Alienbalada: 1972. Os Mutantes no País do Barato



Alienbalada: 1972. Os Mutantes no País do Barato
por: Mário Pacheco & Cláudio César Dias Baptista

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"O grupo Os Mutantes andava com jipe pela rua Augusta, mas era um modelo transformado em buggy".
(Nelson de Almeida Filho, idealizador e fundador do Jeep Clube do Brasil)


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O título do novo LP, “Mutantes e seus cometas no país do bauretz” parodiava Bill Haley and his Comets, onde a gíria “bauretz” significava algo como um “barato” de boa qualidade. Resultado: Os Mutantes no País do Barato!

Na primeira edição em maio de 1972, o disco recebeu uma caprichada capa-dupla com um visual externo e interno do artista plástico Alan Voss, que concebeu o significado da palavra “mutante”. Pena que posteriormente a capa fosse simplificada perdendo o seu impacto, desrespeitando a idéia original do artista, prática comum no mercado discográfico brasileiro.

Na faixa de abertura Posso perder minha mulher, minha mãe desde que eu tenha o rock’n’roll transforma os músicos em roqueiros inatos, já Vida de cachorro um tema acústico feito para as várias cachorras de Rita, lembra o Blackbird dos Beatles.

Inspirado nas suas loucuras com o buggy pintado nas cores da bandeira americana, Serginho compõe Dunne Buggy que, além de ser movido à gasolina, ainda roda chapado de “MSLD & STP” (trocadilhos).

Dois bons solos de guitarra, com clara influência de descendentes de mexicanos Carlos Santana marcam Cantor de mambo. Beijo exagerado traz aquela marca suja de batom, digna do rock dos Stones, algo próximo do ritmo de Brown sugar, influência também nítida. Servindo de coda a engraçada e curta Todo mundo pastou, autoria do Bororó, espécie de guru da banda, um cara que queria ser Jimi Hendrix e acabou tocando a bomba de flit em Lê premier bonheur du jour do primeiro LP do grupo.

"A gente só se redime daquilo que faz de mal. Jamais falei mal de Bororó ou de quem quer que fosse. Bororó sempre foi meu amigo e assim sempre o considerei, depois daquele primeiro encontro. Aliás, quando fui a São Paulo ver pela última vez minha mãe, a convite de meu irmão Sérgio, conversei com Bororó; e ambos nos sentimos assaz felizes - tenho certeza pelo tom de sua voz. Gosto e sempre gostei de Bororó. Meu amigo deveras, que admiro. Bororó passou meses para tirar a música mais fácil de todas - mas conseguiu. Se demorou tanto, não foi por ser inferior: era porque trabalhava tanto, na oficina mecânica onde era empregado, que vivia feito sonâmbulo, de tão cansado. E mesmo assim era feliz! sempre pronto a ajudar. E ajudava. E muito. E deixava a todos felizes. A paga de alguns foi chamarem-no, quiçá, de capacho". (CCDB).

"Bororó era nosso vizinho, na Pompéia. Não queria ser 'Jimi Hendrix' (sic), mas nascera bem parecido com este. Vencendo as dificuldades da sua vida sem recursos, vivia semi-acordado dia e noite, porque de dia trabalhava numa oficina mecânica e à noite ajudava em tudo o que podia a todos em nossa casa, a quem adorava. A sua imagem satírica de guru nasceu quem sabe daquele sonambulismo. Certa época, Bororó me ajudou em meu ateliê, e o paguei em dinheiro por isso. A primeira vez que o vi foi quando o enfrentei e a mais quatro sozinho, na calçada à porta da padaria da Venâncio Ayres, porque mexeram comigo, que passava. Nenhum dos cinco se animou a me atacar... e passei. Por causa desse enfrentamento, tive a felicidade de conhecer Bororó e, mais tarde, alguém que pretendeu, para vingar os cinco, trazer a turma 'da pesada' lá dos altos da Pompéia e me pegar. Essoutro era o Pataca. Leia, no escrito Géa, algumas das aventuras de Clausar e Metália, o Cláudio e o Pataca extraterrestres. Anos depois desses episódios, a antepenúltima apresentação dos Mutantes em público só aconteceu porque exigi a entrada gratuita de Bororó no Palácio das Convenções, onde tal função se deu; caso contrário, adeus espetáculo! porquanto eu não operaria o sistema que ali instalei e conjuguei com o existente, monofônico, criando, pela vez primeira nesse recinto, um sucesso estereofônico. Ninguém lograria operar sistema assim complexo... e Bororó entrou e assistiu aos Mutantes. Minha paga foi uma garrafa atirada do mezanino em meu rumo, que felizmente me passou zunindo junto à orelha direita e só atingiu a mesa de som, donde arrancou alguns botões. Isso aconteceu porque precisei usar fósforos para enxergar os controles dessa mesa, já que o iluminador me boicotou o trabalho, 'esquecendo' de instalar prometida e adequada lâmpada sobre o painel da mesa de áudio que operei. Quem sabe os fósforos acesos incendiassem alguém armado de garrafa no mezanino, ao distraírem-no do palco?". (CCDB).

