DIÁRIO A BORDO DE UMA NAVE LOUCA

Diário a bordo de uma nave louca

por Roberto Gicello Bastos

“- Afinal, você é um amador ou profissional?

- Ora, sou um amador profissional. Busco profissionalizar o delírio!”

Elton Skartazzini

Diário de bordo de uma nave louca é para quem guia a nave. Para quem nela embarca, é só mudar a preposição: Diário a bordo de uma nave louca. Esta sutileza faz muita diferença.

E lá vamos nós, passageiros, sentir o trepidar do voo, o flutuar da nau, curtindo as muitas paisagens – às vezes de beleza surpreendente e impactante, às vezes cinzentas e tediosas. Tudo pela janelinha das poesias e das imagens do inconsciente do artista, através da espuma das nebulosas a nos magoar a retina com um brilho manso. Nosso voo tem uma honestíssima forma de chegar à alma de quem lê e de quem vê.

Tem gente que pensa que depois que se nasce pode-se tornar poeta. Ilusão. Sofrência e engano, miragem e autoengano. Ou já se nasce poeta ou tudo é irremediável. Fazer poemas, versos soltos, é outra coisa – sim, já estão à disposição de qualquer um nas melhores casas do ramo técnicas e sortilégios para versar e poetar, em pó (“basta adicionar água e teremos uma métrica preciosa”) ou congelado (“basta por no microondas e o poema sai quentinho e saboroso”) . Portanto, vendem-se e compram-se formas de se escrever versos como se compram mangas-rosas nas feiras e sapatos nas sapatarias.

Elton Skartazzini é poeta – das palavras e das imagens. Não precisou adquirir sua verve e seu desvelo estético no Atacadão das Artes; seus versos e suas pinceladas vêm naturalmente, com a intensidade dos sóis das manhãs de sábado e com a melancolia dos girassóis das tardes de domingo. E, como cabe a todo poeta, seu desatino é seu destino.

Classificar e qualificar a escolha de estilo literário de cada artista é tão perigoso quanto trafegar à beira do abismo do preconceito. A subjetividade ameaça qualquer julgamento deste tipo.  Digo isto porque o trabalho exposto no portal Skartazzini debruça-se impiedosa e majestosamente sobre um diário iniciado na juventude (como o próprio título já indica) e sobre sua obra pictórica. A bem da verdade, o gênero diário pode ser tão consistente e renovador, profundo e transformador, quanto qualquer outra forma de expressão escrita: tanto assim que o Diário de Anne Frank está entre as cinco obras mais lidas do mundo nos últimos 50 anos – e isto não se deve apenas a prodígios da publicidade.

Esta combinação – diário com pintura – é argilosa e metafisicamente ardilosa. Mexe com a cabeça do que presta atenção a ambos os elementos: as palavras e as coisas, as palavras e as cores, os tempos verbais e a luz, a tristeza dos rostos perdidos no tempo e a força do futuro presuntivamente encontrado na arte e na família, nos amigos, na estrada poeirenta e, por fim, na serenidade da não-culpa por ainda não ter encontrado o sentido das coisas – a despeito de buscá-lo no chão vermelho da Samambaia de seus sonhos. Na verdade, o diário é o motor da obra e a pintura são suas asas. O diário tem poesia (“Sinto vontade de xorar, mas o tempo está tão seko”) e a iconografia tem uma prosa colorida.

Skartazzini inventou um jeito de escrever que incomoda quem lê (mesmo compreendendo-se o significado da tal grafia fonêmica); muito provavelmente incomoda tanto quanto a leitura de um poema psicografado em esperanto. Mas funciona; na juventude, acendemos lâmpadas que jamais apagaremos, ainda que sua luz não ilumine mais nada que interessa.

A trajetória do autor-pintor vem contada desde os tempos de menino-homem no interior do Rio Grande do Sul – passando por vicissitudes e contratempos existenciais em São Leopoldo e Porto Alegre, até aterrissar em Brasília, onde armou sua tenda de chão batido e de teto estrelado.

O site é bom porque é uma busca – uma obra aberta, como diria nosso amigo Umberto Eco. Seus textos têm o odor de Kafka e Bukowski, levemente aspergido por ciúme existencialista de Camus e Sartre. Gente de nosso saudoso século XX, cheio de napalm e de esperanças; século que mastigou nossa florida América Católica, século em que nascemos sem internet e com muita vontade de destruir, desconstruir e reconstruir. O texto do Skartazzini, destarte, tem cheiro de século passado, cheiro da nossa geração que atravessou os portais do milênio carregando a idade da razão como um fardo e como um karma. Quem nasceu naqueles tempos (tão próximos e tão distantes) carrega ainda nas costas uma era que inventou a bomba atômica, que descobriu a teoria da relatividade, que dissecou Freud e Marx, que inventou o cinema e que assistiu, pela tevê – outro invento soberano -, ao homem pisar na lua e às guerras em vivas cores ao vivo, e viu, via satélite, um mundo de horrores crus e de belezas cintilantes.

Em tempos de gente querendo aparecer a todo custo, pelejando por seus 15 minutos de fama, em tempos de exibicionismos feicibuquianos despressurizados pela falta de talento, Skartazzini diz ao vento: “Sou indiferente nessa miña indiferença”.

O site é feito em episódios e tem tratamento visual bem combinante entre funcionalidade digital e moldura estética. É bacana de embarcar e navegar.

O ponto dado sem nó está na espontaneidade do artista: “Estou noivo pela primeira vez na vida. E kero que pela última. Não sou dado a viver duas vezes a mesma esperiensia” – algo que soa tão poeticamente prosaico e gaúcho quanto os versos mais despretensiosos de Mário Quintana e tão direto vão ao pensamento quanto a prosa das cartas de Van Gogh a seu irmão Theo.

Por estas e outras razões, vale muito a pena dar um passeio nas páginas do Diário de bordo de uma nave louca ensaio e apresentação simultâneos – sem descer e sem suspender a cortina do palco da arte do meu amigo Alemão.

Boa viagem!

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