Bob Wilson volta à cena

 

Bob Wilson diz ser contra o realismo
Folha On Line - 26 nov. / 2008

 

Como parte das comemorações dos 50 anos da Ilustrada, foi realizada, no dia (25/11), uma sabatina com o artista e dramaturgo Bob Wilson. Durante a entrevista, realizada no Masp, ele afirmou que seu trabalho é contra o realismo, uma vez que "fazer arte é algo artificial. Estar num palco não é natural. É uma mentira". O evento contou com a presença de Marcos Augusto Gonçalves, editor da Ilustrada, Nelson de Sá, colunista da Folha, Marcos Flamínio Peres, editor do caderno Mais! e Fábio Cypriano, crítico de arte da Folha. Veja a sabatina na íntegra no videocast a seguir. O dramaturgo explicou que o espaço do palco e o da platéia são diferentes e, por isso, considera mais "honesto" o ator se movimentar de forma artificial no teatro.

Para Wilson, o artista só será completamente "livre" no palco, quando seus movimentos se tornam mecânicos. "Quanto mais você repete o trabalho, mais livre se é. Como andar de bicicleta. Quando se aprende, você faz sem pensar", diz.

Linguagem corporal

Ele diz que "uma imagem vale mais que mil palavras", que é também o lema de seu trabalho. O dramaturgo explica que a linguagem corporal é um aspecto de grande valia não só no teatro, mas também na televisão. Para Wilson, assistir à televisão sem som faz com que se compreenda melhor o que se está assistindo pois, dessa forma, "é possível perceber detalhes sobre a aparência dos personagens e do cenário, além de analisar a linguagem corporal".


Trabalho


Bob Wilson, 67, é um dos artistas teatrais mais importantes da atualidade. Uma parte de seu trabalho pode ser vista atualmente no Sesc Pinheiros, na mostra "Voom Portraits".

A exposição traz 11 retratos de celebridades, artistas, intelectuais e até mesmo animais, todos apresentados em telas de plasma de alta definição em grande escala, e cada um deles acompanhado por uma trilha musical original.

 

Bob Wilson volta à cena em Nova York
Diário de Nova York
Cultura e Política na Maior Cidade Americana
por Marília Martins - oglobo.com/blogs

10 jul. / 2007 - A estréia de Bob Wilson, hoje, no Festival de Verão do Lincoln Center é um dos acontecimentos artísticos de 2007, num ano em que a temporada teatral tem sido excepcional, tanto na Broadway quanto nos circuitos off-Broadway. Wilson não apresenta um espetáculo novo. Sua versão para "As fábulas de La Fontaine" foi originalmente encenada em 2004 na Comedie Française, com o melhor elenco de atores de uma das mais antigas e tradicionais companhias teatrais da Europa. O diretor selecionou 19 fábulas e a elas imprimiu a estética clean característica de seu teatro épico, com música composta por Michael Galasso. O texto é falado em francês, com legendas em inglês.

Wilson é um dos raros encenadores contemporâneos que podem ser definidos como criadores de uma linguagem cênica. Seu teatro se marca por uma rigorosa economia de recursos combinada com forte impacto visual. É um espetáculo que se vale dos imensos espaços vazios no palco, dos efeitos milimétricos de luz, do gestual coreográfico dos atores, dos cenários sugeridos por objetos, da concentração de cenas, da precisão do texto. A estréia americana de sua montagem francesa de 2004 só enfatiza a falta que faz a sua presença nas temporadas regulares. Wilson hoje se dedica ao seu centro experimental, Watermill, nas cercanias de Nova York, e a correr o mundo com suas encenações: "As fábulas de La Fontaine" é o seu nono espetáculo em 2007.

