Desabafo!

Desabafo

Anísio Vieira (RJ)

Tenho refletido bastante sobre algumas amizades que vieram da juventude. Com o passar dos anos, fui percebendo que nem todas seguiram o mesmo caminho. Em muitos casos, aquela sensibilidade artística e a curiosidade intelectual que alimentam uma amizade duradoura simplesmente deixaram de existir. Sem esse terreno comum, a conversa vai se tornando cada vez mais limitada.

Durante muito tempo procurei manter viva a troca de experiências, compartilhar livros, músicas, filmes, descobertas e inquietações. Mas há momentos em que é preciso reconhecer que algumas conexões pertencem ao passado. E não há ressentimento nisso. Apenas a compreensão de que cada pessoa escolhe os caminhos que deseja percorrer.

Talvez por isso eu prefira dedicar meu tempo às amizades que continuam cultivando o diálogo, a escuta generosa e o prazer da descoberta. Felizmente, essas pessoas existem, e não são poucas. São elas que tornam qualquer conversa uma oportunidade de aprendizado, e não apenas um passatempo.

Também tenho a impressão de que vivemos em uma cultura cada vez mais orientada pelo consumo imediato, pela superficialidade e pela necessidade permanente de parecer informado. Nesse ambiente, a curiosidade intelectual parece perder espaço para opiniões prontas, frases de efeito e assuntos descartáveis. As conversas passam a girar em torno do efêmero, enquanto o interesse genuíno por ideias, arte e conhecimento vai se tornando cada vez mais raro.

O que mais me chama a atenção é que essa pobreza de diálogo não respeita fronteiras ideológicas. Ela está presente em todos os grupos, independentemente da posição política. Inteligência, curiosidade e sensibilidade não pertencem a nenhuma corrente de pensamento — assim como a ignorância também não.

Talvez amadurecer seja, entre outras coisas, aprender a aceitar que nem toda amizade atravessa o tempo. Algumas permanecem apenas como boas lembranças. Outras continuam vivas justamente porque ainda são capazes de provocar boas conversas, desafiar certezas e ampliar o nosso olhar sobre o mundo. Hoje, valorizo cada vez mais essas últimas.