A outra face revela o clássico Balada do louco, a primeira música em português que me recordo de ter ouvido em rádio e gostado, pois antes só gostava de canções em inglês principalmente Beatles. Balada do louco foi a primeira mensagem nacional que os meus ouvidos prestaram atenção. E eu nem sabia quem eram Os Mutantes, tinha oito anos, mas já era ligado em música...

"A mensagem do louco não é tão nacional assim; porém, universal. Lembre-se do Erasmo de 'Elogio à Loucura' e de Woody Woodpecker, de Walter Lantz, cuja canção já citei, que ouvíamos em crianças. Eu próprio faço o meu elogio à loucura pela boca do Clausar 'enceradeiramente louco'. O texto está no site, página 'Qual coisa é Géa', mas é muito melhor lê-lo na obra, onde se ambienta e se explica; ou não". (CCDB).

“Compus a balada do louco no piano da casa da irmã da Rita Lee, Mary Lee, que chamava-nos de loucos. Creio que foi aí que surgiu o título. Mas foi, na maior, uma inspiração generalizada minha”. (Arnaldo Baptista).

"Arnaldo não se esqueça do Pica-pau...". (CCDB).

“Tem uma música nossa que se chama Cabeludo patriota e os caras acharam que é uma gozação com alguma coisa e tal, e nós tivemos que mudar o nome para A hora e a vez do cabelo nascer. E tivemos que mudar a letra também. Era assim: Meu cabelo é verde e amarelo / violeta e transparente / minha caspa é de purpurina...
"E acabou ficando assim: Meu cabelo é verde e dourado / Violeta e transparente / Minha cara é de purpurina / Minha barba é azul anil

"Eles invocaram com caspa porque acharam que é plasticamente feio”. (Arnaldo Baptista).

Revisam o rock brasileiro mais uma vez, recriando a Rua Augusta de Hervê Cordovil.

A mais longa e sofisticada faixa acabou por batizar o disco Os Mutantes e seus Cometas..., segue-se progressivamente abandonando as questões culturais, rompendo com a proposta tropicalista, dando vez aos teclados de Arnaldo influenciados por Tony Kaye, tecladista do Yes que o aproximou de uma razão musical, uma nova filosofia sonora. Essa faixa possui compassos de estrutura jazzística, o tradicional 8/8.

“Para dizer a verdade, só consegui ouvir duas faixas com prazer: Beijo exagerado (uma obra-prima menor, um tremendo show de ritmo e provocação) e Dunne Buggy (uma inconsequente e deliciosa exibição de truques vocais e rítmicos). Os Mutantes estão correndo um sério risco: têm plena consciência de seu talento e versatibilidade, mas não sabem como domá-los. E isso os joga ao encontro da dispersão. Dispersão essa que acaba não significando nada. Que é justamente o que significa No país do bauretz”.
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(Ezequiel Neves, in Rolling Stone, 16 mai. / 1972).

