(minh) A experiência de visitar a mostra “Os filhotes aprendem a nadar” (2025)
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Ontem foi emocionante pra mim.
Juliana Krause
Quando conversamos rapidamente com Ana Luíza, dissemos a ela que sentimos sua coragem.
Depois, fiquei pensando no binômio morte–sexo.
Tudo a ver. Nossas pulsões básicas. A vida é feita disso.
Parabéns para ela, com certeza.
Cristovão Cassino Teixeira
A Fotografia é a Emoção da Vida
(mário pazcheco)
Memória e Espelho
Na parede, expõem-se dias longínquos em múltiplas formas: releituras da memória, lembranças revisitadas.
Uma exposição nasce daquilo que se observa — do reflexo no espelho aos objetos ao redor.
É preciso sensibilidade, argúcia, foco e direção; é preciso também um objetivo existencial.
Pois, quando os vivos organizam exposições para outros vivos, acabam trazendo à tona aqueles que já partiram — os mortos que vivem novamente na imagem.
A Experiência Coletiva
É difícil escapar ao tom literário de um catálogo quando o tema é essencial como a fotografia.
Ontem, ela se refletiu em muitos pares de olhos: havia ali uma tripulação maior do que a de um Boeing.
Parentes do laço matrimonial de trinta anos atrás, amigos sobreviventes dos anos 70 e, sobretudo, muita gente nova, desconhecida e atuante.
Era um happening necessário diante das edificações sufocantes da QE 40, no Guará II.
Uma noite pulsante: música de DJ, corpos em resistência, plástico e suor misturados — um manifesto inevitável diante dos moradores presos à televisão.
Espaços e Corpos
As paredes com papel de parede rosa transformavam-se em antessala, sala de exposição e sala escura.
Mas, além das fotografias, o que mais chamava a atenção era o desfile dos corpos presentes, cada um com sua assimetria — imagens vivas que se somavam às imagens da parede.
Vi a aniversariante Sophia, que carinhosamente me chamou de tio Mário.
Depois, Robson, guitarrista do Barbarella, e Cris, guitarrista da Nefelibatas.
Ali, entre eles, ecoava o rock indie, dos anos 80 ao século XXI.
Também as professoras dos pré-adolescentes, que desfilavam com a convicção da juventude — enquanto a nós restava a experiência.
O Imaginário de Ana Luíza Meneses
Era o momento da fotógrafa analógica Ana Luíza Meneses, que abria seu imaginário em uma sala pública.
Suas imagens eram íntimas, atravessando as engrenagens do meu cérebro de pai.
Uma janela do andar superior revelava um verde infinito — fora de moda hoje, mas carregado de significado.
O registro era preciso: dos anos de bonança até os de penúria, tudo estava condensado em imagens.
O Corpo e a Liberdade
O corpo nu é uma tela em branco, pronta para ser pintada.
Não era o corpo que cai, mas o corpo que atrai, que fascina, que se torna objeto de desejo — com seus odores e sua liberdade.
Liberdade sem vendas, sem vestes.
Era cine privê, sex shop e galeria de arte ao mesmo tempo.
Não era audácia: chamar assim seria alinhar-se aos puritanos, que cobrem os corpos sem jamais esconder os pecados da carne.
Comunidade em Movimento
Na Pilastra — uma galeria de frente para a praça, vizinha de um quiosque — respirava-se arte.
Ali não era o Plano Piloto, nem Sobradinho ou Taguatinga: era uma rua tomada por gente que queria respirar e meditar entre a fumaça do cigarro e a taça de vinho.
O orgulho era exposto como troféu: novo, jovem, diverso.
Era LGBTQIA+, era hétero, e trazia a forma do amor livre — dos descolados, dos juntos, dos separados, do monogâmico ao trisal.
Eu oscilava entre nostalgia e urgência: a necessidade de instalar a ação diante da rigidez fixa da verticalização das residências.
Manifesto e Coletividade
Magu Cartabranca e sua banda de rock passaram pela rua, gritando da janela do carro.
As amigas da mãe de Ana Luíza também apareceram.
Julimar, gerente de cultura, sentia-se orgulhoso — como se também fosse responsável por aquela manifestação.
A instalação “Os filhotes aprendem a nadar” era divertida, mas também coletiva: parecia obra de todos nós.
Eu não desviava os olhos dos rostos daquela gente estranhamente nova para mim.
Era como estar no Olimpo de um prédio residencial, com formiguinhas subindo rumo ao cume de um cristal de açúcar.
Épico. O arrastar das pessoas lembrava Sebastião Salgado.
A curadoria da exposição de Ana Luíza Meneses acertou no período e na composição.
E eu sabia: ainda havia outros universos a serem explorados.
Foto: Marizan Fontinele
SERVIÇO:
- 22 de agosto a 16 de outubro de quarta a sábado das 14h às 19h das 19h às 22h
- Local: Galeria A Pilastra, no Guará II, na QE 40
- Classificação indicativa de 14 anos