44 Anos do Próprio Bol$o (1982-2026)
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A abertura da vernissage, para mim, era o palco
Foi ali que tudo aconteceu. Até meu parceiro artístico de empreitada, Julimar, gostou do que viu. Depois ainda acrescentaram uma luz verde, que deixou o ambiente quase cegante, vibrante, elétrico.
A atmosfera ganhou outra dimensão.
Uma das coisas que mais me chamava a atenção era a imagem do cangaceiro, repetida em vários vídeos e fotografias espalhadas pelo espaço. Aquela figura surgia como um símbolo – uma espécie de espírito rondando o ambiente.
Era um sentimento de nordestinidade e rebeldia que contaminava tudo.
Entre guitarras, ruído e arte pendurada nas paredes, parecia que o cangaço tinha entrado no circuito do rock. Um cruzamento de linguagens: exposição, show, performance e atitude.
No fim, a vernissage virou isso mesmo:
um território onde arte e barulho se encontravam. 🎸🟢
Pensei muito – mas pensei mesmo – se o coco era verde e redondo, se vinha daquela palmeira distante. Pensei também em anos-luz de rock’n’roll e me perguntei: para que serve a festa? E mais: se a festa não está boa, por que você não abandona o barco?
E tome taça de vinho, e tome barbitúricos. O gelo chega, mas a cerveja está quente porque o freezer deu pau.
No palco, os amplificadores sangram.
(Você não sabe que eu sei como você me olha?)
Agora, neste instante, tudo é maravilhoso – ou engorda.
O mundo anda chato, para não dizer que anda uma merda. As pessoas estão cheias de si e comparecem ao rock’n’roll para extravasar seus demônios. A vibração afeta até a arcada dentária.
Muito álcool. Um cheiro insuportável de cigarro, hemp e tinta spray.
Como bebem. Como bebemos. Para esquecer – e para passar mal no dia seguinte.
Eu não agrado a todos. É impossível. Dei sangue e energia. Por dois dias e duas noites carreguei caixas de som e bandejas de salgados. O povo come e mata a fome emocional.
É um preço alto ser produtor de rock.
E eu pergunto: para que serve mesmo o rock?
A festa vai continuar.
Meu aniversário vem aí.
Foi demais. Eu gostei.
E vocês? 🎸

Muita gente ainda não entendeu, e talvez por isso eu continue lutando contra a desinformação.
Do Próprio Bol$o não é reunião de nostalgia.
Não é palco para reviver banda parada.
Não é espaço para show solo improvisado de amigo.
Isso a gente faz em churrasco.
Do Próprio Bol$o é um festival de bandas vivas.
Bandas na ativa.
Bandas ensaiadas.
Bandas que estão gravando, compondo, produzindo clipe, fazendo música agora.
A ideia sempre foi essa: abrir espaço para quem está produzindo no presente, não apenas lembrando o passado.
O rock precisa de movimento.
Precisa de gente que ainda está fazendo barulho.
Como na foto.
Aqui não tem nostalgia domesticada.
Aqui tem rock ardendo. 🔥

A imagem de Dino Black na Butique do Próprio Bolso
Dino Black é honoris causa em simpatia e humildade
Já produzi artistas que nem sabiam que estavam sendo produzidos por mim.
Quando reencontrei Dino Black, pensei na hora: é uma boa pedida. Fiz o convite. O show foi sendo montado – não por satélite, mas pelo WhatsApp. Nosso produtor espiritual era Gilmar, do A.R.D.. Então Tiago Rabelo apareceu e apertou os parafusos da caixa de Pandora.
Na chegada, enquanto caminhávamos, ainda ensaiávamos os passos finais. Tudo meio improvisado, como deve ser.
Quando Dino subiu ao palco, parecia estar em casa. Logo Gledson Arruda comentou que já o tinha visto aqui em casa há muito tempo. Dino passou, ligou o PC, disparou o set e ajustou o microfone.
O que se viu foi um cantor interpretando maravilhosamente canções de Fagner e de Peninha, passando por cima delas sua própria camada de vozes — aquela textura que caracteriza o rap.
E, no final, não foi que ele ainda cantou um rock’n’roll?
Humilde. Muito humilde.
Livre como um pássaro.
Deixou no ar aquele dilema: perceber um artista mais humano do que qualquer máquina poderia imaginar. 🎤