Os Mutantes definitivamente haviam se transformado no grupo do Arnaldo e o espaço de Rita e Sérgio estava reduzido. Conseqüentemente, parte da criatividade do grupo era tolhida pelas ideias de Arnaldo, o que não livrava o grupo da clara saturação criativa que estavam passando.

Este é o trabalho mais comercial e conhecido e amado dos Mutantes, mas Ezequiel Neves com o disco recém saído da prensa não recebeu muito bem o disco e via nele uma certa falta de ambição e risco que seriam melhor expressados no vindouro Hoje é...
Impressão compartilhada por mim. Certamente proporcionada pelo excesso de influências, variando desde Elton John até Jimi Hendrix. Inclusive repetem a letra de Tempo no tempo do primeiro LP do grupo a final da faixa Os Mutantes e seus Cometas... Na crítica ainda transparece uma carinhosa preocupação com o fim do grupo.

O resultado final foi agravado pela atuação implacável da Censura e a cobrança da gravadora que exigia um retorno imediato do investimento nas gravações.

Depois de receberem o disco com reservas, a "Rolling Stone pirata" apontou, em outra edição, uma nota a respeito do show de lançamento do disco, feito no TUCA (Teatro da Universidade Católica), considerando a apresentação deles como sendo uma das melhores performances ao vivo da banda. Lógico que a crítica do show e a do disco foram feitas por pessoas diferentes.

O inglês Mick Killingbeck e o empresário musical Hilary Baynes começam a serem vistos constantemente na Serra da Cantareira. Mick além de sócio da revista "Rolling Stone" era Engenheiro Nuclear, também conhecido como "o homem do átomo" e que as pessoas diziam ser ele o "melhor amigo" de Arnaldo.

"Num extremo do sobrado ficava o santo dos santos: o escritório dos donos, um inglês e um americano muito festeiros. Cheirava a incenso e patchulli e só os chefes, Luis Carlos Maciel, editor, e Lapi, diretor gráfico, tinha acesso a ele. Fui lá uma vez: eles assinaram minha carteira de trabalho estalando de nova, a primeira anotação da minha vida. Consta que Os Mutantes, amigos deles, apareciam por lá e rolavam altas festas. Podia ser lenda, e lendas florescem facilmente naqueles tempos".
(Ana Maria Bahiana, secretaria de redação da Rolling Stone in Senhor F).

Não demorou muito e o "amigo" estava acumulando o papel de empresário e produtor de Arnaldo e Sérgio e acabaria dando novos rumos aos rumos dos Mutantes, como a viagem mágica e misteriosa numa breve excursão de ônibus pelo interior paulista.

"Foi Mick Killingbeck quem organizou outro grande projeto dos Mutantes. Eles descolaram um ônibus que tinha um palco móvel para fazer uma série se shows pelo interior paulista. Escolheram Guararema para um teste piloto, e, num belo dia, depois de alguns contatos já estabelecidos com as autoridades locais Os Mutantes e seu séqüito foram para lá. (...). "Foi um barato", lembra Serginho: "puxamos luz na casa de um farmacêutico; o prefeito e alguns cidadãos descolaram alimentação pra gente, por aí afora. Fizemos um show ao ar livre pra a população de Guararema. Foi uma loucura". Sérgio Dias à revista Bizz n.20, mar. / 1987.

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Outro show importante foi o do Parque da Água Branca, em São Paulo, novamente ao livre.

"Eu estava viajando de ácido e no meio de um show tive de parar, abrir minha pedaleira e consertá-la com ferro de soldar". (Sérgio Dias)

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No Parque da Aclimação, em São Paulo, ao ar livre. Chove torrencialmente, mas ninguém arredou o pé. "A gente não saiu do palco. O Cláudio ligou um fio terra num lago para evitar choques elétricos. Foi uma grande loucura", relata Liminha, à revista Bizz.