Julho também marca a estréia no circuito Cinemax de um documentário sobre sua trajetória e sua extensa pesquisa teatral, intitulado "Absolute Wilson", dirigido por Katharina Otto-Bernstein. O filme entra em cartaz dia 17. E o centro experimental Watermill abre as portas para o público no dia 28 de julho, às 18h, a fim de comemorar o primeiro ano de seu programa de artistas residentes em Watermill. A programação prevê a exibição de "VOOM Zoo" uma série de vídeos de Wilson sobre a vida dos animais. O evento terá mostra de trabalhos de Marina Abramovic, Cecily Brown, Douglas Gordon, Jenny Holzer, Alex Katz, Anselm Kiefer, Sol Lewitt, Michal Rovner, David Salle e Dana Schutz. Maiores informações no site www.watermillcenter.org

 


Philip Glass e Bob Wilson (1976) Foto: Robert Mapplethorpe

O traço de Bob Wilson
Galeria exibe gravuras do diretor americano
(Roger Lerina – Zero Hora)

12 out. / 2001 – Internacionalmente reconhecido como um dos mais influentes homens de teatro da atualidade, o norte-americano Bob Wilson também é artista plástico.

A Galeria Gestual abre hoje mostra de 11 litografias da série criada pelo encenador a partir da ópera “Parsifal”, de Wagner.

Editadas em 1985 na Alemanha, as litos fazem parte de uma trilogia de séries inspiradas em dramas líricos concebidas entre 1984 e 1986 e exibidas inicialmente em Munique, na Galerie Fred Jahn. Além da “Parsifal”, serviram também de tema a Bob Wilson as óperas “Medea” e “Alceste” – as três posteriormente levadas ao palco pelo diretor, em mais de uma montagem. Das 19 litografias de “Parsifal”, a Galeria Gestual vai expor 11.

 - Alguns desses trabalhos estão esgotados, outros não tinham a assinatura do autor e preferimos não trazê-los informa o proprietário da Gestual, Carlos Gallo.

 A série foi impressa em dimensões consideradas grandes para a técnica de litografia (cada obra mede em torno de 65 cm x 80 cm) e numa tiragem limitada (apenas 35 cópias de cada trabalho). A galeria está comercializando as litografias a R$ 650 a unidade, incluindo moldura.
 Nascido em 1941, o texano Bob Wilson é um criador profícuo, já tendo dirigido dezenas de espetáculos, como “A Letter for Queen Victoria”, e óperas - a mais célebre delas é “Einstein on the Beach” (1976), com música de Philip Glass. O diretor revolucionou a cena mundial em meados dos 70 com suas obras de longuíssima duração (KA MOUNTain and GUARDenia Terrace se estendia por sete dias), em que os aspectos visuais e cênicos da montagem tinham mais importância do que o texto.

 Com os contatos que manteve em Munique em setembro passado com o editor e galerista Fred Jahn – e que proporcionaram a vinda das obras de Wilson -, Carlos Gallo pretende trazer a Porto Alegre exposições com trabalhos de artistas internacionais:
 - Se tudo correr bem, queremos mostrar no ano que vem litos de Beuys, Calder, Tàpies e Christo.

 O QUE: Parsifal, exposição de 11 litogravuras do americano Bob Wilson
 QUANDO: de hoje até o dia 31 de outubro. De segundas a sextas, das 10h às 12h e das 14h às 19h. Sábados, das 10h às 13h
 ONDE: na Galeria Gestual (Rua Cel. Lucas de Oliveira, 21)

 

TEATRO
Vanguarda em guerra
Luís André do Prado revista época edição 27 - 23 nov. / 1998

Gerald Thomas e Zé Celso Martinez polemizam sobre os rumos das artes cênicas no Brasil

O diretor americano Bob Wilson não sabe, mas seu teatro de vanguarda, repleto de efeitos visuais e mensagens cifradas, acabou levando dois dos mais importantes encenadores brasileiros, Gerald Thomas e José Celso Martinez Corrêa, a uma discussão acalorada. "Eu li Época e achei uma burrice uma pessoa como o Zé Celso continuar falando mal e me comparando a Bob Wilson. Adoro o Bob, mas não vejo nada em comum entre o meu teatro, em que os atores suam, e o dele, em que as figuras são completamente estáticas. Não admito uma leitura tão rasa e estereotipante." Com essa resposta enviesada, Thomas mantém o tom do artigo que publicou na Folha de S.Paulo no último dia 6 comentando opiniões expressas por Zé Celso em entrevista publicada na edição de Época de 2 de novembro.

