O Caseiro da Margem (2025)
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I can stand a little rain |
Eu posso aguentar uma chuvinha
Eu posso aguentar uma chuvinha |

FUNDE-SE COM VIGOR DA FORÇA VERDE — 4 DE DEZEMBRO, 2025
No sábado, na hora do jogo, fiquei no batente até as dez da noite — trabalhei tanto que até peguei uma febre do rato. Sou o peão da vassoura, caseiro do terreno, poseiro da terra. Faço de tudo um pouco: amarro arame na tela, estico toldo, limpo globo de luz lá no alto, queimo o piso e depois corro pra proteger o chão fresco com lona. No serviço público, confesso, me acomodei demais.
Hoje estou como naquela música do Joe Cocker, I Can Stand a Little Rain — posso suportar uma chuvinha. A letra fala da resistência diária, de segurar as pequenas dores enquanto a vida empurra os desafios grandes demais pra caber no bolso.
Choveu, então entramos pra dentro pra lixar as paredes estufadas pela água. Agora, depois do café passado pela Marizan — porque mesmo no cansaço a vida guarda suas delicadezas — vou caminhar pela relva molhada até a beira do córrego.
Márcio, o vigilante, me disse de manhã que conhece o pessoal que mora lá no alto do morro — justamente nas casas azuis que surgem por cima do mar de verde. Apontou com o queixo, como quem revela um segredo antigo. Olhei de novo para a paisagem e pensei que, daqui a alguns meses, talvez nem dê mais para ver essas casas. A natureza anda com pressa.
Ontem mesmo esticamos tela de galinheiro ali perto. Na foto dá pra ver o serviço fresco, esse improviso que vira definitivo. E percebi, olhando bem, que meu plano de deixar as árvores fecharem a visão daquela sobra — a sobra feia da cidade que a gente não quer ver — está funcionando sem eu mover um dedo. É só deixar.
As bananeiras novinhas crescem com aquela pose de quem sabe exatamente o que está fazendo. Outras plantas disputam espaço, mesmo que as lagartas em cio mastiguem as palhas como se fosse banquete de domingo. A vida aqui é assim: uma coisa come, outra cresce, outra renasce. Eu, do lado de cá, só observo.
O mato sobe. A cidade encolhe. E a crônica do dia acontece sozinha, verde, úmida e teimosa.
CRÔNICA MOLHADA
Nessa semana fui trabalhador de calendário torto: quarta, quinta e sexta empurrando o mundo com o ombro. Amanhã seria sábado de folga — em teoria. Folga mesmo só existe na cabeça dos outros. Mas uma certeza eu tenho: aquele evento na ponte, na Asa Norte, não me pega. Falta-me coragem. Coragem pra multidão, pra música alta, pra atravessar a cidade inteira. A única coragem que tenho — e essa nunca me larga — é a de falar sem parar, costurando conversa como quem remenda rede furada.
Depois de pintar as cinco colunas de tijolo aparente — que cobri com tinta branca por pura teimosia estética — fui dar um rolê pelo quintal. A casa é meu território, meu auditório, meu retiro. Fui conferir se tudo estava nos conformes, como se a natureza alguma vez tivesse obedecido a alguém.
As mangueiras me olharam lá de cima, cheias de frutos ainda verdes, como pequenos mundos escondidos atrás das folhas. O quintal respirava em silêncio. Os verdes se multiplicavam em camadas que a mente não alcança. É um verde que não acaba nunca — um verde que te engole e te devolve renovado.
Quase seis da tarde e caiu uma chuva grossa no Guará. Daquelas que fazem barulho de vida. Aqui no meu pedaço não foi temporal, não — foi só uma chuvinha educada, sentimental, uma November Rain do cerrado, acompanhada pelo eco antigo do refrão:
“Pisa nesse chão com força, ô sinhá…”
E o quintal ficou assim: molhado, cheiroso, vivo — cada folha recebendo sua própria benção.
CRÔNICA DA MARGEM ÚMIDA
A paisagem aqui é um cerrado úmido, indomado, moldado pela mão humana, mas apenas até onde a natureza permite. As palmeiras altas — essas mesmas da foto, de tronco vestido com saias de palha — não nasceram por acaso. São obra do Francisquinho, nosso caseiro-louco de coração bom, que gostava de dar rolês a cavalo e conversar com as plantas como com velhos conhecidos.
Foi ele quem encontrou, num dia qualquer, as sementes escondidas nos frutos do buriti. Plantar buriti é quase um pacto: a germinação é lenta, caprichosa, a semente é recalcitrante — não tolera secar, não aceita pressa. Precisa de campo úmido constante, chão de vereda. É um nascimento demorado, como tudo que vale a pena. Mas quando brota… vira guardião de nascente, defensor de margens frágeis, sentinela contra erosão.
Essa trilha de buritis salvou a beira do córrego. Antes deles, a água barrenta avançava, comendo a terra pelas beiradas, engolindo passado e futuro de uma vez só. Os buritis seguraram o mundo no lugar.
Teve até fiscal da SEMAHR que apareceu perguntando se tínhamos nota fiscal dos frutos. Nota fiscal de buriti — veja só. Enquanto isso, a natureza cuidava de tudo sozinha.
Passamos o ano inteiro construindo passarelas até a beira do córrego. Madeira aqui, reforço ali. Hoje é um alívio ver essas passarelas funcionando, ligando a terra firme ao solo original que, pouco a pouco, volta a se assentar, a respirar, sem medo da erosão.
Na hora do almoço, lá fui eu — ajuntar palhas, recolher o que o vento trouxe, erguer mais uma pequena barreira humana na margem. É artesanal, é improvisado, mas funciona. Funciona porque é feito com cuidado.
Essa é a minha onda.
Essa é a minha ecologia.
Não tenho objetivo — tenho instinto.
Instinto de preservação.
E isso, no fim das contas, qualquer um de nós tem.
Basta precisar usar.