"Eduardo, mais tarde dono da Transasom, esteve num espetáculo dos Mutantes cujo som instalei no Parque da Aclimação, justamente com aquela aparelhagem que construí com a ajuda de Peninha e Leo. Esse espetáculo está descrito em trabalhos meus; e a mesa de áudio, a mesma que pela primeira vez alguém instalou numa platéia na América Latina, trabalhou com os amplificadores (transistorizados) submersos na água, que da chuva súbita e forte se empoçou alto na praça derredor". (CCDB...).

"À minha direita - que operava a mesa a descoberto, com os pés metidos na água até as canelas, sem me preocupar com eletrocussão -, gente dançava e se atirava na lama! ao som dos Mutantes, que a meu aceno saíram de sob a concha acústica para receberem nos corpos e nos instrumentos a mesma torrente que o público, irmanando-se a este. Fiz tal gesto e os chamei porque notava a indecisão da assistência, a qual começava a retirar-se ao iniciar a borrasca. E, entusiasmado com o avanço e o som, imune a tudo conosco, o pessoal aderiu e ficou!". (CCDB...).

"Nesse dia, antes da chuva, Eduardo esteve de lápis e papel nas mãos, anotando quanto via nas caixas acústicas, de projeto meu e alto-falantes JBL". (CCDB...).

"Mais tarde, quando formou a Transasom, Eduardo comprou-me um par de amplificadores CCDB, e não conseguiu, com os seus técnicos dele, descobrir-lhes o nome dos componentes que, como contei a ele e a todo os Clientes, eu raspava. Talvez por não poderem copiar o meu aparelho, que mesmo assim Eduardo muito elogiou, copiaram os (transistorizados) de certa marca estrangeira - e copiaram bem, usando-os em quantidade e montando-os por baixo custo". (CCDB).

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Passados dois anos do primeiro álbum solo de Rita Lee, a gravadora encomenda um segundo, acreditando transformar Rita definitivamente em uma estrela. Ela estava na Inglaterra com Liminha, curtindo férias européias, precisamente em solo londrino.

Ritchie nessa mesma época conheceu Rita Lee. A brasileira ficou impressionada com o projeto do inglês em criar uma banda de rock com mais de vinte pessoas para contestar os planos modificação de Picadily Circus, no West End. O LP acabou saindo e contava com as participações dos brasileiros Liminha e Lúcia Turnbull, uma gatinha guitarrista que sempre escrevia aos Mutantes. E Rita convidou Ritchie autor de Menina veneno para residir no Brasil, o que ele topou e desembarcou aqui no final de 1972 com armas e bagagens ficando hospedado na casa de Arnaldo.

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"Na época do flower-power eu queria muito morar em Londres, cheguei a passar um tempo lá, mas não pude ficar por causa dos Mutantes. Nessa época Os Mutantes e a Gal Costa estavam muito sintonizados com eles. E Londres era, e talvez ainda seja, o grande centro da cultura pop. Mas, nós éramos como que os representantes da Tropicália que tinham ficado no Brasil". (Liminha).

"Arnaldo me implorou que salvasse os Mutantes, o que me fez sair da faculdade e do trabalho (onde todo o conjunto me foi buscar 'gloriosamente' no Buggy do Sérgio) para montar o equipamento e para intermediar o conjunto com o empresário Marcus Lázaro". (CCDB).

"Uma empresa só pode render dinheiro quando é COMPLETA. Desculpe as maiúsculas, mas é esse o problema. (...) Só com organização as coisas funcionam em vez de nos atropelarem quando se intensificam. Uma solidez empresarial nos moldes conservadores da administração de empresas, que repousam em planejar, organizar, dirigir e controlar, estando a retroalimentação dos resultados subentendida no ato de controle. (...) Em administração, a primeira coisa que um técnico faz é 'fotografar' a empresa que precisa melhorar. Depois ele descobre a qual objetivo a empresa (ou seus donos) pretende chegar. Então acha o jeito (se houver) de transformar a empresa existente, a 'fotografada', numa empresa que possa alcançar esse objetivo". (CCDB).

De volta das férias européias, Rita e Liminha trazem na bagagem um mellotron e um mini-moog, que seria o responsável pelo aparecimento das primeiras difereenças que resultariam na iminente saída de Rita Lee.

