CASA, TRAÇADO E MURAIS A CÉU ABERTO (2026)
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A CASA, O TRAÇADO E OS MURAIS A CÉU ABERTO
O exterior da casa reconstruída desde 1983 me interessa mais do que o interior. Talvez porque, ao longo de tantas décadas, a parte externa tenha se transformado num organismo arquitetônico próprio, em permanente mutação. A construção ocupa uma área retangular, com cerca de 25 metros de extensão, um bloco de dois andares, a sala de entrada com teto de um só pavimento e a garagem conjugada. Mas essa descrição, por si só, não explica o conjunto.
A mentora dessa casa e o homem que a construiu já não estão neste plano existencial. Ficaram a obra, as marcas do tempo e as transformações que se acumularam desde então. Reconstruir, ampliar e modificar esse espaço também é uma maneira de conviver com a memória de quem participou de sua origem. A casa permanece, enquanto aqueles que lhe deram os primeiros contornos passaram a fazer parte de outro território: o das lembranças.
A construção atual foi erguida fora do esquadro, o que provocou uma desvalorização momentânea do imóvel. O desalinhamento tornou impossível assentar a cerâmica do piso segundo uma geometria regular. Entretanto, aquela inclinação inicial acabou determinando outras direções. Os diferentes eixos parecem convergir para um centro, e essa disposição influenciou a localização da churrasqueira e o desenho de seu telhado.
A partir da churrasqueira, puxei o último puxadinho, que assumiu também a função de parede de contenção. As ampliações e adaptações foram definindo os limites da propriedade: grades verdes no fundo, um muro cinza, reto e contínuo na frente, além do portão branco de acesso à garagem, situado à esquerda.
Na fachada externa, cinco colunas brancas marcam a composição. Nos fundos, o corredor de dois andares, com janelas de madeira e teto curvado, acrescenta outra dimensão ao conjunto. Mais adiante, no quintal, há um banheiro voltado para a esquerda. São construções, aberturas e direções que, reunidas, me levam a imaginar uma espécie de átrio: um núcleo espacial formado pela convergência dessas posições geométricas.
Essa é a ideia. Não tenho uma planta aérea definitiva que confirme o traçado. Faltou uma torre de observação, de onde eu pudesse enxergar a propriedade por inteiro, e nunca consegui uma fotografia feita por drone. Por enquanto, o desenho existe sobretudo na minha cabeça, construído a partir da observação cotidiana e da memória de cada intervenção.
Mas a casa não se resume a paredes, telhados, corredores e muros. O reflorestamento e o jardinamento também fazem parte dessa arquitetura viva. A vegetação cresce, ocupa espaços, muda de forma e exige novas intervenções. O jardim de hoje não será necessariamente o de amanhã. Assim como a construção, a paisagem também está sujeita ao tempo, às necessidades e à minha disposição de continuar mexendo nas coisas.
A intervenção mais recente nessa longa história são os murais amarelos, de inspiração rupestre, realizados por Julimar. São nossos murais a céu aberto, que transformam as paredes em superfícies de expressão artística. Primeiro, a imensa parede dos fundos da casa, diante da churrasqueira. Agora, a longa parede de tijolos, pintada de amarelo e grafitada por Julimar.
A arquitetura improvisada, o reflorestamento, o jardim mutável e os murais passaram a integrar uma mesma experiência. O que antes era apenas limite, fechamento ou sustentação ganhou outras funções e outros significados. As paredes também contam histórias; as plantas redesenham os espaços; as ampliações alteram os percursos.
Desde 1983, a casa vem sendo reconstruída, ampliada e reinventada. Não nasceu de um projeto único, executado de uma vez, mas de uma sucessão de decisões e experiências. A mentora e o construtor já não estão aqui para acompanhar as mudanças, mas suas presenças permanecem inscritas na história desse lugar. Cada parede, cada recuo e cada transformação carregam um pouco desse passado, mesmo quando o desenho final escapa a qualquer planta convencional.
Hoje, tento compreender seu traçado como quem procura enxergar, de cima, uma obra que acompanhou a própria vida. A torre de observação ainda não existe. A fotografia aérea continua faltando. Mas os murais de Julimar já estão lá, a céu aberto, acrescentando cor e memória a uma arquitetura que permanece em construção.

A casa continua mudando. Quem partiu permanece na história; quem ficou continua redesenhando o espaço.