Quadradinho Underground 1 (setembro, 2026)

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As pessoas que passaram pela minha vida e o que elas me ensinaram

Em 1982, eu não era ninguém. Já tinha carteira de trabalho, mas nenhum tostão — e isso significava nenhum álbum duplo ao vivo à vista, nenhum álbum importado e, muito menos, qualquer bootleg. Tinha deixado os gibis de lado. Agora eu precisava ler, ouvir e me instruir sobre rock.

Marcelus Augustus tinha uma coleção enorme. Tinha praticamente tudo o que você pudesse imaginar em discos lançados no Brasil. E, com muito esforço, para minha própria educação musical, consegui chegar a alguns álbuns do Allman Brothers e do Humble Pie que, apesar de nacionais, eram difíceis de encontrar — e mais difíceis ainda de ouvir.

Outros malas já nos repassavam seus LPs gastos em troca dos nossos LPs novos. E foi assim que conheci muitos desses sons.

Garanto que, naquela época, paguei muito mais pela troca do que pelo disco. Eles não aceitavam vender. Era troca. E eu precisava correr atrás de mais discos para conseguir outro disco. Era quase uma economia paralela da coleção: você queria ouvir alguma coisa, mas antes precisava descobrir o que tinha para oferecer.

Conheço alguns colecionadores que ainda funcionam desse jeito. Mas eles vão me pagar. Eu garanto.

Hoje comprei esse álbum duplo e, por causa dele, essa história voltou inteira à minha cabeça. Afinal, certos discos não são apenas discos: são máquinas do tempo.

E talvez as pessoas também sejam.

Algumas passam pela nossa vida e deixam discos. Outras deixam histórias. Algumas deixam raiva. Outras deixam dúvidas. E há aquelas que, sem perceber, acabam ensinando alguma coisa.

Tive problemas sérios por não saber escolher com quem andava — e talvez isso seja mais comum do que parece. Uma dessas certas companhias, certa vez, bradou:

“Você ainda faz esses showzinhos com essas bandinhas?”

De início, nem saquei. Achei o comentário surreal, desmotivador e canalha. Fiquei pensando: qual era, afinal, a relação daquele sujeito com a música? Com a indústria? Qual era a sua experiência? Já havia tido uma banda? Que tipo de banda?

Depois percebi que não era apenas uma opinião sobre os meus shows. Havia ali um desprezo por aquilo que eu fazia e, por trás dele, preconceitos que diziam muito mais sobre quem falava do que sobre os meus “showzinhos”.

A mim coube fazer o contrário: continuar sonhando, fazendo meus shows, juntando gente e inventando caminhos.

Talvez essa tenha sido uma das coisas que aprendi com aquela criatura: nem toda opinião merece ser levada a sério. Algumas servem apenas para mostrar de quem devemos manter distância.

E há outras lições que chegam de maneiras ainda mais estranhas.

No sábado, fiz amigos de direita.

Passaram a tarde falando de dinheiro e de como debochavam dos pobres. Um deles dizia:

“Fico procurando um catador de latinhas para dar 50 ou 100 reais.”

Abria a carteira, mostrava as notas de cem e, a todo momento, ameaçava dar uma nota para cada um dos três da mesa.

Contava que tinha acabado de chegar de Portugal, que queria vender o apartamento e morar em São Luís, no Maranhão. Dizia que tinha outra casa e que passaria três meses em São Luís antes de voltar. Falava também que passava a maior parte do tempo na “Tailândia” — ou seja, Taguatinga e Ceilândia.

Me chamou para andar de Hilux e ir até Corumbá 4, onde teria uma área de 4 mil metros, espaço grande, sinuca e tudo mais. Só não dava para andar de barco porque, segundo ele, o barco estava quebrado. Mostrava as fotos no celular.

Aceitei uma cerveja e saí mansinho, para não descobrirem que eu era um infiltrado.

Talvez aquela tarde também tenha me ensinado alguma coisa.

Enquanto ouvia aquela conversa sobre dinheiro, pobres, carros, apartamentos, Portugal, Maranhão, Tailândia e barcos quebrados, uma pergunta ficava martelando na minha cabeça:

Como é que os pobres votam nos candidatos deles?

No fim das contas, talvez seja isso que as pessoas façam quando passam pela nossa vida: deixam alguma coisa.

Um disco.

Uma lembrança.

Uma raiva.

Uma gargalhada.

Ou uma pergunta que fica tocando na cabeça por muito tempo.

**

Quem diria...

Em outubro fará 16 anos que lancei o primeiro número do Reboco Caído. Vários formatos e experimentos aconteceram durante essa caminhada, e algumas atividades estão previstas para o próximo mês. Entre elas, já estão confirmadas:

• Número especial dos 16 anos do RC — Uma compilação desses 16 anos irá rolar, apresentando uma pequena mostra do que aconteceu nesse período. Ainda estamos no corre para tentar uma edição com o dobro de páginas, mas ainda não sabemos se será possível. De qualquer forma, alguma coisa vai sair. Que seja uma, dez ou mais páginas, o Rebocão Especial de 16 Anos vai rolar.

• Heróis do Papel — A série de zines sobre a galera que ainda produz material impresso em tempos de alienação e vazio digital irá trazer uma edição especial sobre o Reboco Caído e seu criador, Fabio da Silva Barbosa. O super-Zinerman já está com este número de Heróis do Papel praticamente pronto e engatilhado para sair nos primeiros dias de outubro.

• Documentário 16 Anos Reboco Caído — A Editora Merda na Mão estará lançando um documentário sobre os 16 anos do zine. Depoimentos de uma galera de peso e imagens de arquivo trarão o registro dessa trajetória de mais de uma década e 72 números.

• Outras atividades ainda estão sendo pensadas e organizadas. Fiquem de olho.

Já está rolando:

No canal da Editora Merda na Mão, já acontece uma contagem regressiva com depoimentos que entrarão no documentário a ser lançado no mês de aniversário. É só acompanhar no canal do YouTube da editora:

//youtube.com/@editoramerdanamao?si=GVjDUjSYKW5ekE7J

  Ainda pela Merda na Mão, está rolando uma ação para arrecadar fundos para que o lançamento especial dos 16 anos do Reboco Caído tenha mais páginas e para que a compilação de 16 anos traga um panorama mais abrangente sobre o que rolou durante esse período.

 

Ainda pela Merda na Mão, está rolando uma ação para arrecadar fundos para que o lançamento especial dos 16 anos do Reboco Caído tenha mais páginas e para que a compilação de 16 anos traga um panorama mais abrangente sobre o que rolou durante esse período.

https://editoramerdanamao.blogspot.com/2026/09/zine-reboco-caido-o-painel-da-arte.html?m=1

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