Voltemos 41 anos no tempo
Em 1985, Stuhlzapfchen Von “N” & BSB-H passaram o ano inteiro em São Paulo gravando ATAQUE ÀS HORDAS DO PODER. O saudoso Betinho, que trabalhava como chefe da guardinha (meninos menores) e dos contínuos do Banco Safra, repetia todos os cinco dias da semana:
– “O disco tá saindo, moleque!”
Em 1986, a convite do renomado crítico do fanzine Jornal do Rock, a banda Stuhlzapfchen Von “N” (Supositório Nuclear) – Betinho na bateria, Gilmar na guitarra e vocal e Ayrton no contrabaixo — apresentou-se na Praça da QE 32.
Naqueles tempos, o palco tinha som sem retorno para os músicos e alto-falantes espalhados no centro da praça. Perto do palco quase não se ouvia nada além da guitarra e dos instrumentos embolados. Mas nos falantes a letra saía cristalina:
“Instrumento de tortura medieval /
é usado na polícia tradicional /
é usado por homens de farda azul /
não importam com nada, fazem chacina.”
Do outro lado da praça, na transversal, eu assistia – torcendo, mas sabendo que aquilo ainda ia dar merda.
Mal o vocalista Gilmar desceu do palco, a dupla de policiais Cosme e Damião veio averiguar seus documentos. Foram formais e rápidos. Eu cheguei de mansinho e tasquei:
– Dando autógrafos?
Ríamos pra caramba dessas situações.
Nesse dia Gilmar tocou com uma Gibson emprestada por Ricardo, e a calça estava cheia de fita adesiva.
Quase 40 anos depois, daquela apresentação no Guará II em 1986, Gilmar voltou à frente da banda, agora tocando contrabaixo com o trio A.R.D., nome que ele já usava antes da própria Stuhlzapfchen. O show foi testemunho vivo de quatro décadas de luta, estrada e excursões pelo Brasil e pela Europa.
Visceralmente barulhento, como deve ser o hardcore: bateria rápida, baixo estalando e guitarra distorcida, sem grande nuance técnica nas cordas, mas com êxtase na pancada.
Gilmar mandou um show explosivo para o fiel séquito de fãs que vieram do Gama. E, no auge da apresentação, todos estavam com os punhos cerrados erguidos, entoando o coro de "Morrer punk".

Sala de Gritos: Punk Cru e Honesto
Se podemos afirmar algo é que o festival foi feito por gente experiente, como é o caso dos quatro integrantes do Sala de Gritos, praticando um punk cru e direto. Eles já eram uma promessa para tocar aqui desde o ano passado. A banda foi formada em 2024 e fiquei sabendo dela por meio de seu baterista, TheWhobens. Na guitarra está outro conhecido, Gabriel Speller; no contrabaixo, Ricardo Godoy; e nos vocais, Marcelo Blanka.
Como não são garotos, esperava-se um punk rock de calça comprida – e, graças a Deus, de esquerda. Não deu outra: os caras foram falar justamente dos anos de chumbo. Uma coerência contundente nestes tempos amargos, em que a direita tenta se apropriar de estilos que historicamente sempre foram contestadores.
Do show, destaco “Anarquia Não é Desordem”, que enfrenta o fundamentalismo que tenta incutir na cabeça das pessoas a falsa ideia de que anarquia é sinônimo de caos, quando na verdade, como dizem os próprios anarquistas, “anarquia é a mais alta expressão da ordem”.
No Sul existiu, durante os anos de chumbo, uma Sala de Gritos em um sanatório. Era uma sala acolchoada que permitia aos internos gritar contra a ditadura. Quem me contou isso foi Valério, que visitou o internato – embora não estivesse internado. O Sala de Gritos, na sua versão hardcore, parece resgatar justamente essa memória: os gritos ensandecidos das vítimas da ditadura.
Por isso foram ovacionados ao interpretar “Anistia é o Caralho” e também a nova e bastante comunicativa “Chora Bozo”.
O guitarrista toca com firmeza, sem vacilar, com uma palhetada segura que domina bem o estilo do punk rock. O contrabaixista também é muito sólido. O vocalista vem de uma linhagem que lembra bandas como Disorder, Escória e Lobotomia. Já o diferencial aparece na bateria, que imprime um swing hardcore pouco comum e muito eficiente.

