o dr. oswaldo não pode fugir nem fingir; mas isso eu
comecei a ver, de fato, logo mais quando teremos nossa primeira
entrevista. o anonimato me assegura uma segurança incrível;
já não preciso mais (pelo menos enquanto estiver
aqui) liquidar meu nome e formar nova reputação
como vinha fazendo sistematicamente como parte do processo autodestrutivo
em que embarquei - e do qual, certamente, jamais me safarei
por completo. mas sobre isso, prefiro dar mais tempo ao tempo:
eu sou obrigado a acreditar no meu destino (isso é outra
conversa que só Rogério entenderia). Tem um livro
chamado: o hospício é deus. Eu queria ler esse
livro. Foi escrito, penso, neste mesmo sanatório. Vou
pedir a alguém para me conseguir o livro.
17
set. / 1971
Olhei
meu corpo e me compreendi, mas não gostei de mim. tem
aquele papo muito antigo (não sei se é de Sartre):
todo mundo é responsável pela cara que ostenta,
a que tem, pela cara que tem. seu eu me odeio e se eu me amo,
se eu tenho medo de mim ou do mundo, isso é a minha vida:
a minha beleza ou a minha feiúra. E eu me quero lindo
e malandro. E não quero que minha beleza seja a minha
máscara (sem aspas). quero esse papo correto, acertado.
quero essa marca malandra de vida: vejo a minha cara e vejo
o meu coração. os outros, não, até
que aprendam a me ver. você olha nos meus olhos e não
vê nada: pois é assim mesmo que eu quero ser olhado.
é assim mesmo que eu quero que você não
entenda. pensei - meu corpo sou eu atravessando os andes comigo.
contigo. onde estou me represento mas não me aparento
com o que não sou, sendo também. caetano no filme
de mautner, ilustrando: ele não sabe que eu também
sou um demônio. o filme é uma droga, caetano é
uma superstar maravilhosa e está fantástico onde
põe a mão, e gil por outro lado meu corpo é
o meu ideal, é o que eu quero fazer de mim, é
o que está à solta vibrando, meu cheiro, minha
consciência, meu amor por quem eu amo, minha presente
presença no mundo estampada na cara, escondida, estampada
na cara que eu sinto, estilo de luta: de vida e de morte, da
vida. E eu me viro ao teu lado, te acordo, te beijo, te amo,
ana.
12
nov.
anoto
que saí hoje do hospital, todo esse tempo depois. é
tudo como é: aqui estar, de volta em volta como sempre,
mais uma vez. Não sei direito, hoje, o que pode surgir
disso tudo. sei o que isso significa e quanto pesa a mais para
a adição (paralela à contagem regressiva?)
do chamado acúmulo de experiências. acontece que
não se vive intensamente sem punição; não
se experimenta o perigo sem algo mais do que o simples risco,
nem se morre por isso de repente. não estou, portanto,
em condições de explicar nada. por isso, certamente,
todo esse tempo sem anotar nada. é preciso descobrir
porquê tudo. organizar então e deslocar a minha
experiência, as minhas experiências, numa direção
xis, para. como todo dia é dia D, e disso estou certo.
concluo com este “cinismo” lógico: daqui
pra frente, podem crer, posso crer, tudo vai ser diferente.
torquato rides again! upa, upa!
13
nov.
a
literatura, o labirinto perquiridor da linguagem escrita, o
contratempo, a literatura é a irmã siamesa do
indivíduo. a idade das massas, evidentemente, não
comporta mais a literatura como uma coisa viva e por isso em
nossos dias ela estrebucha e vai morrer. a literatura tem a
ver com a moral individual e amoral individual não interessa
- não existe mais. nossa época exige a descrição
de painéis e o close-up tende a não interessar
nem como psicologia. não precisaremos de retornar ao
teatro de máscaras porque, se queira ou não se
queira, a massa onde praticamente nos perdemos já é
a máscara, já nos abriga e revela, é a
supra máscara. planos gerais. painéis. o homem
moderno não existe como indivíduo, mas como tipo
- e esses tipos não são tantos quanto todos nós.
são relativamente poucos. somente me interesso pelo tipo
e cada tipo, classe, nas diversas sociedades massificadas, obedece
a comportamentos mais ou menos standards. Interesso-me por compreendê-los
(estudá-los) e abandoná-los. meu problema inclusive
o de cama, inclusive o de mesa, inclusive o de relacionamento,
é o problema do meu tipo x perdido na massa que o plano
geral não estilhaça, por literário, em
todos os seus (milhares, bilhares) de “exemplos”:
células que não têm mais vida se isoladas
na psicologia do indivíduo. O cenário é
agora o único personagem vivo. O cinema urbano tem que
ser do-eu-meu-tal, atualizado como as atualidades, uma primeira
página de jornal, painel, afresco.
