CREAM: O livro que reconta – com fatos – a história da banda que reinventou o rock (2025)

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Por Mário Pazcheco

Em 24 de outubro de 2025, chega às livrarias Cream Chronicled, o novo livro da escritora Nettie Baker, filha do lendário baterista Ginger Baker. A publicação, com 288 páginas e uma seção fotográfica, promete algo inédito: documentar cada show da banda Cream, desde o primeiro acorde tocado em 29 de julho de 1966, no clube Twisted Wheel, em Manchester.

Mas o livro vai além da simples cronologia. Ele mergulha nas tensões, nas amizades e nos bastidores de um trio que durou pouco mais de dois anos – mas que redefiniu o conceito de supergrupo. Cream Chronicled trata de desmontar mitos, confirmar lendas e responder perguntas que fãs discutem há meio século, incluindo uma das maiores de todas: afinal, o nome era “Cream” ou “The Cream”?


The Cream ou apenas Cream?

De acordo com a pesquisa de Nettie, o nome oficial da banda sempre foi “Cream”, sem o artigo definido “The”.
O equívoco nasceu porque, nos primeiros contratos e anúncios, o trio aparecia listado como “The Cream” – prática comum entre produtores e agentes britânicos da época, que achavam mais natural incluir o artigo. Mas nos créditos oficiais dos discos lançados pela Polydor e pela Atco Records, a banda se apresentava como “Cream”, pura e simplesmente.
Portanto, “The Cream” é apenas um erro histórico de digitação que o tempo ajudou a perpetuar.


O primeiro show: 29 de julho de 1966

O livro esclarece até mesmo detalhes cronológicos. O contrato da estreia – assinado como “The Cream” — estipulava o pagamento de £75 por dois sets de 30 minutos, entre 21h e 2h da manhã, o que explica por que há décadas se discutia se o show aconteceu em 29 ou 30 de julho. Nettie Baker revela: foi nos dois dias.
Chovia torrencialmente em Manchester naquela noite, e o público mal sabia que estava diante de uma estreia histórica – Eric Clapton, Jack Bruce e Ginger Baker tocando juntos pela primeira vez.


Além do mito

O livro também revela bastidores curiosos, como o ensaio fotográfico de Art Kane, realizado em abril de 1968, na Pensilvânia, onde o trio aparece sentado sobre trilhos de trem — uma imagem que muitos interpretaram como presságio do fim. Nettie Baker, porém, esclarece que a sessão foi leve e descontraída, ainda que os comentários negativos sobre a foto continuem circulando. Já em 1967, num registro igualmente irônico, ela recorda: “colocamos até uma velhinha aleatória no banco do parque”.

Outro ponto importante: Nettie derruba a ideia de que as brigas e as drogas foram as únicas responsáveis pelo fim do grupo. Segundo ela, “eles se amavam como irmãos — mas eram jovens vivendo tempos muito intensos”.


Um registro definitivo

Cream Chronicled é mais do que um livro sobre rock. É um exercício de memória e justiça histórica. Ao juntar relatos de bastidores, contratos originais e testemunhos de quem estava lá, Nettie Baker oferece uma narrativa que mistura rigor documental e afeto filial.

“Jogue fora tudo o que você pensava que sabia sobre eles”, escreve Nettie. “Conheça o jovem Ginger, Jack e Eric e esteja preparado para surpresas.”

Por £17,99, a obra já é considerada por críticos britânicos um “must-have” para fãs e historiadores da música — e, principalmente, uma forma de ver o Cream (sem o “The”) como ele realmente foi: um relâmpago que incendiou o blues britânico e sumiu antes que o público piscasse.