Nela, Zé Celso falava da estréia, em São Paulo, de seu espetáculo Cacilda e também divagava sobre os rumos do teatro atual. Entre outras coisas, admitiu não se identificar com o teatro de Bob Wilson, "apesar de entender a contribuição que ele deu principalmente ao trabalho do Gerald Thomas", e ironizou: "Você vai ver o Bob Wilson e parece que está folheando uma revista". A declaração foi suficiente para que Thomas se sentisse "estarrecido" e reagisse com ferocidade. "Zé Celso - obviamente inseguro e confuso (envergonhado talvez) - resolveu optar por ecoar, vergonhosamente, a opinião da classe média de anos atrás, que enxergava em Wilson o artista incompreensível", escreveu.

A polêmica estaria circunscrita a mera questão de opinião pessoal se não envolvesse dois profissionais que contribuíram decisivamente para a renovação das artes cênicas no Brasil nas últimas décadas. Há cerca de 40 anos sediado em seu quartel-general, o Teatro Oficina, no bairro do Bexiga, "rodeado de Silvio Santos por todos os lados", como gosta de dizer, Zé Celso começou a carreira na virada para os anos 60 e fez história com espetáculos que somaram contribuições do teatro dialético do mestre alemão Bertolt Brecht com a antropofagia de Oswald de Andrade e a contracultura. Gerald bebeu em outras fontes; sua carreira ganhou força em meados dos anos 80 em espetáculos de forte impacto visual, como Carmem com Filtro, Trilogia Kafka etc., que lhe renderam a pecha, reiteradas vezes contestada, de discípulo nacional de Bob Wilson. Apesar da enorme distância estética e ideológica que os separa, há um ponto que une os dois diretores: o gosto pela polêmica, no palco ou fora dele.

Gerald Thomas, que reside em Nova York, está de passagem pelo Brasil não para montar mais um espetáculo, mas para extinguir definitivamente sua Companhia de Ópera Seca. "Como estou partindo para o cinema e para a televisão nos Estados Unidos, aproveitei para radicalizar e acabar com uma coisa que insistia em continuar viva sem ter subsídios financeiros para isso", conta. Além de uma nova peça, com estréia marcada para dezembro no Teatro La MaMa, Thomas tem na agenda óperas programadas na Áustria, Alemanha e Holanda.

"Não tenho nada contra o teatro do Zé Celso. Mas, contra as opiniões dele e certas macaquices, tenho muito. Para o bem das pessoas, já estou voltando para Nova York. O Brasil é um país de pobres coitados; não se pode dar opinião que o trem descarrila, é uma loucura", lamenta. Nem tão coitado assim, Zé Celso arma seu contra-ataque. "O que me impressiona mais no Gerald é uma visão política colonial que ele tem da cultura. Toquei num tabu que para ele não podia ser tocado. Ele age como se fosse um novo inspetor-geral, um novo mantenedor do padrão internacional do teatro brasileiro, absolutamente submisso à estética dominante na ótica liberal."

Reafirmando sua rejeição a Wilson, o diretor do Oficina o define como "um grande artista que recebe rios de dinheiro para fazer as pessoas dormir no teatro. As grandes verbas vão para ele, que talvez seja mesmo o sujeito que melhor exprime o nosso tempo, dentro de um sistema liberal imposto. Sua estética profilática, com camisinha, é absolutamente querida por essa nova dominação colonial". Em meio a esse contexto de espetáculos ascéticos, capazes de "preencher o buraco vazio" dos teatros que a cultura liberal tem de manter, Zé Celso inclui também "as óperas que o Gerald dirige na Bélgica, na Dinamarca e sei lá onde. São casas de cultura mantidas pela burocracia, onde é lavado o dinheiro dos lucros das taxas altas de juros".

