Módulo 1.000 e sua obra-cabeça

Discos baixados... por Mário Pacheco
1970 - Módulo 1000 - Não Fale Com Paredes
No princípio, a missa era cantada em latim - eletricamente séculos depois, a parafernália progressiva avançou de seis para doze cordas mais cabo elétrico e autofalante chegava-se à lua. Para dominar os céus criaram o fuzz, uma caixinha de efeito que estende a vibração e coloca o guitarrista no Panteão dos Deuses – o fuzz permite viajar por conta própria que é melhor do que um bilhete cortesia das viagens alheias.
Se nos discos tropicalistas de Caetano e Gil, os baianos contavam com as palavras dos Irmãos Campos, e arranjos de Rogério Duprat e guitarristas com os nomes de Lanny Gordin e Sérgio Dias, o nascente rock progressivo brasileiro valia-se do trabalho dos técnicos de estúdio que aprenderam o ofício com discos dos Beatles.
A maioria dos discos de rock nacional foram registrados sob a paranóia exercida pelo regime das fardas. Cruelmente, o Jornal de Música e Som se referiu a Manito (ex-Incrivéis), um organista experiente “voando atrás de Keith Emerson e caindo a meio caminho sem fôlego”. Muitos tecladistas poderiam voar atrás de Keith Emerson mas o rock daqui corria mesmo era atrás de Jon Lord – uma pena que estes discos não tinham a mesma preocupação e distribuição das grandes gravadoras – era como montar um carro nacional no fundo de garagem.
Hoje! Eu vejo como estas resenhas foram infelizes e perseguiram os músicos como os militares, felizmente não era em todos os setores, o triste é que estas resenhas saiam nas revistas musicais que deveriam dar uma força ao rock nacional, por isto também não gosto do Alice Cooper e do Rick Wakeman.
Verbete:
Módulo 1000 – Grupo carioca de Hard-Blues-Rock surgido em 1969. Formação: Daniel (guitarra), Luís Paulo (órgão), Eduardo (baixo) e Candinho (bateria).
Discografia – CS, Big Mama/Isto não quer dizer nada (Odeon, 1970; LP, V FIC (participação, Odeon 1970): LP, Não fale com as paredes (Top Tape, 1972)
Fonte: ABZ Rock Brasileiro (Marcelo Dolabela 4ª Edição)
Faixas
01. Turpe Est Sine Crine Caput
Módulo 1.000 trabalha livremente e febrilmente naquela música abissal voltada para o outro hemisfério da cabeça, sua nuvem de fuzz lembra em muito, o 13th Floor Elevators; Módulo 1000 ao lado do Som Nosso de Cada Dia, Som Imaginário, Terço na fase Jorge Amiden ditaram regras e compassos utilizados até hoje.
02. Não Fale Com Paredes
O mais estranho é sua gramática lisérgica: se a faixa de abertura Turpe Est Sine Crine Caput quer dizer ‘é horrível uma cabeça sem cabelo” o que dizer da segunda faixa, Não fale com paredes e sua divisão fonética adulterada? Curta: ‘nãofa’ – ‘lecom’ – ‘pare’ – ‘des’. No segundo movimento, uma surpreendente levada de samba!
03. Espêlho
Esta balada segue o reflexo orientalista que refletia o mundo contracultural.
04. Lem - Ed – Êcalg
O jogo de espelho está embutido no título (Glacê de mel)
05. Ôlho por Ôlho, Dente por Dente
Um hino hipnoticamente entoado sob o rufar de tambores, inspirado pelo Cream. Seria um aviso? Quanto maior o pulo, maior a queda?
06. Metrô Mental
Faixa que tem sua estrutura no jazz e o chimbal chamando para o improviso soturno. Filosofia ou novo recado? - Temos que saber onde você quer chegar. É nesta jam que o contrabaixo fica mais livre.
07. Teclados
O título diz tudo só que o resultado é de bom gosto, uma miniatura
08. Salve-se Quem Puder
Uma suspeita dose de adrenalina!
09. Animália
A nona faixa, a última do lado B cuidadosamente harmonisa seu fim com o início do lado A, destaca-se uma guitarra estridente que lembra And your bird can sing... Voltemos para o Lado A...
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É o seguinte: neste disco, a Odeon mistura gravações antigas de discos de rock brasileiro do começo dos anos 70. O que é, aliás, muito oportuno: o som da Equipe Mercado, Módulo 1.000, Tribo e Som Imaginário é sempre criativo e muito mais próximo do chamado “progressivo” do que o rock que se faz aqui atualmente, quando a décda já está chegando ao meio. As pesquisas musicais, harmônicas e rítmicas desses quatro conjuntos servem de lição para os rockeiros de agora. É uma pena que, desses, só o Som Imaginário tenha sobrevivido (e sempre na vanguarda) ao longo dos anos. Fonte: Revista Pop (1975) |







Comments
Parabens pelo resgate. eu sou amante do progressivo e psico brasileiro. Agora vc tem esse disco?
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