Entre Xaxado e Concreto: Pezão Existe (2026)

0 poeta pezao

Com curadoria de Marco Gomes (Marcão): Cartografia do Submundo Coniquiano

LIBERDADE*

FRANCISCO
MOROJÓ (PEZÃO)

Finalmente meu pássaro
pôde chegar nas alturas sonhadas
Provocou sensações
em todo o meu ser
Virou minha cama
deixou-me em ar de alegria
Meu pássaro criou a verdadeira
imagem da liberdade
desviando as fantasias
do passado
produzindo acordes sonoros
com todos os cantos
nas manhãs de lume
enquanto o despertar
de toda a existência se fazia vida
Esse pássaro que me concede
a calma
se faz constante
traz a batida de todos os passos
e a firmeza do ser
A lágrima que por ventura
alcança todo corpo
despe meu pássaro cansado
de tantos vôos
e canta de ternura
o que já não sou

MAIS UNS - Coletivo de Poetas

 

XAXANDO EM BRAZLÂNDIA*

Te conheci lá no xaxado
xaxando
tava xaxando prá dançar
com o cabôco de lado
xaxando
tava botando prá lascar
o meu olhar te espiou
e o teu nem prá me ligar
E foi aí que meu amor virou xerém
e na peneira
do teu amor não quis passar
Eu conheci essa morena em Brazlândia
foi num forró foi lá pras bandas dacolá
uma morena gemedeira bagaceira
e o forró levantou logo a poeira
e hoje em dia que me lembro da morena
quando penso no forró
fiquei de mão calejada
de tanto bater poeira.

VIVO NA MARGEM**
(Para alguns babacas que me chamam de poeta marginal)

eu só espero
é o dia em que
esse país
seja realmente democrático
e a juventude passe a ler
ao invés de se alienar
com as drogas marinhas da tv
e o trabalhador tenha na mesa
ao invés de conta de água,
de luz, de esgoto e de lixo:
(COMIDA)
sem ser obrigado
a viver na sarjeta.
aí, vou convidar
sua netinha e sobrinha
sua mulherzinha e mãezinha
pra fazer um tremendo bacanal
nas margens do paranoá.

PRESO COMO UM COMUNISTA***
(Depois de um comício anarquista)

Quando passa o efeito da cachaça e do vinho
os jornais se congelam
o frio de acolhe
a privada fede pra caralho
as paredes não falam, mas o vento traz
gemidos, gritos e choros,
o companheiro do lado
tosse de fome e solidão.
pensar que nesse momento
os operários se queimam
nos fornos de aço das fábricas de Ipatinga.
Rememorar teus abraços
e o suor dos nossos corpos
depois de uma trepada na colina...
mais frio do que o cimento e as grades
são os guardas, que descaradamente
nos desejam boa noite.

*/**/*** 06 de dezembro de 2013 - Rock do Pé
Do Próprio Bol$o - facebook.com/tantodotanto


Memorial Poeta Pezão

FRANCISCO ROBERTO DE LIMA MOROJÓ - o popular “POETA PEZÃO, Seu Criado” - nasceu dia 24 de outubro de 1959 em Patos das Espinharas/PB e morreu dia 7 de dezembro de 2003 indo para os Olhos D’Água de Alexânia no entorno de Brasília. Foi o primeiro poeta de Ceilândia e um dos pioneiros da “geração mimeógrafo” da literatura candanga dos anos 70. Anarquista convicto, se gabava em dizer que nunca teve e nem teria “patrão”, chegando a trabalhar de costureiro com a sua mãe para “viver só da poesia”. Como alfaiate, produzia suas próprias indumentárias, assim como dos personagens teatrais que montava e ensinava. Foi também fundador e compositor do “talialandense” Forró Parabólica - grupo responsável pelo célebre “sarau fúnebre”. Polêmico e irreverente, o poeta partiu desse mundo deixando amigos e inimigos, mas acima de tudo, a poesia.

Adeus ao Maiakoviski Candango

Poeta Caboclo

O Poeta Caboclo foi-se
Para além da liberdade
Levou a marcha e a toice
Murmurou o verso da verdade

Aprendeu, ele esqueceu
Foi levar consigo a poesia
Deixou um livro que escreveu
E uma voz e melodia

Pezão poeta que era
Também grande compositor
Amigo de sentimento
A alegria e a dor

Vozirante, irmanamente
Os versos do cantador

Quando correu a notícia
Que o Pezão faleceu
Fiquei triste no momento
Lágrimas dos olhos escorreu
Porque o poeta também
Era grande amigo meu

Geraldo Brazílio

O POETA E O ALFAIATE
NECROLÓGIO NO CEMITÉRIO
DE SÃO FRANCISCO MOROJÓ

José Carlos Vieira

Conheci Francisco Morojó, o Pezão no final dos anos de 1970; frequentávamos o agitado bar do Kareka. Os dois, sem dinheiro no bolso, unidos por uma mesa de bar. A corrida pela vida nos levou a rumos diferentes. Já no início da década de 80, encontramo-nos em Olhos D’Água, onde os malucos beleza de Brasília se reuniam para trocar roupas e sapatos usados por artesanatos locais. Pezão fazia parte do Paraibola, o “Seu Pistilos do forró candango”. Lançava seus primeiros livros de poesia mimeografados. Um repentista urbano, destemido como todo cangaceiro. Nos encontramos pela última vez em 2000 no lançamento do meu livro. “Você é o príncipe da poesia” - repetia para todos os poetas - no que emendava: “Eu sou o rei”.

Num final de semana de dezembro de 2003, Pezão pegou carona com amigos para ir à Feira de Trocas dos Olhos D’Água. No meio do caminho, duas garotas também pediam carona. Gentilmente, saiu do carro e deu lugar para as “princesas”. Retornou à estrada com o dedo em pé. Os amigos e as meninas chegaram à cidade, mas o poeta não chegou. O carro em que viajava capotou: ele morreu. No enterro, várias tribos reunidas, o forró começou solto e as garrafas vazias de vinho e cachaça espalhadas no chão. As pessoas das outras capelas não entendiam, todas embasbacadas, assistir o ritual daqueles anjos da noite. De repente, na hora do enterro, um pula dentro da cova; em desespero, pede para ser levado no lugar do amigo. Foi uma das mais belas e verdadeiras homenagens a um poeta.

Parafraseando Itamar Assunção quando na morte de Paulo Leminski - o músico enviou um fax ao poeta já morto - uso essa crônica para homenageá-lo: “Pezão, aqui é o Zé Carlos, não fui ao enterro seu porque você não iria ao meu”.

Bastou o vídeo Conicções reestrear, 25 anos depois, para que eu recebesse uma torrente de telefonemas e mensagens exaltando o poeta Pezão. Lá em Olhos D’Água, ele segue vivo — ainda reverenciado.