9
dez.
tudo
continua, continua parado no centro de minhas especulações,
e não sei dizer se já consegui me desfazer de
qualquer uma delas. estou morrendo. mais uma vez eu morro soterrado
em minhas perplexidades - não sei para o quê estou
- e deixo andar. é preciso que eu adquira condições
que me permitam sobreviver. o que é sobreviver? tenho
conseguido sobreviver até aqui, mas... o que vivo, o
que consigo escrever, o que posso ir sendo são meus bens.
não disponho de outros. o que não sou me mata:
assim, assado, sempre: tudo continua como sempre, o mesmo esquema
para o fim, a mesma vida de cocô melado, a mesma merda.
só deus pode me salvar, mas eu não conheço
deus nem sei onde procura-lo. disse que estou morrendo - uma
vez mais - vivo só pra isso.
pode
ser, eu tenho que “assumir” isto que eu vejo. a
minha frente. eu não posso mais. a literatura se enterra
comigo. eu estou aqui no brasil. alô. câmbio?
estou inteiramente sozinho. ninguém pensa por mim. o
general ninguém pensa por mim. eu não valho nada.
não sei onde reencontrar minha coragem. é um longo
discurso. é uma loucura. eu pensei que podia driblar
tudo e ir fazer cinema, uns filmes, lixo.
eu tenho que assumir a minha miséria pequeno burguesa
porque eu só posso fazer um filme se ele for a favor
ou contra essa miséria. e eu não posso ser e não
ser como querem os analistas. eu tenho que destruir em mim essa
miséria louca.
no dia hoje eu acordei e vi que estava claro. eu tentei descobrir
que dia era hoje e por isso reconstituí rapidamente o
que pude. não pintou nenhuma grande transa, que eu me
lembrasse, mas havia uma carta que eu queria reler, e era domingo
mesmo. daí pra isso: o jornal. eu me levantei e olhei
pelas frestas da janela, estava chovendo, pensei nas horas e
achei que devia ser umas cinco. é uma droga, porque eu
tenho que ir pro trabalho. eu me levantei, fui na geladeira,
tirei do congelador duas garrafas de cerveja que havia deixado
lá, e me lembrava, bebi água, não havia
leite, lembrei-me que possivelmente não tivesse um tostão
comigo e que não iria poder sequer ir ao jornal, achei
tudo uma grande merda, reli a carta para almir e não
achei nada, fui ao banheiro, descobri que estava com qualquer
coisa no bolso, fiz e fumei. achei cinco contos no bolso da
calça que usei anteontem. eu me lembrava muito vagamente
que talvez houvesse um dinheiro que lena me deu, ou uns pedaços
deles. hélio rocha pagou o tempo todo e eu me lembro
que não havia conseguido gastar do algum que tinha. tinha?
ainda estão comigo. então eu me lembrei que iria
ver os filmes de ivan na casa de lygia clark. não é
domingo? onde está ana? era a última coisa para
querer pensar agora. eu sinto falta, sempre sentirei, um grande
maor não morre nunca mais, não é assim?
mudei a camisa e botei água no vaso. tudo muito chato
demais, meu deus. eles confundem tudo e se fodem, mas eu reli
a carta e vi que não havia jeito de explicar a almir.
era impossível falar “claro” e não
havia jeito de você explicar ao médico que maluco
é ele. o cara vai ficar eternamente convencido do contrário,
até que funda a cuca e mergulhe e compreenda. desci na
rua, indo para o jornal. parei na porta. chovendo uma chuva
fina muito firme, não encontrei o dinheiro no bolso.
havia uma combi estacionada do outro lado. com três homens
que ficaram olhando para mim. pensei com meus botões
e voltei atrás do dinheiro. Aqui dentro eu vi que estava
no bolso mesmo, junto com o sonrisal e o sal de fruta, no meio
dos dois. desci com minha bolsa e olhei novamente os homens.
pensei: o inimigo é o medo no poder, força. ainda
fiquei pensando nisso um pouco, mas da esquina desliguei. eu
queria pegar logo um táxi, mas precisava antes saber
que horas eram aquelas, a chuva chatíssima enchia meu
saco, eu pensava na noite de ontem e quando um táxi corcel
azul parou, quase na esquina de conde de bonfim, eu disse: tenho
de perguntar as horas. vinha um cidadão aleijado torto
sifilítico e eu perguntei: 7,25h. me deu uma vontade
de chorar mas eu não posso é ficar com pena de
mim e vim embora de volta. está ficando inteiramente
insuportável eu não posso perder a cabeça.
só se mata o inimigo. eu não devo ser o meu inimigo,
podes crer. quando você me ouvir cantar, são coisas
do passado, mas também sei chorar. não sei porque
me canso tanto na manhã de hoje: nem sol está
pintando, merda. que noite é está? que fogo eu
perco? eu quero viver sem grilos e ultimamente eu tenho visto
muito pouca gente, porque a maioria não há quem
agüente. me lembro: o poeta é a mãe das armas
& das artes em geral. Alô poetas, poesia do país
do carnaval, aqui agora. não dá pé de sair
morrendo só assim. é entregação.
tenho que dormir e levantar, todos os dias. um dia depois do
outro, numa casa abandonada e tal. não estou aqui pra
me entregar. a morte não é vingança, não
é a minha namorada nem nada, nem me ama. nem eu quero
amor com ela, livrai-me deus. basta olhar o desfile dos mortos
pela rua, não há nada mais vergonhoso do que a
morte dos estúpidos. que dia é hoje? que hora
é essa? e essa história?