Mas, afinal, o que Bob Wilson e a ordem internacional globalizante têm a ver com os rumos estéticos do teatro brasileiro? Muita coisa. Já há consenso histórico (exceto talvez pelo próprio Thomas) de que o teatro pós-moderno, lá fora como aqui, foi especialmente marcado pela valorização do espetáculo visual - tendência da qual Bob Wilson é o maior representante no mundo. No Brasil, diretores como Ulysses Cruz ou Gabriel Villela (além de Thomas) foram fortemente marcados por essa tendência. Há algum tempo fala-se, contudo, em esgotamento desse filão, volta dos clássicos, valorização da palavra etc.

Um tanto alheio a toda essa problemática estética e com tanto trânsito internacional quanto Thomas, por vias diversas, o diretor Augusto Boal, criador do Centro do Teatro do Oprimido, com células espalhadas em várias partes do mundo, defende a divergência: "Sou contra o pensamento único, contra a globalização, contra a Pax Romana. Que cada um explique o que faz, o que pretende, e ganhamos todos com isso".

De fato, o mundo hoje é absolutamente não-linear. Já se foi o tempo da arte de caminho único. Nesse ponto, é difícil discordar de Thomas quando diz: "Não há uma única forma de fazer nada hoje em dia. É tudo tão multifacetado que dá para enlouquecer. Com o teatro não podia ser diferente, ele está indo em todas as direções e, se alguém apontar uma tendência agora, por favor, que vá para as colunas de Jerusalém, rápido".

 


Bob Wilson e seu teatro do ‘non’ sense’
Jornal do Brasil


19 jun. / 1998 - Cabelo escovinha, óculos combinando com o blazer escuro e uma fala mansa, quase monocórdica, subitamente quebrada por rápidos gestos. Um dos mais importantes diretores teatrais do planeta, o americano Robert Wilson conversou com os jornalistas na quarta-feira no Teatro Municipal do Rio, onde apresenta, de hoje a segunda-feira, a ópera-rock “Time rocker”, com músicas de Lou Reed e texto de Darryl Pinckkney.

Por quase uma hora, Bob Wilson falou sobre seus novos projetos e deu algumas pistas sobre seu método de trabalho, que influenciou no Brasil toda uma geração de encenadores mais atenta aos significados da imagem do que ao poder do texto. “Para mim, a coreografia dos movimentos é, também, parte do texto”, diz Wilson. O diretor lembra que quando deixou os Estados Unidos para trabalhar na Alemanha, convidado pela direção do Thalia Theater, de Hamburgo, se surpreendeu com a maneira como os atores decoravam o texto. “Não consigo imaginar como ainda se pode ensaiar simplesmente lendo livros em volta de uma mesa. Meu trabalho se assemelha mais ao de um coreógrafo que vai trabalhando o espetáculo em blocos”, explica. “A total consciência do copo é a essência do meu trabalho”, resumiu.

“Time rocker” é o primeiro espetáculo encenado por Bob Wilson no Rio. O espetáculo é o último pedaço de uma trilogia que conta ainda com “The Black Rider” e “Alice”, com músicas de Tom Waits. Fiel a seu estilo non sense, Wilson afirmou que os três espetáculos não têm qualquer relação entre si. “Mas é exatamente este o interesse!”, diz o diretor. Pouco depois, deu uma pequena amostra de como trabalha com seus atores. Em uma crítica às interpretações realistas, disse que quando vê um ator tentando andar no palco como anda nas ruas da cidade só tem uma reação: “No!”, grita.

Talvez por isso o diretor afirme que o sentido mais importante para os que querem compreender seu trabalho é o da audição. “Time rocker apresenta uma seqüência única de sons que depende do comportamento da platéia. Por isso, cada noite é apresentado um espetáculo diferente”, garantiu. Definindo o teatro naturalista como uma grande mentira, Bob Wilson diz que prefere a artificialidade do nô japonês aos textos de Ibsen ou Tennessee Williams. “Quando se busca o psicológico no palco perde-se o mais importante: a experiência. Tentar discutir ideias acaba levando ao aborrecimento. Cansa”, ironizou. Para ele, só aceitando o fato de que estar sobre o palco é algo artificial pode-se fazer algo natural. “Não tenho nada contra o teatro naturalista, mas há que se ouvir o corpo”, disse.

