A Linhagem da 508 Sul: Uma Leitura de A Nave 508 – Segundo Volume (2025)
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A NAVE 508 – UMA CIDADE DENTRO DE OUTRA: ENSAIO SOBRE UM LIVRO E UM LUGAR
“A Nave 508 – Segundo Volume revela que o Espaço 508 Sul não é apenas um prédio, mas um território simbólico onde Brasília se reinventa. Ali, a cidade subterrânea encontra a monumental, a juventude cruza o vazio modernista, e a precariedade se transforma em potência estética. O livro recupera uma memória coletiva essencial e devolve à cidade a consciência de sua própria cultura. A 508 é, no fundo, o lugar onde Brasília aprendeu a sonhar fora do plano original.”
Assim pode ser resumido o espírito da obra organizada por Suyan de Mattos, que não escreve apenas um livro, mas acende uma fogueira de memórias. A Nave é uma arqueologia afetiva da cidade: uma coleção de vozes que permitem ouvir, entre as páginas, o eco dos passos que cruzaram corredores improvisados, salas de ensaio, paredes descascadas e noites ventosas da Asa Sul.
O volume reúne testemunhos, entrevistas, ensaios e imagens que reconstruem — pedaço por pedaço, gesto por gesto — a história do Espaço Cultural da 508 Sul, especialmente sua segunda vida, entre 1993 e 2013. É uma obra de memória coletiva: cada autor traz seu fragmento, e Suyan costura esse acervo vivo com a sensibilidade de quem compreende que a cidade não cabe nos arquivos oficiais, mas nas lembranças de quem a viveu por dentro.
A ARQUITETURA DA NARRATIVA
A estrutura do livro é deliberadamente fragmentária, igual ao próprio espaço que retrata. Não há linearidade — há rizomas.
A apresentação de Suyan revela a gênese do projeto e o impacto do retorno ao Brasil em 1996.
A introdução de Graça Ramos recompõe a fase inaugural (1975–1986) e faz emergir figuras fundadoras como Wladimir Murtinho, Laís Aderne e TT Catalão, que moldaram o espírito da primeira 508, então Teatro Galpão.
O ensaio de Nanan Catalão, “Besouro da Cultura”, explica por que o espaço ressurge sempre que tentam enterrá-lo — porque a arte ali persiste apesar da lógica urbana que tenta expulsá-la.
Entrevistas com Wagner Barja, Johanne Madsen, Kuka Escosteguy, Lydia Garcia e Cirilo Quartim ampliam o ponto de vista, revelando gestores, professores, técnicos e articuladores.
A parte central do livro é um tecido de depoimentos: mais de trinta artistas narram a vida no galpão.
São vozes de Fernando Carpaneda, Cíntia Falkenbach, Ralph Gehre, Solange Cianni, Sérgio Maggio, entre muitos outros — uma constelação que brilha em direções distintas e, ainda assim, forma um único céu.
O final, com a Poética Extemporânea de Rômulo Andrade, funciona como epílogo filosófico, devolvendo à obra um horizonte metafísico de tempo, criação e legado.
É um livro para ser percorrido, não para ser seguido. Um caleidoscópio, como a própria Brasília.
MEMÓRIA, RESISTÊNCIA, AFETO
O livro gira em torno de temas que atravessam a história cultural de Brasília:
Memória — contra o esquecimento estrutural da cidade, contra a repetição da ideia de que nada acontece aqui.
Resistência — a metáfora do besouro resume o espírito da casa: um corpo improvável que insiste em voar.
Multiplicidade estética — dança, performance, vídeo, música, teatro, artes visuais, oficinas, cinema, corpo.
Periferia simbólica — a 508 como contraponto ao “Plano Pilatos” institucional, liso, burocrático.
Afeto — comunidade artística como método de sobrevivência e criação.
A obra funciona como arquivo e como gesto político: um inventário do que a cidade produziu sem pedir permissão.
POR QUE ESSE LIVRO IMPORTA
A Nave 508 vale mais do que dezenas de documentos oficiais porque guarda o que estes nunca registrariam: o cheiro do galpão, o barulho do Eixão, o vento que atravessa a Asa Sul, a escuridão da sala antes de uma performance improvisada.
É historiografia informal, álbum afetivo, registro de práticas curatoriais antes da profissionalização, mapa de redes de colaboração, documentação da pedagogia experimental da cultura brasiliense.
É referência obrigatória para quem estuda cultura no DF — e, sobretudo, para quem a viveu.
AS CINCO BRASÍLIAS DO LIVRO
A obra revela que Brasília não é uma, mas várias cidades coexistindo:
A Brasília monumental – do poder e da arquitetura perfeita.
A Brasília residencial – silenciosa, ventosa, introspectiva.