"Today is the first day of your life' (Hoje é o primeiro dia do resto da sua vida!). Estes dizeres tornaram-se muito populares em anos mais recentes, e parecem nortear o modo de ser de inúmras pessoas.

"Hoje é o primeiro dia do resto da sua vida" - frase que Rita Lee viu pichada em um muro inglês, batizou o seu segundo solo, o primeiro álbum gravado em 16 canais pelos Mutantes no recém-inaugurado Estúdio Eldorado. A direção musical e a produção novamente ficariam a cargo de Arnaldo, que assina músicas em parceria com Rita e outros ainda assina uma sozinho. É o registro do penúltimo trabalho dos Mutantes em estúdio, com Rita Lee numa mixagem medíocre tentando colocar a sua voz e os backing vocals de Lúcia Turnbull num plano por demais exagerado. Na capa da frente, um auto-desenho de Rita Lee feito sob ação do ácido e na contra-capa as fotos do show da Água Branca.

"Nesse disco, quem dirigiu a mixagem, sentado no posto de comando da mesa fui eu, deslocando o engenheiro local. Gil estava lá e viu. Participei também tocando zabumba e dizendo frases que já comentamos e foram gravadas no disco. A tal 'mixagem medíocre' foi feita numa sessão seguinte, da qual não participei, onde Arnaldo modificou algumas equalizações e proporções entre canais que eu estabelecera, em certas faixas. Essas modificações resultaram nisso que você descreve. Quando gravávamos, o estúdio era bom, mas tínhamos que esperar a emissora de FM contígua sair do ar, tarde da noite, ou seu som vazava para a mesa de áudio importada, de última geração, uma Audio Design. Desse vazamento é o som de saxofone adrede gravado no disco. Se a mesa fosse CCDB, tal vazamento não aconteceria; e, para haver sax, se pagariam cachê e direitos autorais ao músico que se contratasse... Numa das capas do disco está o nome de quem fez o 'som'. Nesse disco, Liminha tocou a Guitarra-baixo de Ouro que fiz para Arnaldo. Eles maltrataram muito o instrumento, usando-o com arco e breu feito violino e pondo-lhe apenas quatro das seis cordas originais. Mesmo assim, resistiu. Essa guitarra fez minha mãe chorar de emoção feliz quando lhe ouviu o som primeira vez, logo que a terminei, no ateliê do porão de casa, R. Venâncio Ayres, bem junto ao ponto onde o violão de meu avô Horácio se desmanchou. No mesmo dia; aliás, noite; a Guitarra-baixo de Ouro partia para a Europa, em mãos de Arnaldo. Para extrair o som certo desse instrumento e o gravar no disco em questão, usei um amplificador transistorizado. No entusiasmo, Liminha acabou queimando um driver de corneta importado, que liguei ao amplificador para o instrumento poder exibir seus agudos. Sim, contrabaixo sem agudos nem sempre se destaca. Em certas músicas, são mais importantes no baixo que os graves. (CCDB).

Mande

A 17 de setembro de 1972, no VII e último FIC, o grupo encontra novamente uma de suas maiores motivações (participar dos festivais). Pois o início e parte da fama haviam sido adquiridos através deles. Só que os festivais começavam a dar sintomas de decadência e em breve entraria em desuso, devido à desmoralização e decadência. Foi o último adeus de Rita Lee e Os Mutantes, defendendo uma música que Rita adorava, Mande um abraço pra velha. O mesmo festival revelaria ainda O Terço e Raul Seixas e a grande vencedora seria a conhecida Fio maravilha de Jorge Ben. Talvez a desclassificação precoce dos Mutantes tenha precipitado a saída de Rita Lee...

