Do Próprio Bolso — Memória em Vermelho e Papel Amarelo (1993)

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Do Próprio Bolso — Memória em Vermelho e Papel Amarelo (1993)

Foi no século passado — e não é força de expressão, é constatação mesmo. Outubro de 1993. A data carimbada no canto da foto não deixa mentir: 27/10/93. A gente ainda acreditava que o tempo demorava a passar e que certos encontros iam durar para sempre.

A cena é simples, mas cheia de camadas. No cafe, Belas Artes da Livraria Presença, em Brasília, o lançamento do livro “Chulé” reunia mais do que leitores — reunia personagens. Ali estavam Ivan, Joanfi e Kácio, cada um carregando não só o livro nas mãos, mas um pedaço daquela Brasília cultural que fervia sem pedir licença.

Joanfi, no centro da memória, aparece de camiseta vermelha e um boné que parecia mais um manifesto do que um acessório. Um revolucionário de livraria, desses que discutem ideias como quem afina instrumento antes do show. Hoje, olhando de longe, dá até um certo riso — e uma pontada de saudade. Porque o tempo não muda só o mundo, muda também os jeitos de estar nele.

Ivan, ao lado, com aquele ar de quem já entendeu alguma coisa que os outros ainda estão tentando decifrar. Kácio, segurando o livro como quem segura prova material de que algo importante estava acontecendo. E, no meio deles, o registro — esse instante congelado que hoje vira documento, quase arqueologia afetiva.

E Joanfi… ah, Joanfi. Mudou muito depois que passou a andar com Cicinho! (risos inevitáveis). Mas quem não mudou? A diferença é que alguns mudam por dentro e outros deixam isso escapar no figurino, nas companhias, nas histórias que passam a contar.

O mais curioso é perceber que naquela noite ninguém estava pensando em memória. Ninguém ali imaginava que, décadas depois, essa mesma foto ia virar crônica, que o “lançamento de livro” ia ganhar peso de marco, que a camiseta vermelha ia virar símbolo de uma fase.

A gente só estava vivendo.

E talvez seja isso que dá valor agora: o fato de que não era pose, não era nostalgia programada. Era vida acontecendo, sem saber que um dia seria chamada de “bons tempos”.

Hoje, resta o registro — e esse tipo raro de saudade que não dói, mas também não passa. Aquela que faz a gente rir sozinho ao lembrar:

“Até o Joanfi usava camiseta vermelha…”

E usava mesmo. Porque naquele tempo, a gente vestia as ideias — e ainda achava que o mundo cabia dentro de uma livraria.