheiro. Definia-se como um budista anárquico. Talvez fosse apenas alguém que acreditava demais.
Em algum momento dos anos 2000, confiou seus negativos a um agente para digitalização e gestão comercial. Não havia contrato escrito. Nunca houvera. O agente mudou de cidade, depois de estado, depois de ilha. As ligações pararam de ser atendidas. Os pedidos de devolução ficaram sem resposta.
Quando o assunto veio a público, em janeiro de 2010, o New York Times estampou a tragédia: cerca de 3.000 negativos de Billy Name haviam desaparecido. O agente dizia que não estavam perdidos. Estavam “em cativeiro”, mantidos por pessoas que queriam dinheiro. Uma frase que parecia saída de um filme ruim, mas que descrevia com precisão o destino de um arquivo histórico.
Curadores se alarmaram. Pesquisadores temeram o pior. Callie Angell, do Whitney Museum, disse o óbvio que precisava ser dito: Billy Name foi o único fotógrafo que morou na Factory. Suas imagens eram a representação escolhida por Warhol para si mesmo. Sem elas, um pedaço decisivo da história da arte ficava em suspenso.
Billy dizia que seus negativos estavam na terra dos fantasmas. Não era metáfora.
Depois disso, nada mais foi simples. Parte do material reapareceu em digitalizações dispersas, revistas antigas, ampliações feitas ao longo dos anos. Os negativos originais, não. O arquivo virou lenda, litígio, boato de leilão em depósito, antiquários anônimos, cifras sussurradas. Uma sucessão de agentes passou pela vida de Billy, cada um deixando mais lacunas do que soluções.
Quando Billy Name morreu, em 2016, aos 76 anos, o obituário registrou a ausência como dado histórico: um grande arquivo de seus negativos dos anos 1960 havia desaparecido e nunca fora recuperado. Nem a morte trouxe descanso. Vieram os testamentos concorrentes, a disputa entre família e agente, acusações de influência indevida, julgamentos, recursos, reversões.
Discutia-se quem herdaria o quê. Mas o essencial já não estava lá.
A Factory sempre foi boa em produzir brilho e péssima em preservar rastros. Valerie perdeu o texto. Billy perdeu os negativos. Warhol perdeu o controle da própria memória. Tudo foi ficando fragmentado, espalhado, apropriado por outros, como se o desaparecimento fosse parte do método.
Billy Name, o homem que morou dentro da imagem, terminou como personagem de uma história sem fechamento. Guardião de uma memória que ninguém soube guardar. Um arquivo vivo transformado em ausência.
Talvez seja esse o legado mais fiel da Factory: uma estética do excesso, da confiança cega e da perda irreversível. Onde tudo parecia eterno — prata, fama, imagem — e nada, absolutamente nada, ficou a salvo.