A gente não brinca em serviço, Valério captura imagens para o futuro clipe d'Os Candangos
Os Candangos: Entre o Palco e o Videoclipe
Os Candangos continuam sendo, até hoje, um certo mistério. A ideologia desse quinteto de rock parece caminhar lado a lado com as aventuras do rock — quase como se fossem a sombra da vida, ou o outro lado da existência de seu fundador e vocalista, Magu Cartabranca.
Magu faz seus malabares, caminhadas e exercícios vocais para se manter em forma à frente do microfone. E Os Candangos são uma daquelas bandas viciadas em palco: sempre procuram estar por aí tocando. Seriam esses senhores jovens demais para parar?
A linha deles é o trabalho. Aproveitaram o cenário para elaborar mais um clipe na longa lista de videoclipes da banda. Enquanto muitos artistas hoje lançam apenas singles, Os Candangos lançam videoclipes. Por isso investem nos trajes, no storyboard e na técnica do cineasta Valério Azevedo.
Aqui vimos uma espécie de terceira encarnação da banda: a primeira era mais ensaiada; a segunda, mais confusa; e a atual parece tentar engrenar musicalmente com mais maturidade.
Que venham novas músicas para apreciarmos a evolução guitarrística de Rodrigo Brou. A volta do contrabaixista Vítor trouxe uma pegada mais punch, acompanhando em tempo real as batidas da banda – o baixo não fica firulando nem duelando com as guitarras, sustenta o conjunto.
Na bateria, o toque peculiar de Márcio soa insubstituível no som d’Os Candangos, que agora também carregam um novo guitarrista rítmico.
Foram executadas músicas novas e conhecidas: “Valerá”, “Eclipse”, “Pra Nunca Mais”, “Rumo ao Horizonte”, “Filosofia” e “Pare”. Essas músicas já são parte das nossas vidas.
Agora resta esperar pelo clipe de “Pra Nunca Mais”, que promete trazer inovações em sua feitura, misturando animação digital, fotografia e, claro, imagens da banda em ação – afinal, o palco é o seu verdadeiro legado.

O texto sobre a Banda Mais Lama vai sair - não representa nada musicalmente qualquer crítica que eu escreva - o significante é o combustível a devoção e a viagem psicodélica da história da banda e o melhor resumo é a fala do Rodrigo: Faz 20 anos que tocamos "Um lugar do Caralho", aqui!
Banda Mais Lama: Guitarras Altas para Júpiter Maçã
Rapaz, a Banda Mais Lama me assustou e me surpreendeu. Não é que eles estão mais maduros e realmente preocupados com o desenvolvimento do próprio show?
Com um nome cínico como Banda Mais Lama, é claro que não foi apenas o nome que lhes garantiu um bom número de fãs. Há ali trabalho e dedicação.
A banda acabou sendo prejudicada pelo fato de ser a última a se apresentar. Ah, se conseguíssemos começar mais cedo, seria melhor para todos. Porém, acho que a Banda Mais Lama até gostou de fechar a noite, pois o show se estendeu por uma hora e meia.
A parte principal foi a primeira parte do espetáculo, dedicada ao cantor-ícone Júpiter Maçã. Graças a Deus, foi um tributo elétrico, cheio de ruídos de guitarra e nuances quase eletrônicas do órgão. Havia adrenalina, mas também fidelidade ao espírito do artista.
Gostei especialmente da música “Beatle George”, que reviveu em mim as tardes de sábado em que eu acompanhava a banda quando ainda engatinhava. Durante o tributo a Júpiter Maçã, as pessoas dançaram, e por isso acho que o show merecia ter tido um público ainda maior.
Depois do tributo, eles enveredaram por covers de hits de bandas indies dos anos 90 e terminaram o show de forma tonitruante com “You Really Got Me”, clássico do The Kinks. Em certo momento, o contrabaixista me mostrava os calos nas pontas dos dedos, prova física da intensidade da apresentação.
Houve microfonia, a guitarra esteve alta praticamente o tempo todo, mas tudo isso fazia parte da energia do show. No fim das contas, eles mostraram que Júpiter Maçã é um nome próprio do rock brasileiro, muito além de comparações fáceis com Mick Jagger ou David Bowie.
Ainda neste mês de março, a Banda Mais Lama deve apresentar esse mesmo show novamente pela cidade.
Bastidores

