Rock: Nosso Pão de Cada Dia (2026)

O forno do rock

por mário pazcheco

Se o rock é o pão nosso de cada dia, eu devo ser o forno. Afinal, vivo o rock intensamente — em seus auges, desafetos, idas, vindas, quedas e ressurgimentos. Vivo fazendo coisas infindáveis, muitas delas tão improváveis que acabam ganhando algum destaque pelo caminho.

São coisas voláteis, urgentes, às vezes feitas no desespero, mas quase sempre marcadas por uma certeza: o rock parece ser o remo da minha vida. É com ele que atravesso as correntezas, desvio dos naufrágios e continuo seguindo, mesmo quando não faço a menor ideia de para onde estou indo.

As ausências e os encontros do Folk Festival

O Folk Festival acabou marcado também por algumas ausências. O contrabaixista Betão não pôde participar depois de quebrar o dedo mínimo da mão. Mandou até a foto da mão engessada e avisou que só voltaria a tocar no final de outubro.

Já Renato Mengajam, da Mengajam Band, viveu uma situação mais pessoal e dolorosa. Às vésperas do festival, no dia 20 de setembro, perdeu Dona Helena, sua madrasta e mãe de suas irmãs. Renato precisou se afastar para acompanhar o velório e o funeral.

Com essas mudanças de última hora, o palco foi se reorganizando — como quase tudo que acontece por aqui. Na programação passaram Pedro Gaveta, de Pernambuco, na discotecagem e percussão; Felipe Zucco, voz e guitarra, acompanhado por Ricardo Lima, na bateria, e Birau, nos teclados; Betto Tutu, voz e violão, com Izabel Tutu, voz; e Hadassa Esther, voz, acompanhada por Betinho, no violão, com participações de Miro Ferraz, na guitarra, Birau, nos teclados, Ricardo Lima, na bateria, e Pedro Gaveta, na percussão.

E, para encerrar, tivemos a presença luminosa de Lucy, no violão e voz, fechando a tarde com aquela luz que não precisa de tomada para acender.

0 gaveta

Gaveta Groove

Pedro Ferreira, o Gaveta, do Super Jazz, veio sozinho — porque tinha que vir. Trouxe consigo apenas a bagagem instrumental necessária e, na discotecagem, abriu os trabalhos passeando por músicas de Tony Bizarro, até chegar a uma versão de “Bananeira”, cantada por Bebel Gilberto.

Mas Gaveta não se limitou à discotecagem. Fez malabares sonoros e batuques sobre a base percussiva eletrônica, criando ritmos na hora e, principalmente, acompanhando quem passou pelo palco. Foi presença, escuta e intervenção — entrando na música dos outros sem deixar de imprimir sua própria assinatura.

Gaveta Groove é justamente isso: um projeto que une percussão ao vivo e curadoria musical, atravessando referências do afrojazz, da black music e do balanço brasileiro. Uma experiência sonora feita de identidade, ritmo e conexão direta com o público — daquelas em que o DJ não fica escondido atrás da máquina: ele entra na roda e toca junto.

0 Birau

Zucco tocou demais, colocou a guitarra em cima da cabeça e me dedicou Suspicous Mind, eu pirei!

O tripé da viagem musical

Felipe Zucco, na guitarra, Ricardo Lima, na bateria, e Birau, nos teclados, formaram o tripé dessa viagem musical. Um trio com fome de palco, daqueles que entram para tocar e parecem estar sempre prontos para mais um set.

A formação — guitarra, teclados e bateria — me lembrava, em alguns momentos, a Rory Gallagher Band ou aquelas formações clássicas que orbitavam os grandes guitarristas do rock. A guitarra de Zucco conduzia a viagem, enquanto Ricardo segurava o pulso na bateria e Birau, nos teclados, dava novas cores ao conjunto.

A mim, Felipe Zucco dedicou “Suspicious Minds”, um daqueles momentos em que a música deixa de ser apenas repertório e vira uma espécie de recado pessoal.