Bob Wilson se definiu como um diretor de mente aberta. E, portanto, incapaz de ficar escravo de determinadas interpretações. Depois de anunciar seus novos projetos – um filme, duas peças com o compositor Philip Glass sobre o tema dos descobrimentos e um outro musical com Lou Reed para depois do ano 2000 -, o diretor encerrou a coletiva como um profeta à espera de decifração. Deixou apenas uma pista para que se entenda (ou não) o que tinha dito: “A razão de ser de um artista é fazer perguntas. Se você já sabe o que é alguma coisa, não há razão para fazê-la”.


Bob Wilson emociona Paris com 'Orlando'
Fernanda Scalzo - De Paris
9. Rumo ao Farol - Textos publicado na Folha

23 out. / 1993 - Bob Wilson não deixa mais Paris. Foi tanto o sucesso de sua adaptação de "Orlando", que uma nova temporada já está prevista entre 31 de maio e 3 de julho do ano que vem, no Teatro Odeon. Nesse meio tempo, Wilson mostra na Opera Bastille sua montagem de "Madame Butterfly", a partir de novembro.

A atriz Isabelle Huppert, que leva o monólogo da montagem que fez Bob Wilson do romance de Virginia Woolf, é a grande responsável pelo sucesso francês de "Orlando". A atriz consegue imprimir um tom muito pessoal ao formalismo da montagem, que prevê cada gesto do personagem.

Deitada num canapé com os pés, um sobre o outro, apontados para cima e uma mão milimetricamente apoiada na testa, Huppert começa a desfiar o monólogo de "Orlando", que vai percorrer quatro séculos de história. Os objetos de cena, o canapé, um aparador que vai surgir depois, são todos pensados para não definir o tempo e o lugar em que está Orlando. Servem apenas como alusão a um mundo real.

A iluminação faz o papel de um outro ator e contracena com Huppert. É o espaço, que pode ser o palco inteiro, ou metade dele, ou ainda só uma porta, sempre definido pela luz, que condiciona os movimentos da atriz. Sua sombra faz o papel do outro.
O que interessa, nesta montagem de Bob Wilson, são os movimentos internos de Orlando, marcados por gestos muito precisos e pela alteração do tom de voz da atriz e também pelo lugar de onde ela sai: que pode ser a boca de Isabelle Huppert, ou de dois grupos de alto-falantes que se alternam, jogando o som como se fosse para dentro e para fora de Orlando.

Sozinha no palco por duas horas de espetáculo sem intervalo, Isabelle Huppert vai se esvaindo em palavras, entremeadas por silêncio e música. Uma melodia hipnótica que embala os humores do personagem e marca as passagens do tempo.

O romance "Orlando" (1928) de Virginia Woolf foi inspirado por Vitta Sackville-West, também escritora, por quem Woolf era apaixonada. Orlando começa sua história como homem, amante da rainha Elisabeth. Depois de ser abandonado por uma patinadora russa, Orlando vai para Constantinopla como embaixador, onde se torna mulher. Volta então para a Inglaterra e chega ao século 20. Bob Wilson já havia apresentado essa mesma montagem em Berlim, em 1989, com Jutta Lampe no lugar de Isabelle Huppert.

 

Diabo une Wilson, Waits e Burroughs
Marcelo Leite – Folha de S. Paulo,  29 abr. / 1990.
De Berlim Ocidental

O diabo está à solta. Imagine o supra-sumo do “cult”: duas horas e meia de teatro encenado pelo mago texano Robert Wilson, com versos do veterano beatnik Willliam Burroughs musicados por Tom Waits. Os cenários parecem saídos de um filme expressionista alemão e abrigam uma daptação livre da fábula setecentista “O Franco-Atirador”, em que as alusões ao mal deste século (drogas) começam, mas não terminam, com o fato de ter sido traduzida pela primeira vez do alemão para o inglês pelo opiômano Thomas de Quincey. E “The Black Rider” (o cavaleiro negro), que estreou no último dia 31 no Thalia Theater de Hamburgo, teve sua apresentação em São Paulo adiada.

