Verismar Figueiredo: o homem que não coube na cidade (2017)

 

volto ao poema
me escondendo da cidade
das ruas da cidade
das pessoas nuas
uma a uma
nos cantos da ausência
cuspidas uma a uma
em grande volume
e um mesmo texto 

Verismar Figueiredo (in memoriam)

4.Koniq 

Havia, em Verismar Figueiredo, algo que resistia à forma.

Como se o mundo lhe chegasse sempre em excesso – e ele respondesse com pensamento.

Não era apenas um homem entre tantos. Era um observador deslocado, alguém que parecia atravessar a cidade sem jamais se acomodar a ela. Brasília, com suas avenidas abertas e seus vazios planejados, nunca foi neutra: para alguns, ela se impõe. Para outros, ela exige tradução. Verismar parecia viver nesse intervalo – entre o que a cidade mostra e o que ela oculta.

Nos becos do Conic, onde o concreto ganha voz própria e a noite abriga seus intérpretes, ele era mais do que presença: era linguagem em estado bruto. Pensava. E fazia do pensamento um abrigo possível.

Lembro de um encontro breve, desses que a vida oferece sem aviso.
Num mercado do Guará, entre pequenas compras e o movimento comum dos dias, ele apareceu como quem guarda ideias mais do que coisas. Conversamos. E bastou pouco tempo para perceber: havia ali um homem de raciocínio rápido, atravessado por filosofia, ironia e lucidez. Rimos. A conversa seguiu leve, como se a complexidade do mundo pudesse, por instantes, ser suspensa.

Nossa amizade foi instantânea – dessas que não pedem continuidade para existir.

Verismar trazia consigo essa marca rara:
a de quem não se encaixa porque enxerga demais.

Nascido em Arraias, percorreu caminhos diversos, inclusive no campo da comunicação. Mas sua trajetória não cabe em linhas institucionais. Ela pertence mais ao território das experiências, dos encontros, das ideias trocadas à margem – onde a vida acontece sem mediação.

Sua partida, em junho de 2017, em Brasília, não encerra sua presença.
Há pessoas que permanecem não pelo que deixaram registrado, mas pelo que provocaram nos outros. Verismar era uma dessas.

Pensar nele é pensar também em tantos outros – amigos, vozes, figuras que atravessaram o tempo e agora habitam essa espécie de memória viva, onde ninguém desaparece por completo.

Prefiro lembrá-lo assim:
como alguém que tensionava o mundo, que não aceitava o dado imediato, que fazia da existência uma pergunta.

Porque, no fim, talvez seja isso que reste –
não a queda, não a ausência,
mas o pensamento em movimento.

E alguns seguem vivos justamente por isso:
por não terem se deixado reduzir a um único texto.

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