A seguir longo depoimento de Rita Lee sobre o período e as suas razões para sua saída do grupo:

"O pessoal entrou naquela de música progressiva, uma complicação instrumental sem tamanho. Era aquele papo de Yes, Emerson, Lake and Palmer (ELP), Genesis. (...) De repente, Os Mutantes descobriram Deus, aquela coisa religiosa e entraram numas de egotrip em que eu não estava muito interessada. Queria mesmo a avacalhação, cantar com muita roupa colorida e tal. E no FIC de 72 apareci de viúva, cantando Mande um abraço pra velha. Hoje acho a coisa sintomática, porque, a partir daí, tudo se precipitou. Eu saí dos Mutantes porque queria pensar dar um tempo...". Fiquei nos Mutantes uns sete anos. A última vez que trabalhamos juntos foi no FIC, com a música Mande um abraço pra velha e o som dos Mutantes estava incrível. Quem não estava bem era eu que queria saber como me viraria sozinha. Então veio a fase kamicase. Nós contra todos, e um resultado facilmente previsto. Pressões de todos os lados. E os discos dos Mutantes eram retirados de catálogo pelas gravadoras que se alimentavam de imprensa/divulgação. Estilingues contra tanques. Sufocados, começamos a perder de fora para dentro. Até que todos nos perdemos entre nós próprios. Em toda a preocupação instrumental dos Mutantes, evidentemente, não havia lugar para uma cantora. Muito menos para uma que, no máximo, contribuía para o suporte tocando um pandeiro furado. Eu fazia as letras de música, cuidava do visual do conjunto. Tocar, só o pandeiro, mas sempre bicando os dois tocando. Algumas vezes compunhava alguma música com o Arnaldo, só pedaços, nunca inteira. A gente funcionava como um grupo onde cada um dava o que podia dar. A gente tinha 14, 15 anos e tudo era brincadeira. Esgotamos munições. Até no comportamento fora do palco. Meu casamento com Arnaldo foi um dos últimos presentes que dei a minha família. Foi um grande deboche 'cavalheiro medieval casou com noiva grávida'. Eu vivendo em esquema tribal. Separação de corpos. Casamento com separação de corpos. É isso aí. Fui morar na Cantareira. Lá morávamos com muitos músicos do nosso grupo. Até meu marido, às vezes. Cortando caminho, velocidade de comportamento que imprimimos já passara em muito do nosso controle. As rodas giravam além do possível. A máquina espatifou-se num festival onde resolvemos cantar um samba feito por mim, pelo Sérgio, O Arnaldo e mais uns dois Mande um abraço... Contra tudo eu lutei. Mas contra todos seria impossível. Comprei um sintetizador. Para Os Mutantes o meu passo passava do previsto. Perninhas de fora, uma letrinha de vez em quando, programação de um visual, um pandeirinho, tudo bem sintetizador? Essa não. E o clube do bolinha - menina não entra. Acabou por me fazer sair. Tenho às vezes flashes, saudade dos Mutantes, das brincadeiras. Mas isso passou, eu sei. Era tudo bom, mas radical de mais. Eu me sinto... me sinto principalmente uma profissional. E curto isto". (Rita Lee).

E Rita Lee Jones não mais parecia-se encaixar e nem querer aderir ao novo estilo mutante, não combinava a pantomima de mostrar as perninhas, pois o palco não era mais uma passarela e os meninos não queriam mais usar os modelitos criados por Rita, o adeus definitivo para as caras e bocas o balançar das cadeiras. O virtuosismo terminou essa formação e o desabafo de Rita: "mas pera lá Sr. Diretor eu também tenho talento".

Uma semana depois da apresentação no FIC, aconteceu uma reunião na casa da Serra da Cantareira. Rolou "um papo muito estranho", pois todo mundo disse um ao outro milhares de coisas que estavam presas na garganta há muito tempo. Entre cobras e lagartos, com o nível baixando. Arnaldo foi excluído da reunião, pois os seus sentimentos poderiam intervir na sua decisão. Antes que as coisas piorassem ainda, Rita deu uma "de ovelha negra não assumida" e voltou para a casa de sua mãe na mesma noite em companhia de suas cachorras, levando seus discos dos Beatles e Rolling Stones, dirigindo o seu velho companheiro de guerra, um jipe Willys 51 e atrás o seu Mini-moog e o violão, "enfim tudo o que coube dentro do meu jipe. (...)