A banda funcionou também como uma verdadeira banda de bar: fazia a abertura, dava uma pausa e depois voltava para mais um set. E, quando era preciso, estava ali para acompanhar os cantores que passavam pelo palco. Foi, talvez, o mais solidário dos apoios daquela tarde — uma banda que não precisava ser o centro da cena para fazer a cena acontecer.

E quando assumia o palco, vinha o rock feroz, acompanhado de clássicos dos anos 1960 e 1970, tocados com experiência, segurança e competência.

E Birau, nos teclados, foi uma alegre surpresa. Tocou muito! Deu conta do recado e ainda acrescentou uma dimensão própria à sonoridade do trio.

0 Folk

Foto: Marizan Fontinele

O reencontro de Betto Tutu & Izabel Tutu teve um sabor especial. Eles estavam afastados do palco de casa havia anos. Sempre surgia um problema familiar, um desencontro, alguma coisa que acabava adiando a volta. Mas, em outros lugares, nossas vidas continuavam se esbarrando — e, junto com esses encontros, permanecia aquele compromisso silencioso de um dia voltar a tocar juntos.

No Folk Festival, finalmente aconteceu. E aconteceu de um jeito bonito: doce, sereno, esplêndido. Betto e Izabel estavam seguros, à vontade, numa apresentação de uma magnitude quase impossível de explicar — como a própria paz.

Kozak resumiu o sentimento de quem estava ali com uma frase que ficou:

“Às vezes a gente sai de casa pra buscar um pouco de felicidade. Amados Bebel e Tutu!”

0 Hadassa fever

Hadassa Esther & Betinho: a figurinha que faltava

Hadassa Esther & Betinho eram a figurinha que faltava naquele álbum musical. Fui atrás deles e, em algum momento, acabamos à beira da estrada, sonhando. Sonhando com um show de boleros e reggae, sem pretensão, sem rumo definido, como quem joga uma ideia no ar e deixa a música decidir o caminho.

Betinho na sua bicicleta, Hadassa na sua caminhada rumo à Casa da Cultura — e nós sonhando com esse show que parecia existir antes mesmo de acontecer.

E aconteceu.

Foi mágico, sentimental e, de algum modo, cubano. Em torno do fogo, reuniu-se uma superbanda: Hadassa na voz, Betinho no violão, Miro Ferraz na guitarra, Birau nos teclados, Pedro Gaveta na percussão e Ricardo Lima na bateria.

Foi uma noite caliente.

Uma das atrações musicais do Guará é justamente o duelo, quase clandestino, entre Miro Ferraz e Betinho — guitarra e violão se provocando na surdina, como se os dois estivessem disputando quem consegue arrancar mais música do outro. Dessa vez, quem ganhou foi o público, diante de uma das jams mais cativantes e energéticas que já passaram pela casa.

0 Lucy Diamonds

Lucy, a luz que encerrou a noite

Lucy — Luciana Ribeiro — é fotógrafa, ilustradora, escritora. Corre, escreve e sonha douradamente. Nos últimos tempos, vinha fazendo apresentações solo ou acompanhada por um percussionista. Fazia tempo que eu não a via com uma banda elétrica.

No sábado, Lucy fez aquilo que poucos artistas sabem fazer: leu o momento. Adaptou o show à circunstância, não se alongou além do necessário e encontrou exatamente a medida daquela tarde. Foi o suficiente — e, justamente por isso, ficou com gosto de quero mais.

Fiquei querendo saber qual tinha sido o repertório. “Demônio Colorido”? E, depois de tanta luz e cerveja, uma coisa ficou na memória: Lucy encerrando a apresentação com aquela declaração definitiva de amor ao rock:

“Posso perder minha mulher, minha mãe, desde que eu tenha o rock and roll.”

