Do Próprio Bol$o: treze milhões, quarenta e seis mil, duzentos e setenta e cinco (2025)
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Prelúdio — O Rememorial
Em tempos de incerteza, volto-me ao passado não como refúgio, mas como matéria-prima. Falta grana, falta traquejo, e o futuro às vezes parece uma névoa — mas o impulso criativo não morre. Chamo de experimento rememorial essa tentativa de reaproveitar o vivido, de relançar velhos fragmentos em novas molduras.
Já lancei muitas modas sem perceber; agora, lanço versões estendidas de mim mesmo. Refaço os passos, revisito cenas, resgato sons e imagens que resistem como brasas no arquivo digital. As memórias são fitas que nunca rebobinam direito, mas ainda tocam — chiadas, imperfeitas, reais.
No Do Próprio Bol$o, essa onda de revisitação ganha corpo. São treze milhões, quarenta e seis mil, duzentos e setenta e cinco rastros digitais que não cabem num arquivo, nem numa biografia. Cada clique é uma fagulha do que fomos e do que ainda queremos ser: rock, resistência e lembrança viva.

Do Próprio Bol$o: treze milhões, quarenta e seis mil, duzentos e setenta e cinco
13.046.275 visitas — Em onda de balanço e espanto, olho para o contador do site: 13.046.275 visitas. É um número que não cabe mais no papel — uma multidão invisível, silenciosa, que passou pela mesma esquina virtual, pela mesma chama acesa no Guará. São treze milhões de curiosos, cúmplices, amigos distantes, roqueiros nostálgicos e pesquisadores improváveis que tropeçaram em alguma página, vídeo ou lembrança do Do Próprio Bol$o.
Mais de uma década no ar, sobrevivendo à instabilidade dos servidores, à indiferença dos algoritmos e à pressa do tempo, o site virou abrigo — um arquivo vivo da cena. Cada clique é uma pegada. Cada visualização é uma microtestemunha da resistência cultural que Brasília quase esqueceu, mas que persiste na teimosia de quem ainda acredita que um show no gramado vale tanto quanto uma matéria de capa.
Treze milhões de rastros. Treze milhões de passagens. Um eco prolongado de guitarras, manifestos, grafites e noites de gravação. O Do Próprio Bol$o não é só um site — é um jardim de memórias cultivado à unha, uma ponte entre o analógico e o sonho. E o contador continua rodando, como um relógio que não mede o tempo, mas a fé de quem nunca desistiu de registrar o que viveu.
Ou:

O Dia em que Tonho Pediu 300 Reais
Pensei que Tonho era um cara legal. Era desses que falam de som, de palco, de sonhos com brilho nos olhos. Mas um dia chegou para mim — na maior cara dura — e pediu trezentos reais.
Não era o valor em si. Era o gesto. O tom. Aquela sensação de que, no fundo, o mundo da música independente é uma feira livre onde o fiado nunca acaba e o fiador sempre sou eu.
Por um instante, pensei em fazer uma análise detalhada do trabalho musical dele. Mostrar as alternativas, as concordâncias, os pontos de fuga. Explicar quem realmente mandava na grana, quem era o tal “gerente de marketing” da banda, quem pegava os patrocínios por ter o dom de pedir. Eu, no meio de tudo, não passava de um pobre diabo — produtor, idealista e contador de planilhas de shows que mal se pagavam.
Esses fatos corriqueiros, se jogados na mesa, poderiam pôr fim à minha carreira de produtor. Mas ainda assim, me corroía uma curiosidade: quem tomava conta dos ensaios? Quem marcava as datas? Quem, afinal, guiava aquele barco furado?
Eu queria perguntar a Tonho se ele sabia situar o próprio trabalho dentro do underground — ou se o que faziam não passava de uma burguesia preguiçosa e fedida, vestida de rebeldia para inglês ver. Queria que eles rompem com o comodismo, criassem coragem, produzissem o próprio show, parassem de viajar com sonhos alheios.
Enquanto isso, lá estavam as planilhas da última apresentação — com números que ninguém queria ver — e a conta a pagar, repousando sobre a mesa, como um espelho do que é ser independente num país onde a arte sempre custa caro demais.