"Acho que não foi só isso. Tinha aquela tal velocidade da Rita e seu trabalho que se afastava da gente. Foi quando a gente percebeu a rapidez dela", lembra Arnaldo, "nós éramos na gravadora uma peça de erudição, uma espécie de prestígio. (...)

"Eu saí da Phonogram porque não queria que me manipulassem, dirigissem tudo para mim. O André (Midani) sempre achou que eu era quem valia apenas dos Mutantes, que eles deviam ser uma banda me acompanhando. Quando nos separamos, ele ficou feliz da vida.
(Rita Lee).

"No começo éramos três crinças maravilhosas que curtiam muitas loucuras juntas, porém começamos a envelhecer, brigar, guerras de ego e problemas existenciais aapareceram entre nós, fizeram com que cadaum tomasse um rumo diferente. Finalizando uma fase que eu chamo de aprendizagem. Eu era à parte. Não entrava nas coisas pessoais, nas derivações. Participava da criação de algumas músicas, mas depois que a Rita Lee saiu é que eu comecei a ficar quase o dia todo tocando. Nossa música não era o rock'n'roll. O que a gente tocava era a música dos Mutantes. Nós éramos moleques e brincalhões. Profundos, no sentido que um criança é. Depois começamos a perder isso, essa espontaneidade musical. Acho que a gente perdeu com isso. Antes a nossa música era automática, apesar de sentida". (Sérgio Dias).

Mas o fator determinante da saída de Rita Lee dos Mutantes e o fim do relacionamento com Arnaldo permaneceram intocados e obscuros por vários anos. Não foi só o Mini-moog, nem a pressão da Phonogram e do Sr. Midani, nem as atitudes machistas dos meninos, apesar de tudo isso ter contribuído também.

Mas a gota d'água que selou o destino de ambos foi o relacionamento de Rita com "o seu melhor amigo", o inglês Mick Killingbeck, um fato que Arnaldo não esperava. Uma desilusão que marcou profundamente o sensível Arnaldo, que levou algum tempo para superar o impacto.

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"Ela me traiu com o seu melhor amigo, o Michael Killingbeck, soletra Arnaldo. Depois disso, tudo mudou".

"Esse som que 'estava incrível' era meu. Eu o fiz. Como vemos, eis-me encerrando, aqui também, uma fase dos Mutantes, conjunto que criei com Raphael Vilardi e terminei quando guardei o equipamento depois do postremo espetáculo, num trêmulo Ribeirão Preto. Só nesse último canto, os músicos se harmonizaram, tocaram bem e fizeram o devido sucesso, porque não mais competiam entre si: já se decidira que ali era o fim. No escrito Géa você verá mais, como e porque se separaram os Atlantes num período semelhante. No caso dessa separação de Rita dos Mutantes, prefiro que a história fique do jeito que ela descreveu. Certo convite que alguém me fez irá comigo e esse alguém para a próxima encarnação". (CCDB).

"A Rita vem dizendo que saiu do conjunto por causa da falta de condições que havia pra ela progredir musicalmente, chegando a afirmar que a gente tinha um preconceito machista. Isso não é verdade. Ela saiu porque brigou com o Arnaldo (com quem era casada). A estrutura de vida deles estava falida. Fui eu quem ensinou a Rita a tocar violão e incentivei-a a tocar mini-moog, quando o lógico seria o Arnaldo tocar o instrumento, já que ele tocava piano. Quando ela foi presa fui eu que levantei a grana para advogados, pra ela poder sair logo. Sempre admirei muito a Rita como pessoa, sempre fui muito ligado a ela. Isso nos afastou bastante. O Arnaldo também gastava seu tempo ensinando ela a cantar, porque a voz dela era muito fraca, e nos shows era uma vergonha. Fiquei decepcionado com ela. Rita era como uma irmã. É uma ingratidão o que ela vem dizendo sobre a gente. Ela esqueceu muito depressa tudo que a gente fez por ela".
(Sérgio Dias, JB, janeiro de 1980)


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