Perguntei a ela sobre a experiência. E Lucy respondeu:

“Eu curti muito, sempre me amarro. É sempre uma surpresa, uma vibe boa. Me amarrei em tocar com banda, faz muito tempo que eu não tocava com banda, velho. Outra vibe. Me deu vontade de tocar vários rock and roll. Eu queria só tocar Pink Floyd, Led Zeppelin, The Doors, Jimi Hendrix, sei lá... me deu uma loucura assim, nostálgica. Achei muito bonito. Me senti bem pra caralho. Foi, foi massa.”

E foi mesmo.

Lucy saiu do palco deixando aquela sensação rara de quem não apenas fez um show, mas acendeu uma lembrança. Talvez seja isso que ela faça melhor: transformar fotografia, desenho, palavra e música numa mesma coisa — uma luz meio dourada, meio delirante, que continua acesa depois que o palco se apaga.

0 incendiario

O Incendiário...

O mistério Julimar, o artista da casa

A casa vai emparedando a arte de Julimar. Nos tempos do pós-outrora, ficaremos imaginando onde foram parar aqueles grafites sepulcrais que um dia tomaram conta das paredes. O tempo passa, a tinta cobre, o concreto reaparece — e a pergunta permanece: o que restou de Julimar?

Enquanto isso, em Gotham City, a arte vindoura da persona Julimar não cessa, não para, não estanca. Ela se infiltra. Brota. Reaparece onde menos se espera.

A casa ri dele como quem vai ao museu contemplar a Gioconda de Salvador Dalí e ainda solta aquele sorrisinho de canto de boca:

“Pô! A Gioconda é de Da Vinci!”

Mas é justamente aí que mora o mistério.

As paredes de concreto são as telas mais duras — e talvez as mais eternas — diante de uma obra em constante recomposição. Julimar não pinta simplesmente paredes: ele atravessa o concreto. A cada camada, surgem novos painéis, novas criaturas, novas paisagens, novas cicatrizes.

E afloram os novos painéis de Julimar para além daquilo que o olho consegue alcançar. É preciso atravessar para o outro lado da paisagem estampada na parede de concreto, abrir a alma, transformar o sofrimento em vinho amargo e deixar escorrer sobre a tela uma paleta de cores sinistras, violentas e poderosas.

Talvez seja esse o verdadeiro mistério Julimar: a parede pode ser coberta, mas a arte continua aparecendo.

0 Alexandre Renato

Alexandre de boné...

Quem é Alexandre Renato? Ah, se existissem mais Alexandres Renatos, talvez a cena underground não estivesse tão vazia.

O homem corre de lá para cá: faz foto, faz vídeo, chama gente, faz convite, conversa animadamente, gesticula, aponta, inventa. É uma profissão interminável de caras e bocas, movimentos e pequenas urgências. Uma usina de energia boa ocupando o vazio e fazendo as coisas acontecerem.

Alexandre é desses parceiros de longa data que nunca abandonam o barco. Está sempre por perto, sempre disposto, sempre entrando na roda quando é preciso.

No underground, onde tanta gente aparece para tirar foto e desaparece quando chega a hora de carregar o piano, Alexandre fica.

Gratidão, meu velho!

 

0 exercito

Foto: Marizan Fontinele

Eu os chamei de Exército de Salvação do Underground, mas talvez o nome possa ser outro: Exército da Solução. Ou, quem sabe, simplesmente o time que defende as belas-artes com unhas e dentes, movido por insistência, talento e, acima de tudo, dedicação.

Porque é essa dedicação que nos liberta da opressão, dos rótulos, da acomodação e de tudo aquilo que tenta transformar a arte em produto.

Repercussão

Parabéns. Alexandre Renato

Ki lindo amigooo, adoreiii
. Lucy

Muito pessoal e sincero. Mandou bem
. Ricardo Lima

A cena do DPBLS está  forteDean Pazcheco

Obrigado pelas palavras. Pedro Ferreira, o Gaveta, do Super Jazz

Esse dia foi épico. Ninguém traduz e narra a minha obra do que Mário Pazcheco. Julimar dos Santos, grafiteiro

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