Ponha a culpa no Plano Collor. Tudo estava certo para a peça ser encenada durante o festival Tucano Artes 90, previsto para acontecer em agosto em São Paulo. Mas no início deste mês chegou uma carta da organização do festival ao Thalia Theater dizendo que ele seria suspenso até que a situação econômica se anuviasse. Monique Gardenberg, 31, organizadora do Tucano Artes, disse que o festival (e a apresentação de “The Black Rider”) está adiado para novembro, mas falta ainda uma confirmação.

Resta saber se a peça vai desencadear em São Paulo a mesma combinação de sucesso de público e polêmica crítica que deu o que falar na hanseática Hamburgo. Na noite de estréia, os espectadores não se limitaram a aplaudir, batendo os pés no chão como em um estádio de futebol.

“The Black Rider” é o espetáculo da temporada e também o mais caro: 4 milhões de marcos (cerca de Cr$ 180 milhões). Seu financiamento resultou de um esquema que já extrapola o já abundante sistema de assinaturas e subvenções que sustenta o teatro alemão-ocidental. Até uma empresa, a Take 12, foi criada para angariar colaborações.

Mesmo quem não assistiu a peça percebe pelas críticas publicadas que Robert Wilson usou e abusou de pirotécnicas cênicas para narrar com toneladas de alusões e citações a história do escriturário Wilhelm (Guilherme), que pactua com o diabo – com suas orelhas em brasa, na elogiada caracterização do ator Dominique Horwitz – para obter a mão de Kathe, filha do caçador.

“Composições plásticas encantadoras”, elogiou o diário “Frankfurter Rundschau”. A revista “Der Spiegel” deixou de lado a crítica tradicional para publicar uma reportagem sobre o esquema de marketing para “The Black Rider”, sob o título “Pacto diabólico por milhões”. Seu pecado é o do excesso, tecla batida bem por Gerhard Stadelmaier no “Frankfurter Allgemeine”: muito barulho, muita cor, muito efeito, muito trejeito. Uma “mistura impalatável”, segundo Stadelmaier.

A estrela de Wilson segue em frente na cena teatral alemã dona de uma sede visual que Heiner Mueller já comparou com o voyeurismo. Sua próxima estação é Frankfurt, a capital do dinheiro, onde vai dirigir o “Rei Lear” de Shakespeare com muito “silêncio e espaço”. Depois volta para o porto de seu Belzebu, Hamburgo, e estreará em 24 de março de 1991 uma versão da ópera “Parsifal”, de Wagner, na qual trabalha há uma década.

Roteiro mostra analogia atual
 

Berlim Ocidental. A história do pacto com o diabo para obter as balas mágicas (o subitítulo da peça é “The Casting of the Magic Bullets”) com quem Wilhelm passaria pela prova de tiro, condição para se casar com Kathe, tem longa tradição na literatura alemã. Ganhou até uma versão em ópera, pelas mãos do compositor alemão Carl Maria von Weber e Friedrich Kind,. Autor do libreto: “Freischuetz”. Nesse caso, a sina do escriturário era revogada no último instante pela intervenção divina.

Na leitura pós-moderna de Wilson, é um capeta sedutor que está no comando da máquina teatral. Como na versão original, uma fábula popular compilada por August Apel e Friedrich Laun em 1810 e traduzida por Thomas de Quincey em 1823, tudo acaba mal: o último tiro pertence ao demônio, que o faz atingir não a pomba escolhida como alvo, mas a testa da novia. Pai e mãe morrem de desgosto, Wilhelm termina seus dias no hospício.

O escritor americano William Burroughs não resistiu à tentação de uma analogia contemporânea. As balas mágicas “levam diretamente à obra do demônio, exatamente como a marijuana (Burroughs: marywanna) leva à heroína” – essa é a deixa para um personagem invisível, a droga. A dependência como pacto deste final de século, administrado por um satanás que está mais para “entertainer” do que para “Cavaleiro Negro”. (Marcelo Leite).

 

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