O Relógio das 5h50 (2026)
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Às vezes a vida é um dado rolado que cai na casinha redonda de um jogo de bolinhas de gude. Há coisas misteriosas, como se já estivessem previstas, girando em torno da fala de um terceiro personagem: “Você precisa do apoio governamental para digitalizar essas fitas, esse acervo”. Quando ouvi aquilo, pareceu um sonho que ainda não chegou, porque o tempo sempre foi uma tempestade.
Não sei como consegui reunir e manter tantas fitas. Nem faço conta das fitas de vídeo T30 que passei adiante ou doei. Devem ter virado poeira, pois nunca mais vimos uma delas digitalizada.
Outra frase que ficou guardada foi a de que, quando eu me aposentasse, depois de cumprir meu tempo na ativa, teria tempo de sobra para cuidar das coisas às quais me dediquei a vida inteira.
E como não tenho netos nem cães, alimento os micos, os saruês, as capivaras e os pássaros.
Com as pontas dos dedos sujas da poeira bolorenta da história, o velho aparelho de CD voltou a vibrar tocando Moby Grape em WOW. E é mesmo um “uau”.
Agora são 17h37. Perto das seis, minha mãe viajou para Trindade (GO). Minha mulher, meu anjo, foi cuidar dos cabelos para ficar bonita para mim; antes disso, pagou as contas da mãe dela.
Estou em todas as partes da casa. Mexo em tudo: desorganizo para organizar. O pacote de revistas chegou do Rio Grande do Sul e está sobre a mesinha, ao lado do jornal de hoje ainda intocado pelos olhos. Crescem morros de gibis e livros à espera de leitura.
Mas agora já não carrego o peso do despertador da segunda-feira às 5h50.