A Brasília subterrânea – a da 508, viva, imprevisível, insurgente.
A Brasília popular da W3 – suja, humana, cotidiana, vigorosa.
A Brasília dos artistas jovens – que cruza grandes distâncias com figurinos, bicicletas, ônibus atrasados, suor e urgência de criar.
Cada depoimento carrega sua própria cidade.
O livro é, no fundo, um atlas emocional de Brasília.
IMAGENS QUE FICAM
Entre as imagens mais vivas evocadas pelos depoentes estão:
– A Asa Sul como cidade fantasma ao anoitecer, preparando o corpo para a invenção.
– O galpão como ruína viva: mofo, infiltração, calor, frio — e, apesar disso, beleza.
– O Eixão como linha de fuga, barulho permanente, símbolo da Brasília veloz.
– Os pilotis da W3 como portal popular para o subterrâneo cultural.
– O céu de Brasília — imenso, expressionista — como teto espiritual da criação.
Essas imagens compõem o que o livro tem de mais belo: uma geografia afetiva da cidade.
A 508 COMO GEOGRAFIA HUMANA
Aqui a obra alcança seu ponto mais profundo:
o espaço não é apenas cenário da arte, mas agente ativo, produtor de subjetividade.
O galpão molda gestos, corpos, práticas, relações.
É laboratório, escola paralela, útero cultural.
A memória se instala no lugar; o lugar se instala na memória.
DITADURA x DEMOCRACIA: DUAS FORMAS DE OLHAR O MESMO ESPAÇO
A narrativa do livro deixa clara uma divisão histórica:
Durante a Ditadura
A 508 foi vista como ameaça:
suspeição, vigilância difusa, abandono como método de controle, temor da formação de redes criativas.
Durante a Democracia
A 508 foi vista como direito:
ocupação, liberdade estética, articulação institucional, circulação de público, hibridismo radical.
A fase mais efervescente coincide exatamente com 1993–2013 — a segunda vida do galpão.
A RENOMEAÇÃO: 508 SUL x ESPAÇO RENATO RUSSO
O livro mostra claramente:
– A homenagem a Renato Russo foi respeitada.
– Mas o nome nunca desbancou o original.
“508 Sul” permaneceu vivo porque é nome de território, não de cartório.
O nome administrativo não conseguiu apagar o nome afetivo.
BUROCRATAS x ARTISTAS: DOIS TIPOS DE FORÇA
O livro distingue, naturalmente, duas classes de personagens:
Os gestores — Barja, Lydia, Kuka, Nanan (parcialmente), Johanne, Cirilo, Suyan como produtora.
Os artistas — Carpaneda, Gehre, Cíntia, Solange, Darcilo, Maggio, Toninho, Crisálida e muitos outros.
Não há antagonismo.
Há complementaridade: sem os gestores, o galpão desaba; sem os artistas, o galpão é apenas parede.
A ÁRVORE GENEALÓGICA DA 508
O livro permite compor uma árvore viva:
Raízes (1975–1986)
Murtinho – Laís – TT – grupos pioneiros.
Tronco (1993–2000)
Barja – Lydia – Kuka – Nanan – Johanne – Suyan.
Galhos (1997–2013)
Carpaneda – Gehre – Cíntia – Solange – Darcilo – Maggio – Toninho – Crisálida – dezenas de outros.
Folhagem
Técnicos, montadores, produtores, público.
Frutos
Memória, legado, mito cultural.
“A 508 não é um prédio: é uma linhagem.”
ARQUITETURA x CULTURA: UMA COREOGRAFIA
O galpão improvisado, quebrado, úmido e quente nunca impediu a arte — pelo contrário, parecia estimulá-la.
Quanto mais precário o espaço, mais intensa a invenção.
A estética do galpão se tornou linguagem da cidade.
CONCLUSÃO: A 508 COMO MITO DA CIDADE
A Nave 508 – Segundo Volume é mais que um livro sobre um espaço cultural: é um mergulho nas camadas subterrâneas da cidade. É arquivo, celebração e luta. É memória que se recusa a morrer. É a prova de que Brasília não vive apenas nas avenidas monumentais, mas no improviso, no corpo, no risco, na criação coletiva.
A 508 é o lugar onde Brasília ousou ser o que o plano não previa.
Onde o vazio virou encontro.
Onde a ruína virou origem.
Onde o impossível ficou de pé por teimosia e desejo.
E onde, enfim, Brasília aprendeu a sonhar consigo mesma.

A NAVE 508: Segundo Volume - 1993 a 2013
Suyan de Mattos (org)
Link para baixar o livro: https://drive.google.com/file/d/1V6ABaSe5bxq-ZbzH6ZXQlQ6q_DlIjGbx/view