Na camiseta aparece um gato, e gatos são famosos por não obedecer comandos como cachorros. Então a frase vira uma piada visual: “Vai buscar isso… se conseguir.”
👉 “Não mando em mim.”
Bárbaros do Ócio
A fotografia é um retrato espontâneo de uma pequena confraria – dessas que sobrevivem mais pela amizade e pela memória do que por qualquer formalidade social. Nada de pose ensaiada demais. É mais um instante capturado no meio de risadas, histórias e latas de cerveja abertas depois de um show ou de uma longa conversa sobre música, vida e estrada.
Os “bárbaros do ócio” estão reunidos diante de uma parede amarela, sob a luz forte que invade o chão rachado do quintal. A porta de vidro atrás deles lembra aquelas casas onde a sala sempre esteve aberta para ensaios, reuniões, fanzines, discos rodando e gente entrando e saindo com guitarras nas costas.
Alguns estão sentados, outros agachados, outros apenas se inclinam para caber no enquadramento. Não é uma formação militar, mas uma formação de trincheira cultural. Cada um parece trazer consigo um pedaço de história: shows improvisados, noites intermináveis, viagens em carros apertados, gravações precárias, festivais independentes e aquela insistência em fazer cultura mesmo quando ninguém paga por ela.
No centro da imagem, um sujeito aponta para a câmera com um gesto quase teatral – como quem diz: “é você mesmo que está vendo isso aqui”. É o gesto clássico da irreverência do rock: meio brincadeira, meio desafio.
Ao lado, outros sorriem com aquele ar de quem já viu muita coisa acontecer – bandas surgirem e desaparecerem, modas passarem, bares fecharem, mas a turma continuar firme, como um clube informal de sobreviventes da cena.
O nome “Bárbaros do Ócio” parece perfeito.
Não são bárbaros no sentido da destruição, mas no da indisciplina criativa – gente que não se encaixa na lógica do relógio produtivista. O ócio aqui não é preguiça: é o espaço onde nascem ideias, riffs de guitarra, textos de fanzine, projetos de shows e histórias que depois viram capítulos de livros.
São bárbaros porque permanecem fora das muralhas da cultura oficial.
E são do ócio porque transformaram o tempo livre – aquele que o sistema considera inútil – em território de criação e amizade.
Se alguém olhasse rápido, poderia ver apenas um grupo de amigos posando para uma foto.
Mas quem conhece a história sabe: ali estão décadas de resistência cultural, comprimidas em um único clique.
Uma tribo pequena, barulhenta, teimosa.

Os Bárbaros do Ócio. 🥃🎸📸 (chatGPT)

Azenha, o primeiro à esquerda disse: "Muitos são chamados, mas poucos são escolhidos" e eu respondi: Quem gostaria de estar no nosso meio?

Truman Capote foi um escritor marcante do romance americano. Irônico, observador, tinha um olhar afiado para a sociedade de Nova York e também para histórias sombrias, como as de criminosos encarcerados que ele transformou em literatura.
Foi a partir de uma foto dele na revista Interview que fiz uma colagem: coloquei meu próprio rosto no lugar do dele. Claro, eu estava de terno e gravata. Só que o chapéu… rosa.
Calma. Eu não sou Chapeuzinho.
Mas é dessa escória literária — desses personagens excêntricos da cultura — que eu gosto de me aproximar. Aquela mistura de literatura, ironia e performance.
Então o artista Julimar resolveu me retratar nessa tela, num estilo claramente inspirado em Andy Warhol. Confesso que achei edificante.
Agora ele promete corrigir o retrato. Diz que ficou horrível porque me engordou.
Mas leve, leve… até o ChatGPT às vezes me engorda — e eu nem estou grávido.
Essas coisas do próprio bolso – festas, zines, colunas em jornais, livros e CD – não nasceram com o batismo Do Próprio Bolso como logomarca. Mas tudo já vinha desse espírito que, no início dos anos 90, acabaria assumindo oficialmente esse nome.

Coisas de 44 anos que me lembro como hoje: Não foi “O Último Tango”. Foi naquele maio de 1982, quando saiu no Correio Braziliense uma matéria sobre o Festival de Reggae na QE 32, que terminou com os organizadores levados presos – entre eles eu, que ainda era menor de idade?
Não foi também em outubro, no Jornal de Brasília, que saiu aquela foto em que aparecemos Rogério “Águas”, Ismael Lennon, Sidney Presley e Mário?
E não foi nessa mesma reportagem que o jornalista perguntou:
– “Quem carbura um?”
E, em uníssono, meus três amigos apontaram para mim?
Eu ainda era inocente. Ali também se encerrava o fã-clube dos Beatles.
Naquele mesmo outubro de 1982, o Correio Braziliense publicou outra frase minha, dessas que fazem mãe perder o sono:
– “Não me interessa se Reagan levar um tiro ou o Papa. O que me interessa é sexo, drogas e rock’n’roll.”
Minha mãe lia aquilo e temia pelas próximas entrevistas.
Afinal, eu me queimava com a família inteira.
Mas estávamos no auge da inocência e do sucesso juvenil.
Rogério “Águas” também não perdoou. Mandou ver:
– “Fiz um desenho bem doido do Lennon como criador do universo.”
E o desenho saiu publicado na capa do zine.
Não foi também naquele outubro de 1982 que a Legião Urbana fez seu primeiro show em Brasília, no Estádio do CAVE?
Pois é.
Quarenta e quatro anos depois, tudo isso continua documentado.
São 44 anos Do Próprio Bolso.