A noite mais angustiante de David Bowie após a morte de John Lennon (1980)

Barbieri Recomenda

Morte e desespero em 9 de dezembro de 1980: a noite mais angustiante da carreira de David Bowie

Escrito por Tom Taylor para o website Far Out
Tradução e adaptação: A. C. Barbieri

Barbieri comenta: Esta matéria me deixou com um nó na garganta. 🙁


Em 9 de dezembro de 1980, David Bowie subiu ao palco do Booth Theatre, em Nova York, para apresentar The Elephant Man (O Homem Elefante). Havia três assentos vazios na primeira fila.

“Não consigo descrever o quão difícil foi entrar em cena”, declarou Bowie mais tarde, ainda abalado pela lembrança. “Quase não consegui terminar a apresentação.”

Na noite anterior àquele espetáculo, John Lennon e Yoko Ono voltavam para seu apartamento no Dakota Building após deixarem o estúdio Record Plant por volta das 22h30. Uma limusine os deixou na entrada. Yoko seguiu rapidamente para o lobby, enquanto Lennon recolhia fitas com as gravações do dia e alguns equipamentos.

Ao caminhar em direção à entrada, Mark David Chapman o chamou: “Mr. Lennon”, com toda a formalidade despreocupada de um médico à porta de uma sala de espera — e então disparou quatro tiros nas costas do ícone, errando um quinto quando Lennon começava a cair. Mais tarde, naquela mesma noite, Lennon foi declarado morto.


Uma noite sinistra no Booth Theatre

Os assentos vazios na primeira fila de The Elephant Man, na noite seguinte, pertenciam a Lennon, Yoko Ono e ao próprio Chapman.

“Eu era o segundo na lista dele”, disse Bowie posteriormente. “Chapman tinha um ingresso na primeira fila para The Elephant Man na noite seguinte. John e Yoko também estariam sentados na primeira fila. Então, após o assassinato, havia três lugares vazios.”

Esses três assentos formavam uma imagem brutal e perturbadora da tragédia que abalou o mundo menos de 24 horas antes. Bowie subiu ao palco tentando entreter uma Nova York em estado de choque — mas, para o abalado “Starman”, a experiência foi ainda mais visceral.

“Eu era o segundo da lista, disseram os detetives”, contou Bowie ao jornalista Redbeard.

Mas por quê?


A mente de Chapman

A obsessão de Mark David Chapman por astros do rock estava ligada à sua incapacidade de enxergá-los como seres humanos falíveis.

Durante um surto, o jovem de 25 anos, natural de Honolulu (Havaí), que havia perdido recentemente o emprego como segurança, tornou-se obcecado pelo livro O Apanhador no Campo de Centeio (The Catcher in the Rye), de J. D. Salinger. Ele passou a moldar sua visão de mundo segundo a moral do protagonista Holden Caulfield.

No livro, Caulfield afirma que “as pessoas sempre aplaudem as coisas erradas” e vê os adultos como “farsantes” e “hipócritas”. Era assim que Chapman enxergava figuras como Lennon e Bowie: símbolos falsos de uma sociedade corrompida.

No tribunal, ao ser acusado de matar Lennon como forma de alcançar fama, Chapman não negou. Apenas leu um trecho do livro:

“Fico imaginando todas essas crianças pequenas brincando num grande campo de centeio...
Eu estaria à beira de um precipício...
O que tenho que fazer é pegar todo mundo se começarem a cair...
Eu seria o apanhador no campo de centeio.”


O peso da cena

A perversidade daquele gesto funcionava como um presságio sombrio.

Na noite seguinte, ao subir ao palco, Bowie teve que encarar esse espectro de frente, dando vida ao personagem atormentado Joseph Merrick enquanto lidava com a possibilidade real de também ter sido um alvo.

À medida que sua fama crescia, tornavam-se mais visíveis — e assustadoras — as consequências desse mesmo sucesso.


Nota do Barbieri

Tenho aqui em casa o livro O Apanhador no Campo de Centeio. Era do meu pai, que o ganhou de presente. Já o li duas vezes.

Na primeira leitura, há cerca de 40 anos, fiquei chocado — não apenas com a linguagem direta, avançada para a época, mas também por me identificar profundamente com o protagonista.

Na minha infância e adolescência, vivi literalmente dentro de um pesadelo: sofri bullying familiar, enfrentei baixo rendimento escolar e uma incapacidade quase total de lidar com a falta de autoestima.

Esse livro, embora não ofereça soluções, me mostrou algo essencial: eu não estava sozinho. Havia outras crianças atravessando dores semelhantes.

Desde então, me apropriei dele — e meu pai nunca mais o viu.

Desconfio que minha busca intelectual não seja exatamente uma escolha, mas uma consequência: uma reação tardia — e contínua — àquele período duro da minha vida que, de alguma forma, ainda insiste em pedir sentido.


📷 Foto: David Bowie no teatro, interpretando o papel principal em O Homem Elefante.